"Parece que o mundo acabou na quarta-feira." Empresária de Leiria teme vandalismo e pede Exército

Carlos Barroso/Lusa
Em Leiria, os donos das empresas fazem contas aos prejuízos: "Uma não tem telhado, outra tem duas naves completamente no chão, noutra só ficou betão. É um cenário aterrorizador"
"Um verdadeiro filme de terror. Parece que o mundo acabou na madrugada de quarta-feira." É como Maria João Almeida, proprietária de uma empresa de plásticos na Marinha Grande, descreve a devastação causada pela tempestade Kristin na zona de Leiria. A empresária pede ajuda do Exército, mas a PSP diz não ter registo de ocorrências criminais de relevo.
A empresária pinta o cenário leiriense à TSF: "Imagine-se o que é um telhado de fábrica no chão. À minha frente, rebentaram com quatro carros. Ficaram todos debaixo dos escombros daquele telhado."
A empresária explica que são os "particulares que têm de entrar em contacto com quem tenha camiões ou gruas" de forma a poder "tirar os escombros".
Na sua empresa na Marinha Grande, a Dreamplas, houve danos sérios no telhado, mas está tudo minimamente protegido. No entanto, Maria João Almeida vê ao seu redor "empresas completamente no chão".
"Uma não tem telhado, outra tem duas naves completamente no chão, noutra só ficou betão. É um cenário aterrorizador", relata, acrescentando: "Há estradas onde ainda não se passa, muitas árvores no chão, não há postos de eletricidade nem de telecomunicações."
As produções das empresas estão paradas e a "comunicação é impossível" fora do centro de Leiria.
A empresária estima prejuízos na ordem dos 300 mil euros. No que diz respeito a apoios, apenas a companhia de seguros a contactou.
"A Câmara Municipal de Leiria e a da Marinha Grande têm dois centros de apoio à comunidade - uma nos Pousos e outra no pavilhão no centro da Marinha Grande - porque não existem pessoas que consigam socorrer esta gente toda", menciona a empresária, referindo que da parte do Governo ainda "não apareceu ninguém.
Sem essa ajuda, é a solidariedade que tem reinado e a proprietária mais os seus 11 trabalhadores têm feito a sua parte. "Combinamos todos os dias de manhã na empresa. Hoje [sexta-feira] estivemos a ajudar alguns vizinhos a tirar os escombros do chão e a tentar limpar as vias", conta.
Mas o futuro inquieta a população. Se vier outra tempestade, os "escombros nas estradas, painéis e placas, podem começar a voar", causando mais problemas.
Neste cenário, Maria João Almeida ainda não sabe quando poderá reabrir as portas da Dreamplas.
Polícia não regista pilhagens, mas reforça presença
Os proprietários das empresas, segundo a mesma empresária, estão a tentar "tomar conta das mesmas", até durante a noite. Mas há quem receie que haja "vandalismo".
Visto que as autoridades "não conseguem chegar a todo o lado", Maria João Almeida apela ao apoio do Exército.
Apesar dos receios, o superintendente Domingos Urbano Antunes, responsável pela Polícia de Segurança Pública (PSP) de Leiria, diz não ter registado roubos nem pilhagens nas últimas noites.
Visto que "a população não tem capacidade para comunicar com a polícia esse tipo de ocorrências", o superintendente garante à TSF que a PSP tem estado presente junto das "fontes de abastecimento de todos os estabelecimentos comerciais e dos postos de abastecimento de combustível".
Segundo Domingos Urbano Antunes, a PSP reforçou a sua cobertura com 50 elementos da Escola Prática de Polícia, principalmente nas zonas de Pombal, Leiria e Marinha Grande.
A PSP assegura que os ânimos já estão mais calmos em Leiria, mas descreve uma "sensação geral de insegurança", consequência da "falta de iluminação pública e comunicação".
De modo a atenuar a situação, Domingos Urbano Antunes explica que a PSP "tem permitido que as pessoas se desloquem ao comando para carregar os telemóveis e enviarem mensagens aos familiares".
Durante as próximas horas, a prioridade da PSP será restabelecer o contacto entre familiares: "O nosso maior número de ocorrências prende-se com a busca de familiares para darmos o retorno. Se estão bem, se foram ao hospital, quais os danos que sofreram..."
Adicionalmente, a PSP terá de "identificar as casas que não estão habitadas", pertencentes a emigrantes e maiores "possíveis alvos de furto" - que se localizam sobretudo na zona de Pombal.