Pescadores denunciam escavações com recurso a explosivos no Rio Mondego. Governo diz que vai "defender interesse da comunidade"

Foto: Fredrik Öhlander/Unsplash
Alexandre Carvalho, um dos representantes dos pescadores e armadores da pesca local da Figueira da Foz alerta que as escavações com uso de explosivos no Rio Mondego durante a época da pesca da lampreia e sável são resultado "daquilo que eles (governo) ligam à pesca". O Ministério da Agricultura e Pescas tem "esperança que o problema possa ser resolvido".
Um grupo de pescadores e armadores da Figueira da Foz está a denunciar escavações com recurso a explosivos no Rio Mondego, alegando que vão condicionar a pesca da lampreia e do sável que começa este sábado.
Nesta altura do ano acontece a migração de peixes diádromos como a lampreia, o sável e a enguia que trocam a água doce pela a água salgada para desovarem, mas os pescadores da Figueira da Foz assumem-se preocupados que isso não venha a acontecer no Mondego.
Em declarações à TSF, Alexandre Carvalho, um dos representantes dos pescadores e armadores, conta que na região estão a acontecer "trabalhos de extração de laje de pedra já a alguns meses e que já não era para estar a ocorrer desde do dia 18 de novembro até final de abril, quado termina a época da caça da lampreia".
"Isto está no caderno da Declaração de Impacto Ambiental (DIA). Nesta época os trabalhos têm de ser minimizados, lá que não podem ser realizados. Isso não está a ser cumprido", aponta.
O pescador de lampreia explica que as explosões no Mondego "são de tal ordem" que na quinta-feira por volta das dez da manhã "ia um casal a fazer a sua caminhada e até pensou que fosse tremor de terra". Alexandre Carvalho esclarece que estas escavações têm um "impacto na totalidade" nos peixes.
"O peixe não entra, aliás na altura do rebentamento de pedra se vier a passar morre. Foi o que aconteceu nesta quinta-feira ao peixe que estava nas imediações , não sabia se eram tainhas, sardinhas ou robalos, mas ficaram todos a boiar. Eu tenho um vídeo que mostra no fim das explosões as cegonhas a comer o peixe que morreu e os que ficam atordoados, isto tem um impacto de 100%", destaca.
Os pescadores e armadores da Figueira da Foz temem que a pesca da lampreia e do sável não seja tão boa este ano: " Isto é gozar com o pescador, é um relato daquilo que eles ligam à pesca. Não queremos problemas com ninguém, só soluções. Existem outras dragagens a acontecer na parte sul do Rio Mondego. Os peixes deparam-se com cenários como este e não chegam a encostar", alerta.
Os pescadores e armadores da pesca local querem reunir-se com urgência com a administração do Porto de Aveiro que também gere o da Figueira da Foz mas ainda não pediram para ser ouvidos.
À TSF o secretário de Estado da Agricultura e Pescas, Salvador Malheiro, garante que o Governo já entrou em contacto com a administração portuária e aguarda uma resposta.
"Nós sabemos bem que esta obra é uma obra estruturante e que também é necessária. Contudo, também temos conhecimento que a Declaração de Impacto Ambiental obrigava a que todos os trabalhos ocorressem entre maio e novembro para não afetar este período de migração destas espécies. O Ministério da Agricultura e Pescas entrou em contacto de imediato com o Porto da Figueira da Foz, que é o dono de obra e com a Agência Portuguesa do Ambiente que tem a responsabilidade da DIA , no sentido de tentar saber o que se passa. Nós temos que defender o interesse da comunidade piscatória e é isso que vamos tentar fazer. Estamos a tentar obter esclarecimentos, espero que através do diálogo se possa chegar a uma solução que mitigue todo este problema."
O secretário de Estado das Pescas e do Mar tem esperança que a pesca da lampreia corra bem, apesar destes "acontecimentos não favorecerem nada a atividade da pesca desta espécie tão valiosa", acrescentando que "é preciso aguardar. "Estou confiante que o problema possa ser resolvido."
Contactada pela TSF, a Agência Portuguesa do Ambiente anuncia que também já pediu ao Porto de Aveiro para que suspenda os trabalhos de escavação neste período.