Projeto Radar combate "vulnerabilidade e solidão de pessoas mais velhas" em Lisboa

Pedro Correia/Global Imagens (arquivo)
Em parceria com outras organizações a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa apoia mais de dez mil pessoas em situação de isolamento social. O protocolo assinado em 2019 termina este ano, mas as instituições parceiras pretendem dar continuidade à iniciativa
Evitar situações extremas de isolamento social de idosos é uma das palavras de ordem do município de Lisboa e, por isso, a Santa Casa da Misericórdia da capital desenvolveu o Projeto Radar que apoia e acompanha todos os que tenham mais de 65 anos e residam no concelho. A iniciativa arrancou em 2019 e, desde então, conta com o apoio da PSP, dos bombeiros, das unidades locais de saúde, da câmara municipal e das juntas de freguesia da cidade.
Mário Rui André, da Santa Casa da Midericórdia de Lisboa, coordena a iniciativa e, em declarações à TSF, explica como o Projeto Radar atua "na área da intervenção social", de modo a "avaliar a situação [dos idosos] e enquadrá-los nos recursos da cidade". Para isso, também contam com a vigilância dos estabelecimentos comerciais - os chamados radares comunitários -, isto é, "farmácias, cabeleireiros, mercearias ou até mesmo padarias".
Mário Rui André sublinha que as lojas locais "têm contacto com as pessoas e a qualquer momento podem perceber se há situações em que alguém deixou de ir à loja ou vai mais confuso". Assim, a Santa Casa pode entrar em contacto com os idosos e avaliar melhor a situação de cada um.
O Projeto Radar envolve 45 mil pessoas e considera-se que, dessas, mais de dez mil vivam em situação de isolamento social. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a PSP fazem ações de rua diárias que envolvem visitas domiciliárias. "Estamos sempre a encontrar situações muito diversas como pessoas que não se sentem em segurança ou quem precise de apoio para limpeza ou até para mudar uma lâmpada", refere Mário Rui André.
O recente caso de uma idosa que foi encontrada morta em casa, na cidade do Porto, ao fim de dois anos não deixou o país indiferente e é para evitar casos destes que o Projeto Radar existe. Na perspetiva de Mário Rui André, situações como esta são um espelho da sociedade atual demonstrando que "as cidades estão muito individualistas e não olham para quem está ao lado". O projeto veio, considera, "colmatar esta situação e fazer com que estes casos não venham a acontecer" na capital.
"Na cidade de Lisboa, há 20 ou 30 anos, era muito recorrente [os idosos morrerem sozinhos em casa]. Hoje em dia, já é uma situação esporádica. Estamos atentos a estas situações", reitera.
O protocolo que deu origem ao Projeto Radar foi assinado em 2019 pelas 30 organizações parceiras e termina este ano, mas o coordenador da iniciativa afirma que "não pode acabar, tem de continuar". Mário Rui André defende que "os parceiros vão ter de renovar votos no sentido de continuar o projeto na cidade de Lisboa e torná-lo mais forte, mais consistente e mais atento".
À semelhança da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o presidente da Junta de Freguesia de Benfica também não tem dúvidas do mérito deste projeto. Ricardo Marques acredita que "ninguém entenderia o fim de um projeto que conseguiu de forma tão rápida consolidar-se no território e ganhar a confiança dos cidadãos e das entidades públicas".
"Nem todos os projetos que temos com a Santa Casa correram tão bem como este", argumenta.
Ricardo Marques explica que em Benfica, além das visitas domiciliárias diárias, também são feitas outras atividades como "almoços de primavera ou outono" fornecidos pela Junta de Freguesia. Por outro lado, também fornecem apoio logístico incluindo "transporte porta a porta". Só nesta freguesia o Projeto Radar acompanha quase três mil e quinhentas pessoas com mais de 65 anos. A maior parte delas entre os 75 e os 84 anos.