"Quem nos vem ajudar? Sejam rápidos." Rasto de destruição e prejuízos incalculáveis em Leiria uma semana após tempestade
Uma semana depois da passagem da tempestade, Leiria tenta reerguer-se, mas qualquer forasteiro constata que o cenário ainda é desolador. Basta conversar com qualquer habitante para perceber que há dúvidas quanto às ajudas, num momento em que a única certeza comum é a necessidade de celeridade na resposta desse auxílio.
Pessoas de cócoras a tentar consertar telhados, troncos de árvores cerrados, outros ainda tombados, lonas e plásticos na cobertura de casas, além de emaranhados de estruturas de ferro vergadas pela força do vento e pessoas que engrossam filas de espera em redor do Estádio Magalhães Pessoa, para receber ajuda dos bens doados por instituições, ou particulares do resto do país. São imagens comuns do dia a dia em Leiria, uma semana depois da passagem da tempestade Kristin, que deixou um rasto de destruição e prejuízos ainda incalculáveis.

Numa ronda pelas freguesias mais afetadas, quem sofre na pele o efeito da fúria do vento queixa-se essencialmente da falta de bens de primeira necessidade, em especial, de água, eletricidade e telecomunicações.
A pouco mais de dois quilómetros do centro da cidade, a povoação de Ponte de Cavaleiro ainda tem sinais da passagem da tempestade. Na estrada estreita de acesso, há sinais recentes de limpeza, mas largos troncos de árvore cortados permanecem nas bermas.
Logo à entrada da localidade, há um poste de alta tensão, rendilhado a ferro, que vergou com a força do vento e caiu para o lado de um ribeiro, representando perigo para todo o povoado vizinho. Por estes dias, 13 homens ao serviço E-Redes tentam chegar-lhe com a ajuda de retroescavadoras e o encarregado obra, Joaquim Alves, homem do Norte, natural de Vilaverde, há 43 anos na profissão, assegura que "nunca viu nada assim". Ainda assim, trabalham para devolver eletricidade às populações e admite, para "desenrascar", a opção de fazer passar cabos e linhas pelo solo, de forma a que a corrente elétrica passe para garantir a ligação.

Dentro do povoado, quase de minuto a minuto, entram carros no posto de combustível para abastecer, ou para encher "jerricans" que alimentam geradores.
Na zona de Cortes, onde habitam cerca de três mil pessoas, a rede de telecomunicações acabou de ser reposta, mas funciona ainda de forma intermitente. Manuel Reis, filho da terra, acabado de se reformar, após 40 anos dedicados à indústria da cerâmica, olha desolado para a paisagem e só espera que a ajuda do Estado chegue depressa.
"Sei que há muita ajuda a caminho, só espero que chegue rápido. Há muita gente sem nada e empresas completamente destruídas. O Governo determinou os 2,5 mil milhões de auxílio, espero que sejam distribuídos de forma justa e sem açambarcamentos", desabafa.
Noutro povoado vizinho, em Vidigal, existe eletricidade apenas na rua principal, todas as transversais permanecem às escuras. Um dos habitantes, Rui Santos, com 74 anos, afirma não ter outra alternativa senão pôr pés ao caminho para encher um bidão de combustível para alimentar o gerador que tem na garagem e garantir que a comida que tem dentro da arca frigorífica não se estrague. Não lamenta a sorte, diz que a filha está pior. Vive em Parceiros, do outro lado da coroa urbana da cidade de Leiria, e até hoje conta apenas com uma lona oferecida para tapar a casa destelhada desde a passagem da Kristin.
Antes da autarquia conseguir geradores para cada freguesia, a rotina comum do lado de Pousos obrigava quem tem carro a ir abastecer a localidades como a Nazaré, mas desde sexta-feira que o único posto de abastecimento reabriu depois de conseguir obter um gerador. Ao balcão, Andreza Pereira, há quatro anos a trabalhar para o mesmo patrão, elogia o esforço da população, que arregaçou as mangas, desimpediu a estrada que esteve cortada por causa de aluimentos de terra e árvores caídas e revela compaixão pelos clientes. "A mim não me aconteceu nada, mas a maioria perdeu tudo. Não têm nada", diz.

Oito dias após a tempestade, o sistema de ensino tenta regressar à normalidade. Há danos em 150 escolas, mas com esforço de reorganização, a maioria dos estabelecimentos do ensino básico regressou às aulas esta quarta-feira. Onde não foi possível a abertura, os alunos foram transferidos para outras escolas vizinhas.
Na Barreira, em Parceiros, o vento não poupou qualquer telhado e uma semana depois da tempestade, só o regresso dos filhos às aulas devolve um sorriso a habitantes, como Rita, obrigada a ficar em casa a tomar conta das crianças e agora a regressar ao trabalho com a sua equipa para a verificação das caixas de eletricidade em zonas residenciais.
Edifícios amachucados como uma folha de papel é comum encontrar por toda a região e, no coração da cidade de Leiria, estão à vista sinais de destruição.
Da grande garagem da Rodoviária do Lis só restam paredes e ainda lá está dentro o autocarro atingido pelo emaranhado de ferro que lhe caiu em cima. No dia da tempestade foi improvisado um terminal com uma tenda gigante junto ao estádio, mas depois as mais de 170 carreiras diárias começaram a ser feitas em plena rua, na lateral às instalações da empresa, na Avenida dos Heróis de Angola.
Passageiros e motoristas em troca de turno são presença constante.
João Barreiro, um dos trabalhadores da empresa, dá conta que a administração tem tido reuniões permanentes com as autoridades para resolver a situação e contou com a ajuda do grupo Barraqueiro, que disponibilizou veículos, perante a perda de mais de 50 autocarros que asseguravam o transporte coletivo diário.

Garante que "os interurbanos já estão todos a funcionar e apenas está em falta um autocarro da categoria Mobi, que assegurava o transporte para as escolas superiores do Politécnico de Leiria".
"Somos o segundo terminal do país a nível de interurbanas e, em Expressos, talvez o quarto. Como podem ver, só temos espaço para a paragem de dois autocarros de cada vez. Temos de gerir isto com pinças", reconhece.
A 14 quilómetros dali, na Várzea, no limite do concelho de Leiria com a Marinha Grande, a caminho da praia da Vieira, ainda falta eletricidade, o que obrigou Manuel Reis, de 60 anos, a procurar serviços de finanças na sede de concelho.
Confessa que na terra que o viu nascer não há nada. "É uma miséria. Telhados e árvores estão no chão e nada tem funcionado bem desde o dia da tempestade, incluindo serviços públicos." Os telefones começaram a funcionar esta segunda-feira. A água também já regressou antes de ontem, mas ainda não há luz.
As rajadas de 200 quilómetros por hora deixaram rasto de destruição também desde Soure à base área n.º5 de Monte Real.
Há caças F-16 destruídos e uma povoação às escuras desde o dia da tempestade. Um dos habitantes, Ricardo Ferreira, de tala num dos dedos da mão esquerda, teve de ir a Leiria procurar tratamento, acompanhado da mulher. Queixam-se da falta de ajuda para os residentes que não têm possibilidade de ter um gerador.
"É uma desgraça. Não temos nada. Nem água, nem luz. Nada de nada. Quem tem condições para ter gerador, safou-se. Quem não tem, teve de mandar para o lixo tudo o que tinha nas arcas", acrescenta.
Questionado sobre a previsão de normalização da situação, adianta que a água foi reposta, mas que "perde a pressão". "Quanto à luz, dizem que vai demorar cerca de duas semanas a repor, porque está tudo no chão. Tudo, tudo, tudo. Árvores, postes, está tudo destruído. Não há hipótese."
"Quem é que nos vai dar ajuda?", atira.
Junto ao Estádio Municipal Manuel Pessoa, em Leiria, chegam a toda a hora pessoas que engrossam as duas filas formadas para receber bens doados, supervisionada por agentes da PSP.

Há também militares fardados a auxiliar no transporte das paletes de telhas até aos porta-bagagens dos carros dos habitantes do concelho, que vêm buscar o que instituições e particulares de todo o país ofereceram para a reconstrução.
Mas "há falta mão de obra", diz o presidente da Associação Empresarial da Região de Leiria (Nerlei), "o que a juntar aos projetos em execução do PRR e à falta de habitação no país, fez disparar os custos da construção".
Encontrámos Henrique Carvalho, de vassoura na mão, a limpar a água acumulada na entrada do edifício, onde funciona o Núcleo Empresarial da Região de Leiria, mesmo junto ao estádio municipal. Num balanço provisório, dá conta que tem equipas no terreno e que, das situações detetadas, identificaram como casos mais prementes, a nível de empresas, grandes unidades afetadas que, sozinhas, representam centenas de milhões de euros. Para o diretor-"No global, os 2,5 mil milhões, esse foi o número que o Governo adiantou, vamos tomá-lo como razoável para limite mínimo de impactos diretos, sem indiretos", refere o diretor-executivo do Nerlei.
O nível de destruição está à vista na estrada nacional que liga Leiria à Marinha Grande, com grandes estruturas, como, por exemplo, o edifício do grupo francês LaRedoute danificado.
A região é o berço da indústria de moldes e plásticos, vidros e cerâmicas, além de possuir um grupo de produtores de reverência no sector agrícola, florestal e até de criação de animais.
Na suinicultura, há produtores a dizer que os animais estão a morrer à fome desde a passagem da tempestade. Por estes dias, a federação das associações deste sector, que diz representar metade da produção nacional, tem desdobrado contactos com as autoridades, para encontrar uma solução para aquilo que considera ser um estado de calamidade, que já levou o seu presidente, David Neves, a exigir soluções urgentes ao Governo.
Por enquanto, a única certeza visível é o esforço demonstrado pela população, que continua a arregaçar as mangas e a prestar auxílio a quem mais precisa, com voluntários em qualquer freguesia a tentar contribuir como pode para a recuperação da região.
