"Sempre à espera do pior." Moradores do Pátio da Quintinha em risco de despejo

Créditos: TSF
Mais de uma centena de moradores da antiga vila operária, na freguesia do Beato, em Lisboa, receiam ser despejados. A maioria vive há décadas no bairro que está à venda desde final do ano passado
De avental e galochas, Maria da Purificação Monteiro deixa a porta aberta para receber a TSF, enquanto prepara o almoço. O pequeno fogão está na zona do pátio, porque a água não chega à cozinha, no interior da casa. Com 82 anos, Maria da Purificação vive no Pátio da Quintinha, na freguesia do Beato, há mais de 60. "Morava numa barraca" e, quando "vagou uma casa", foi morar para lá. Na altura, trabalhava na fábrica de bolachas situada do outro lado da rua e a casa tinha poucas condições de habitabilidade. A família construiu a casa-de-banho, ainda hoje no exterior da casa. Acrescentou um anexo, uma cobertura e pequenas comodidades, mas enfrenta, agora, a ameaça de ficar sem tecto.
O presidente da junta de freguesia do Beato, Silvino Correia, recorda que o Pátio da Quintinha albergava operários, quando as fábricas da Nacional e da Manutenção Militar empregavam cerca de 12 mil pessoas. Dezenas de famílias ocuparam o Pátio da Quintinha, que acabou por ser adquirido pela empresa de construção AC Rodrigues. Agora, o pátio está à venda. No primeiro leilão, a oferta foi de cerca de um milhão de euros, abaixo do mínimo de licitação e, por isso, o negócio não se concretizou.

Preocupados, os moradores organizaram uma petição, pedindo a intervenção urgente da câmara de Lisboa para travar a venda do imóvel.
Aqui, residem mais de uma centena de pessoas "dos quatro meses aos 95 anos". "Com esta situação, ficamos todos com medo sobre o que nos vai acontecer", refere Jorge Seabra, o porta-voz dos moradores. O vizinho António Fonseca, morador no Pátio há 35 anos, vive na incerteza e admite que se tiver de deixar a casa, "talvez [vá] para debaixo de uma ponte". Mas os habitantes prometem dar luta. "Aflita", a mãe de Jorge, Angélica, assegura que farão tudo o que puderem:
"Desde manifestações a irmos para a Assembleia. É um sobressalto, estamos sempre à espera do pior", lamenta Angélica, que, com uma reforma de 412 euros, questiona: "Como é que vou viver?"

Alguns moradores, como Maria da Purificação, pagam uma renda de 25 euros por ano, embora não saibam qual o destino do dinheiro. Se tiver de sair do Pátio, Maria não tem alternativa, mas acredita que "não os vão pôr na rua assim sem mais nem menos".
"Como moramos aqui há tantos anos, também merecemos ter um tecto para nos cobrir", considera.
Apreensivo com o "futuro incerto" de uma centena de pessoas, o presidente da junta de freguesia do Beato salienta que a autarquia não tem "disponibilidade imediata" para encontrar alternativas a todos os moradores do Pátio da Quitinha. Silvino Correia espera que a Câmara de Lisboa exerça o direito de preferência, se a venda se concretizar.

Jorge Seabra também pede "interesse " do presidente do munícipio, Carlos Moedas. "O ideal seria a Câmara comprar as casas e usar o direito de preferência". No entanto, em resposta à TSF, a autarquia refere que "o direito de preferência apenas poderá ser exercido após comunicação formal da alienação, o que ainda não ocorreu". A nota recorda que, "independentemente desse processo, as famílias podem candidatar-se aos programas de habitação do município atualmente em vigor, bem como aos programas disponibilizados pelo Estado".
Angélica Seabra dá voz ao maior desejo de todos para 2026.
"Uma casa. Nem que fosse só um quarto. Para mim, chega o quarto, a sala, cozinha e casa de banho." Mas com um sonho acrescido: "Que ficássemos todos juntos. Pelo menos as pessoas mais antigas, que eu tenho muita afinidade com elas."

A autora não segue as normas do novo acordo ortográfico