"Só existe no Algarve." Proteção do camaleão sem apoio, algarvios dizem que se vê cada vez menos

O camaleão-comum algarvio
Foto: Associação Vita Nativa
Os cientistas afirmam que não se pode ter a certeza se é uma espécie ameaçada ou não, mas os algarvios têm outro entendimento. A camuflagem esconde os apoios e a conservação do camaleão-comum no Algarve vai ficando pelo caminho. Mas qualquer pessoa pode ajudar
O camaleão-comum (Chamaeleo chamaeleon) camufla-se desde a mata de Monte Gordo até Lagos e os locais dizem que é uma espécie que se vê cada vez menos. Fábia Azevedo, bióloga da Associação Vita Nativa, explica à TSF que esse entendimento não é mais do que "senso comum". Na realidade, a escassez de estudos científicos sobre o animal é tanta que é difícil analisar "a distribuição e a abundância desta espécie no Algarve".
Com o objetivo de reverter a situação, há mais de três anos foram anunciadas várias iniciativas de proteção da espécie com recurso ao financiamento do Orçamento Participativo Jovem Portugal 2019.
Inicialmente, realça a bióloga, a ideia era criar um Centro de Recuperação e Investigação do Camaleão do Algarve, mas, de modo a corresponder mais precisamente às necessidades da espécie, a ideia converteu-se num Centro de Interpretação do Camaleão. Estava ainda pensada a "capacitação do RIAS - Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens para melhor poder recuperar os animais feridos".
No entanto, a Associação Vita Nativa nunca teve o apoio necessário: "O orçamento era muito reduzido, cerca de 60 mil euros, e não permitia fazermos a construção [do Centro de Interpretação do Camaleão] de raiz."
Em 2022, explica a bióloga, a Associação Vita Nativa e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas "criaram um protocolo para a cedência de um edifício" que acolhesse o centro, inclusivamente com "o compromisso da Câmara Municipal de Olhão em financiar a obra". Promessa que, revela Fábia Azevedo, continua por cumpir.
Fábia Azevedo garante também à TSF que a adversidade "não põe a ideia na gaveta" e que a associação vai "continuar a insistir com a autarquia", para que se continue a "promover a conservação do camaleão-comum".
A "espécie-bandeira"
Para a Associação Vita Nativa, a proteção do camaleão-comum transcende a espécie: "É uma boa ferramenta promocional, não só da biodiversidade do Algarve, mas também da conservação de todas as espécies que com ela habitam."
O animal poderá ser o que a Vita Nativa chama "espécie-bandeira".
"É uma espécie que só existe no Algarve, super carismática e que as pessoas adoram pelas suas características peculiares. Ao divulgarmos e promovermos a conservação do camaleão conseguimos conservar todos os habitats que ele utiliza e, consequentemente, todas as espécies que partilham o habitat com ele", ilustra.
Os apoios monetários continuam por chegar, mas quem estiver pelo Algarve e quiser ajudar pode fazê-lo através da Campanha de Ciência Cidadã.
O projeto - que é dos únicos que se mantém decorrente das ambições do Orçamento Participativo Jovem Portugal 2019 - permite que a população possa reportar à associação quando vir um camaleão, ajudando assim "a desenhar um mapa de distribuição da espécie".