Teresa Villaverde à TSF: "Estou a pensar sair de Lisboa e ir morar para os lugares afetados pelas intempéries, ali encontrei pessoas incríveis"

Teresa Villaverde, realizadora de cinema
Wikimedia Commons
A cineasta Teresa Villaverde tem posto muita gente a falar da floresta, de ecologia e do interior esquecido com o filme "Justa", sobre os incêndios de 2017. Agora, com as tempestades ainda sem fim à vista, a cineasta confessa revolta e choque com a resposta do Governo, ao mesmo tempo que se comove com a entreajuda e solidariedade dos que vivem tragédia atrás de tragédia no centro do país
O filme "Justa" estreou há dois meses. Tendo em conta tudo o que aconteceu e o que está ainda a acontecer com estas tempestades, o filme ganha uma nova atualidade?
Eu fico um pouco confusa porque este filme "Justa" fala do fogo, agora é a água, mas o que é certo e que é terrível é que são outra vez as mesmas populações. E isso é absolutamente terrível. No filme há um personagem que diz: "fogo, água, água, fogo, por que é que não nos deixam em paz?" E, de facto, é muito assustador porque eu tive contato com algumas pessoas que foram agora vítimas destas tempestades, e é horrível porque são as mesmas e porque nós sabemos que, se calhar, daqui a dois anos é outra vez o fogo, continua a não haver planeamento.
As pessoas com quem eu falo, que moram nesses territórios, sabem exatamente o que é que é preciso fazer, mas não é feito. Eles não podem ser organizados sozinhos, é preciso o Poder Central para fazer isso. E, não sei, a mim revolta muito isto tudo. Fico mesmo sem saber o que dizer. Tenho visto imagens na televisão onde nós vemos telhados caídos, postes caídos, encostados a eucaliptos. E eu sei que há muitas pessoas que dizem "ah, não, isto não é dos eucaliptos". É mentira, os eucaliptos ardem muito mais depressa do que todas as árvores, descascam aquilo, as chamas propagam-se por todo o lado, e passado pouquíssimo tempo, parece que não morrem, a gente vê um eucalipto todo preto e passados uns meses já estão a brotar coisas verdes. Portanto, é terrível e sentimos que estas tragédias não têm fim. E com as alterações climáticas, claro que vamos ter estes problemas muitas vezes, mas há muita coisa que nós podemos fazer para evitar que seja tão grave e não estamos a fazer.

O que é que sentiu quando teve noção da dimensão dos estragos e do sofrimento destas populações? Pergunto isto porque, como disse aqui na conversa com o público, estiveram oito semanas em contacto com populações traumatizadas com os incêndios na rodagem do filme. O que é que sentiu ao ver esta realidade entrar-nos olhos dentro, em casa, pela televisão?
Eu senti uma emoção muito grande e, para ser sincera, custa-me, custa-me ver. Ainda não tive coragem de pessoalmente dar um abraço às pessoas que conheço que estão nessa situação. É muito violento e dá a sensação que parece quase que é sempre a mesma fatia, no centro de Portugal, interior, e também um bocado de litoral. Não sei, é muito assustador, mas uma coisa que também me comoveu bastante com as notícias que tenho lido e visto, mas que para mim, pelo que já conheci daquelas pessoas, não é de todo uma surpresa, é a solidariedade entre as pessoas a quem aconteceram coisas terríveis e que dizem sempre "ah, mas aquela pessoa está pior que eu" e vão ajudar. E eu acho isso muito comovente. Aquelas pessoas são assim, têm uma essência que eu acho que nós, nas cidades e por exemplo em Lisboa, já perdemos. Isto parece um lugar comum estar a dizer isto, mas eu sou de Lisboa e descobri um Portugal, e não é um Portugal, é uns portugueses que eu não conhecia e orgulho-me imenso dessas pessoas. Sinceramente, estou a pensar em sair de Lisboa e ir morar por esses lugares porque acho que ali é que eu encontrei pessoas que realmente são incríveis.
Esta exibição acaba a ser também uma iniciativa de recolha de fundos, uma ação de solidariedade. Já falou da entre-ajuda nas comunidades, é preciso olhar mais para aquelas pessoas? O que é que achou, por exemplo, da atuação do Governo? A ministra da Administração Interna pediu a demissão nas últimas horas, as populações continuam a reclamar a atenção dos governantes, como é que um cineasta que também constatou esta realidade olha para tudo isto?
Eu nem sabia que a ministra tinha pedido a demissão, mas não tínhamos ministra mesmo sem pedir a demissão. Fiquei muito chocada com a forma como o Governo reagiu e as desculpas que davam, de que "não se podia saber a dimensão". O Governo tem que saber, se não sabe, procura, pergunta. Eu não consigo compreender como é que as pessoas têm essa ambição de ir para a política, para dirigir um país, e depois não têm o mínimo de competência para gerir uma comunidade, um país que somos nós. As coisas que eu ouvi nos primeiros dias da rodagem foram coisas que eu nunca pensei em ouvir na vida, portanto, de um desleixo de tal ordem que nem sei o que dizer, e não percebo por que é que essas pessoas têm essa ambição de vir a ser Governo e ministros, não percebo, sinceramente.
O tema da floresta vai continuar nos próximos filmes da Teresa Villaverde? Pode haver outro olhar sobre esta zona de Leiria, no centro, agora afetada pelas tempestades? Ou este é um tema que por agora prefere deixar descansar?
Nunca se sabe, não é? Mas o que vai acontecer, e que eu estou a fazer agora, um bocado, mas que seguramente por causa disto tudo vai-se alterar é que nesta minha viagem pelo país com este filme, as conversas que tenho tido com as pessoas têm sido tão ricas e também muito na área, por exemplo, da ecologia, e do que fazer com o território e as árvores, enfim, que várias pessoas me foram dizendo que eu tinha que fazer a continuação deste filme. Isso não vai acontecer, mas eu estava a pensar, e agora tenho que ver como é que adapto, ir falar com essas pessoas e fazer um filme, mas não uma ficção, ser um filme feito com essas pessoas maravilhosas, de que estamos a falar, solidárias e que lutam e que tentam proteger-nos a nós todos, proteger o nosso país.
E seria um filme na zona de Leiria por causa das tempestades, das inundações?
Quer dizer, vem de trás, porque vem das pessoas que eu conheci. Onde eu agora andei mais foi na Lousã. Portanto, eu acho que a minha próxima paragem é a Lousã.
Esta entrevista foi realizada na terça-feira, à margem de uma sessão especial no Cinema Ideal, com a presença da realizadora e atriz Betty Faria, protagonista do "Justa".
As receitas da sessão, que serviu também para uma recolha de donativos dos espectadores, vão para duas localidades onde o filme foi rodado, agora também afetadas pelas tempestades: a aldeia de Álvaro (Oleiros, distrito de Castelo Branco), e Ceiroquinho (Pampilhosa da Serra, distrito de Coimbra).
Atualizado às 13h10