Aldina Duarte no Bons Sons: "O paraíso não deve andar muito longe disto"

E "Tudo Recomeça". O nome do novo disco de Aldina Duarte parece talhado para uma noite iluminada pela voz da fadista em Cem Soldos. O regresso à aldeia, dez anos depois, é um momento de celebração, confessa à TSF antes da subida ao palco. "Fazer um concerto que se chama Tudo Recomeça, no palco Zeca Afonso, na aldeia de Cem Soldos, só esta frase já é poesia para os meus ouvidos." A guerra e o palco da Festa do Avante sugerem outra música, "tendo em conta a minha consciência política, eu não iria, mas...", deixa bem claro: "É prepotente e perigoso fazer julgamentos sobre os artistas que vão. Eu não faço."

"A sensação é que estou outra vez apaixonada pelos concertos." É assim que Tudo Recomeça para Aldina Duarte, na aldeia de Cem Soldos. É o regresso a um festival onde já foi feliz: "Fiquei marcadíssima desde que cá vim", começa por dizer à TSF Aldina Duarte, recuando dez anos. Estreou-se aqui em 2012, no palco Giacometti. "E se este festival ficasse em risco eu mobilizava-me para defender um dos projetos mais bonitos e contracorrentes que conheço."

Feita a declaração de amor ao Bons Sons, numa breve conversa gravada a poucas horas do concerto, a fadista embalará a noite no palco Zeca Afonso, iluminada pelas estrelas no céu e pelos aplausos do público. Emocionou-se, pois claro, ou não fosse Aldina Duarte. "Em cima do palco eu faço por ser tudo, até o que não gosto de ser. O fado é uma música muito emotiva, e que exige transparência e autenticidade, e às vezes cantam-se coisas que doem, mas sobretudo pensar que serve para alguém e que faz bem a alguém, a mim dá-me uma alegria enorme." E Tudo Recomeça, depois dos dois concertos no São Luiz, em Lisboa, e outro no Fluviário de Mora, o novo disco chega à aldeia do Bons Sons.

Festa do Avante: "Tendo em conta a minha consciência política, não iria"

Sem paninhos quentes, a posição da fadista é cristalina. Aldina Duarte não iria, mas "é prepotente e perigoso fazer julgamentos desse tipo", acrescenta, referindo-se às críticas que foram mediatizadas quando se conheceu o cartaz e os artistas que, este ano, participam na Festa do Avante. "Não me identifico com a posição que o PCP tomou em relação à guerra, ainda que não confie nos que se estão a aproveitar disso", afirma, referindo-se a Vladimir Putin como um "canalha, um homem de poder total, que só quer criar um império".

Aldina Duarte não duvida: "A guerra está a estupidificar isto tudo. Há um aproveitamento dos artistas que aceitaram o convite do PCP, mas acho igualmente perverso e malicioso usar uma guerra para destruir um partido", e acrescenta ainda que "não precisam de se dar a tanto trabalho, o partido tem feito esse caminho de autodestruição."

"O fado é muito maior do que a voz", sugere Aldina Duarte, cuja voz sopra agora os versos "dos fados que nunca me largaram". O novo disco é este renascer pós-pandemia: "Tenho a sensação de estar outra vez apaixonada pelos concertos", pisando o espaço e os lugares na partilha de dores e de fragilidades que resultam de uma espécie "de limbo pandémico".

Aldina Duarte não joga pelo seguro. "Espero dar-vos uma noite feliz", anuncia após o primeiro fado. E o que seria de uma pessoa sem arte? "Uma aldeia ao serviço da música, meu Deus, o paraíso não deve andar muito longe disto."

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