Barranquenho já foi alvo de chacota mas hoje quer ser língua oficial

Antes do português, as gentes de Barrancos aprendem uma língua que é uma mistura de português arcaico e espanhol de sotaque andaluz.

A população de Barrancos celebra esta sexta-feira o Dia Internacional da Língua Materna confiante que está para breve o reconhecimento do "seu barranquenho" como língua oficial. A Câmara uniu-se à Universidade de Évora e ao Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e a investigação já está no terreno

Umas quadras no mais puro barranquenho já anunciam do desejo da população: ver o seu típico falar ser reconhecido. O objetivo já tem anos, mas a população acredita que é desta que o projeto está no rumo certo para conseguir chegar a terceira língua oficial falada em Portugal. Ao lado do português e mirandês.

O presidente da Câmara, João Serranito Nunes, defende a importância de preservar a língua barranquenha, que considera um "património do concelho - não se pode perder", sublinha. Nos próximos três anos, o barranquenho vai ser estudado profundamente e estruturado enquanto língua "para que tenha dicionário, gramática e tudo o necessário para que a língua seja ensinada nas escolas", diz o autarca, alegando que "neste mundo global em que vivemos, esta padronização leva tudo a igualizar. Nós queremos manter a diversidade", acrescenta.

O barranquenho é uma mistura de português arcaico e espanhol com o sotaque cantado da Andaluzia. Na vila todos o sabem falar desde berço, ainda antes de aprenderem português, e até costuma ser utilizado para pôr a conversa em dia no polo da Universidade Túlio Espanca pelas vozes seniores.

Tempos houve em que o barranquenho foi alvo de chacota na região, chegando a gerar preconceito entre os próprios moradores. Carla Pica, responsável pelo polo recorda quando iam estudar para Moura e os colegas de outras localidades "gozavam" com os barranquenhos. "Diziam que nós falávamos mal, mas nós tínhamos melhores notas que alguns deles", sublinha assumindo o risco para um barranquenho corre quando tenta falar "explicado", como por aqui se diz. "Falar explicado é quando alguém quer tentar falar melhor que os outros, mas é quando se dizem mais asneiras", explica.

A antiga professora primária, Maria Deodata conta que bem tentou puxar pelo português junto dos alunos, para que estivessem aptos a fazer os exames, mas era sol de pouco dura. Assim que passavam a porta da rua as conversas voltavam a fazer-se em barranquenho.

Argumentos identitários, afinal, mais que suficientes para que a Câmara de Barrancos se tenha juntado à Universidade de Évora, ao Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e ao Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social para pôr em marcha o projeto de estudo e caracterização do barranquenho.

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