Cláudia Varejão à TSF: "Vale sempre a pena experimentar ser"

Em Lobo e Cão, a realizadora filma a realidade numa longa de ficção.

"Olhar para fora é olhar para dentro de nós". A frase é uma das chaves de leitura para o filme que agora chega às salas de cinema. Rodado nos Açores, com as pessoas da ilha , Lobo e Cão é uma lente para a normalização da diversidade: " um filme sobre o encontro connosco próprios, em qualquer momento da vida, no entanto acontece numa ilha, onde os jovens não se permitiam sonhar, e partiu-me o coração. " Um toque de seda sobre o desejo de ser, queer ou outra identidade qualquer. Há muitos filmes dentro do filme, conta a realizadora Cláudia Varejão, em entrevista à TSF.

"É pecado querer?
É porque quando eu quero, quero muito.

Não cabo aqui na ilha."

A voz de Ana atravessa o mar, no desejo de soltar amarras. Este é o lugar mais íntimo da primeira longa de ficção realizada por Cláudia Varejão. Ana e Luís, são os jovens protagonistas de Lobo e Cão, "duas personagens que vivem muito ancoradas no mar", ou não estivéssemos numa ilha, neste caso a ilha de São Miguel nos Açores " onde " viver em pobreza é viver muitas vezes, com pouca disponibilidade, até cognitiva para desejar, para sonhar, para pensar mais longe do que a linha do horizonte do Oceano. Este filme é sobre isso." E é também, continua a realizadora " um filme sobre o desejo do corpo, claro, mas também o desejo de conhecer alguém, o desejo de sermos, o desejo de viajar, o desejo, neste caso da ilha, de atravessar o mar. Nascer num contexto mais pobre é uma espécie de fado. Estes jovens herdam padrões de vida que parece que não vão poder libertar-se deles. " Sem narrativas épicas ou heróis " os 2 jovens ajudam-se a construir a voz interior de cada um."

"Ah Senhôra, eu nunca contei isto a ninguém, tenho vergonha..."

Cláudia Varejão chegou aos Açores, onde nunca tinha ido, em 2016. Da observação silenciosa aos castings para escolher as pessoas da ilha com quem se dispunha a filmar, há todo um guião. Umas vezes seguido, noutras encostado a um canto. E é assim que a realidade transforma a ficção, vingando o desejo de liberdade " estes jovens não tinham direito à sua própria identidade. A aparente normalidade da rua que pude testemunhar não tinha correspondência em casa, onde viviam episódios de violência, ou na escola, onde o bullying se manifestava. "

A propósito, Cláudia Varejão guarda uma história singular, entre centenas de castings por toda a ilha de São Miguel. Dois jovens, rapazes, que se comunicavam através do Facebook mas não se conheciam pessoalmente. " Senhôra, eu não sou capaz, tenho vergonha", dizia o rapaz que durante o casting, lhe confessou o assomo do desejo, e a sua impossibilidade " tens de ser capaz, tens de ir lá ver isso, e perceber o que sentes" , desafiou a realizadora. "Não tenho dinheiro, senhôra, é muito longe, e se o meu pai descobre ele vai-me bater." "Ninguém vai ter de saber, se tu não quiseres", sossegou a realizadora, entregando 10 euros ao jovem para a viagem de autocarro até à Ribeira Grande. Dias depois, chegou a fotografia de um beijo.

Cláudia Varejão foi mais longe: "não podia trabalhar com eles, sem lhes devolver alguma coisa, falei com psicólogos da ilha e foi criado o primeiro centro LGBTQI+ da ilha". A associação A (MAR) Açores pela Diversidade.

Da estreia em Veneza, onde Lobo e Cão recebe o prémio máximo da paralela Giornati degli Autori, à ante estreia no Teatro Micaelense em Ponta Delgada, Cláudia Varejão fala de alguns " dos momentos mais emotivos" da sua vida: " teve um impacto social enorme. E eu vi a transformação destes jovens, eram as mesmas pessoas, mas eram outras pessoas, mais emancipadas, mais serenas consigo próprias, e acima de tudo traziam consigo a experiência de que vale sempre a pena experimentar."

Lobo e Cão, está a partir de hoje nas salas de cinema.

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