Dez prémios depois, curta-metragem portuguesa representa Portugal nos EUA

O filme "Samanta: Má ou Santa", produzido e protagonizado por Sofia Mirpuri, venceu dez prémios no festival 48 Hour Film Project, em Lisboa, no início deste mês. A curta-metragem vai agora representar Portugal no Festival Filmapalooza, em Washington, em 2022. O filme procura ser inclusivo e não deixar para trás os cerca de dois milhões de portugueses com dificuldades auditivas.

Foi no festival 48 Hour Film Project, em Lisboa, que nasceu o filme "Samanta: Má ou Santa", produzido por Sofia Mirpuri, que é também a protagonista da curta-metragem. Neste festival, as equipas participantes têm 48 horas para fazer uma curta-metragem, o que inclui criar um argumento, construir personagens, procurar locais para filmar, tratar de adereços, guarda-roupa e maquilhagem, e todas as outras tarefas que fazer um filme exige. O filme começa com a personagem principal no purgatório, após a sua morte, onde vai ser julgada por três homens por alegadamente ter sido amante. Para o filme, a equipa tinha uma personagem obrigatória - Samanta Costa, amante - mas também tinham de usar a frase "Estas coisas só me acontecem a mim" e de usar uma peruca na curta-metragem.

A atriz, vencedora do prémio para Melhor Interpretação, concorreu ao 48 Hour Film Project com a sua recém-criada produtora "Story in a Box", e saiu da competição com dez prémios: o de Melhor filme; de Melhor realização; de Melhor interpretação; de Melhor argumento; de Melhor Fotografia; de Melhor Direcção de Arte; de Melhor Edição; de Melhor uso da personagem; de Prémio Inclusão no Cinema e de Prémio do Público. São duas mãos cheias de prémios, sendo que o filme foi ainda nomeado para os prémios de Melhor Design de Som e Melhor Elenco.

Sofia Mirpuri diz à TSF que não estavam à espera de tantos prémios. "Nós fizemos o filme em 48h e conhecemos bem o nosso trabalho. Pensamos que conseguimos sempre fazer melhor. Fica-se inseguro: «será que é suficiente?». Não estávamos nada à espera porque vimos os outros filmes, antes da cerimónia, e achamos alguns ótimos e que iriam ganhar imensos prémios". Para a equipa estar ganhar um prémio ou mesmo estar nomeado já era muito bom, mas depois as premiações começaram a surgir, umas atrás das outras. "Foi uma surpresa", garante Sofia.

No próximo ano, a curta-metragem portuguesa vai representar Portugal a Washington, nos Estados Unidos, no festival Festival Filmapalooza, que vai receber em competição mais de 50 países de todo o mundo. A equipa sente gratidão por ser representante do país, até porque durante a realização da curta nunca pensaram em ir a Washington: "Pensámos: «vamos fazer uma coisa boa, de que nos orgulhemos e depois logo se vê. O foco principal era fazer tudo bem. É um orgulho ir representar Portugal porque é o reconhecimento do nosso trabalho. A conclusão que retiro daqui é que se quiseres muito uma coisa, trabalhares para ela e acreditares, as coisas podem acontecer", diz Sofia.

O próximo passo é então voar até aos Estados Unidos. Depois do Filmapalooza, podem seguir para Cannes, já que serão escolhidas 15 a 20 curtas-metragens para ir ao festival francês. "Isso seria ainda mais espetacular. Mas uma coisa de cada vez", ri Sofia.

Como o filme está ainda no circuito de festivais, o público geral só o poderá ver nesse âmbito. Sofia vai submeter o "Samanta: Má ou Santa" a mais festivais de cinema, neste caso portugueses, e as pessoas poderão ver a curta nesses festivais.



Um detalhe importante, e que justifica o Prémio Inclusão no Cinema, é que o "Samanta: Má ou Santa" é falado em português, mas é também exibido com legendas. Esta foi uma decisão de Sofia Mirpuri que vai ao encontro da sua campanha por um cinema mais inclusivo. "Para mim, legendar filmes é fundamental. Eu acho que todos os filmes em português deviam ser legendados, seja nas salas de cinema ou noutras plataformas onde sejam exibidos, para incluírem os quase dois milhões de pessoas em Portugal que têm dificuldades auditivas e que não conseguem assistir a um filme em português porque não conseguem acompanhar os diálogos". Sofia Mirpuri fala de pessoas surdas, mas também de pessoas com uma perda ligeira da audição, como é o seu caso e estima que serão dois milhões de portugueses com dificuldades auditivas, com base nos números divulgados no Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF), do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, de 2015, que dizem que um milhão e seiscentas mil pessoas, com idades entre os 25 e os 74 anos, têm dificuldades em ouvir uma conversa. A produtora estima que o número é mais elevado se abranger todos os cidadãos residentes em Portugal.

"Eu só consigo acompanhar uma pequena percentagem dos diálogos [dos filmes portugueses sem legendagem], portanto acho que é uma forma de incluir todos os portugueses no cinema português". A produtora explica que "se é necessário arranjar estratégias para trazer os portugueses às salas para assistir a cinema português, então a primeira estratégia de todas será começar por legendar os filmes portugueses, incluindo assim a fatia da população portuguesa que, por muito que queira, não assiste a cinema português tão simplesmente porque não o consegue acompanhar." Sofia conclui: "tornar um filme inclusivo aos portugueses começa do lado dos produtores. Isto devia ser uma lei. Devia ser completamente obrigatório".

A atriz e produtora já conhece os Estados Unidos, onde a equipa vai representar Portugal no Filmapalooza. Sofia Mirpuri formou-se na Atlantic Theater Company"s Acting School, em Nova Iorque. Em 2020, estreou nos cinemas a sua primeira longa-metragem, "Alice, Nova Iorque e Outras Histórias", que, tal como todos os trabalhos da produtora, é legendado.

No sentido de incluir todos os que têm dificuldades auditivas, Sofia criou em 2020 a marca "Listen To My Lips", uma marca de máscaras inclusivas, que permite a leitura labial, já que tem uma parte de plástico especial transparente, que deixa ver a boca.

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