Demasiado modernos, os Santos guardados nos armários da sacristia durante décadas

Nove esculturas de Santos estiveram escondidas durante décadas na Sacristia da Igreja da Afurada. Rejeitadas pela comunidade, que as chamava de "Santos Pretos" ou "Santos das Rodilhas".

As esculturas de madeira são da autoria de Altino Maia e foram construídas em 1955 para a inauguração da Igreja Paroquial de São Pedro da Afurada.

A chegada das imagens até teve direito a uma procissão fluvial, mas assim que chegaram a terra foram rejeitadas pela comunidade. "Distanciando-se em termos plásticos e estéticos das imagens tradicionais, as esculturas foram rejeitadas pela comunidade que cedo lhes atribuiu epítetos depreciativos como de "Santos Pretos" ou "Santos das Rodilhas", explica Cátia Oliveira, uma das coordenadoras do projeto Os Santos D'Afurada.

A investigadora aponta como "motivo mais valido para a não empatia da comunidade com as imagens a policromia, estas imagens não respeitam o que é a policromia tradicional de imagens de arte sacra".

Entre as esculturas encontramos São Pedro, São João Baptista, Santo António, São José, Nossa Senhora de Fátima, Santa Luzia, Santa Inês, Santa Ana e o Sagrado Coração de Jesus. São nove esculturas em madeira escura, com cerca de um metro, de linhas muito simples. Cátia Oliveira diz que a questão da ausência de cor é um mito, "têm uma policromia muito característica de Altino Maia. O que acontece é que a Igreja não teria a iluminação adequada para a correta visualização das cores e parece mais escuro do que é. São escuras mas têm cor, o Altino Maia é um conhecedor profundo da iconografia religiosa. Também é de ressalvar que algumas destas imagens estão com a cor gasta, porque a dada altura quando as pessoas retiram estas imagens da Igreja, há um momento em que decidem esfregá-las, as peças são lavadas com água, esfregão e detergentes...".

Os Santos foram rejeitados pela comunidade, mas o dia em que chegaram a Afurada foi de festa. "Milhares de pessoas ficaram nas margens dos rio Douro para acompanhar a chegada das esculturas, cada andor vinha numa barca, a essa procissão acorrem muitos barcos de localidades próximas da Afurada. Até que as pessoas veem as imagens a desembarcar e de imediato há uma reação de não identificação. Não estavam preparadas para receber arte sacra que não fosse a tradicional.", explica Cátia Oliveira.

As imagens estiveram expostas ao culto entre 1955 e 1999, "durante o tempo em que o padre Joaquim Araújo está na Afurada, no dia em que se retira da paróquia a reação da população foi imediata: avisar o pároco que procedeu, que não queriam estas imagens e que teriam que ser substituídas pelas a antigas e assim foi".

Recentemente as imagens de Altino Maia estiveram expostas, num projeto une a Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), o CITCEM - Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória» e a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Terminada a exposição as imagens dos Santos regressaram aos armários da sacristia da Igreja da Afurada, ainda hoje as pessoas dizem que "não conseguem rezar a olhar para aqueles Santos".

A exposição está disponível na plataforma Google Arts & Culture.

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