Festivais de música serão os últimos a regressar. Até lá... é sempre longe demais

Foram os primeiros a ter de parar. A Comissão Europeia veio dizer que os festivais de música devem ser os últimos da fila da retoma da vida normal. A TSF conversou com dois dirigentes de um setor com a corda na garganta e que emprega muitas dezenas de milhar de pessoas.

Mas... E depois do adeus? O que acontece a um setor cuja retoma de atividade está recomendada, a nível europeu, desde ontem por Ursula Von Der Leyen, para ser o último da fila. Como fica um setor que emprega muitos milhares de músicos, produtores, promotores, técnicos, a que se associa restauração, e hotelaria, entre outros, sendo alavanca fundamental do turismo no país.

O músico e diretor da GDA, Gestão dos Direitos dos Artistas intérpretes e executantes), Miguel Guedes até compreende: "julgo que teremos de observar um princípio geral de prudência, acho perfeitamente natural que nem todas as atividades possam ser reabertas ao mesmo tempo, nomeadamente as da economia da cultura".

O ano de 2020 pode, basicamente, estar perdido: "dificilmente poderemos assistira grandes festivais ou a todos os espetáculos que queríamos ver reabertos o mais rápido possível ou num curto espaço de tempo; terá de ser faseado, devemos usar desse princípio de prudência e de confiança". O músico não tem problemas em reconhecer que "toda a gente percebe que grandes aglomerados de pessoas podem ser determinantes para o avanço ou recuo, ou minimização de futuras vagas de Covid-19". Nesse sentido, considera que "o mais importante é perceber e acautelar que o 'até lá' decorra com normalidade e garantias, porque o 'até lá' é um 'tá lá' enorme".

Álvaro Covões, vice presidente da Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos - APEFE, ouvido pela TSF, constata que, nesta época em que "vemos o mundo parar, os espetáculos, os museus, a oferta cultural ao vivo, foi o primeiro setor a encerrar portas mesmo antes do estado de emergência, por indicações das autoridades de saúde pública". Não deixa de dar conta da confirmação dos piores receios: "temíamos que fôssemos os últimos a retomar, hoje (esta quarta-feira) a Comissão Europeia veio confirmar isso mesmo".

Vai, certamente, ser um sufoco para um setor que dá trabalho a muitos milhares de pessoas: "sob um ponto de vista económico, as empresas, as pessoas, desde os artistas aos técnicos, vão sentir uma repercussão negativa pelo facto de não poderem trabalhar e produzir. O país também o vai sentir". Porque cada vez que "um grande espetáculo, festival ou exposição acontece", o impacto económico "é forte", afirma o organizador de festivais como o Nos Alive e um dos proprietários do Coliseu dos Recreios.

Covoes lembra que "o turismo, que precisa da oferta cultural para a retoma, vai começar sem nós". Espera agora que a Europa e quem nela governa saibam assumir o mesmo tipo de responsabilidades que tiveram para com outros setores no passado: "Estamos aqui, presentes. E esperamos que a Europa, que, desde a sua génese, apoiou todas as atividades que decidiu que não podiam trabalhar, que nos apoie a nós". E dá um exemplo; "à semelhança da Política Agrícola Comum, em que se apoiou os agricultores para não trabalharem, para não cultivarem a terra, o setor dos espetáculos ao vivo espera que a UE e os governos, pelo menos, nos mantenham vivos para que, com dignidade, no primeiro dia da retoma possamos trabalhar e receber o público e os aplausos" pelos quais "tanto ansiamos".

Respostas concretas e específicas, precisam-se; afirma Miguel Guedes, também vocalista da banda rock Blind Zero: "O 'até lá' será certamente longo demais para que não se tenha de falar, desde já, de uma questão de sobrevivência. Por isso é que todas as respostas que estão a ser dadas e virão a ser dadas, têm que fazer a diferença. Não podem ser uma espécie de chuva em terra seca porque não vai adiantar muito". Entende que as respostas que o estado a e Europa venham a dar "têm de ser cirúrgicas, objetivas, equitativas, têm que dar mesmo uma solução" para uma enorme "comunidade artística que foi a primeira a pagar e será, provavelmente, a última a retomar", sob pena de, não sendo tomadas as medidas, as coisas não mais voltarem "a ser o que eram e pormos em risco milhares de pessoas".

Os espetáculos ao vivo hão de voltar, um dia... mas, como diz a canção de 1984 dos Xutos & Pontapés: longa se torna à espera. Guedes não tem dúvidas: "atravessar até à outra margem do rio", onde estará a tão aguardada retoma, "é uma tarefa muito árdua para a a esmagadora maioria da comunidade artística portuguesa. E estamos a falar de atores, músicos, bailarinos, técnicos, roadies, produtores, de produtoras de espetáculos, de tanta e tanta gente que nesta altura se vê absolutamente privada de poder exercer a sua atividade".

São muitas dezenas de milhar de pessoas com a corda na garganta até voltarem os concertos e festivais. Até lá... muito mais do que até amanhã... é sempre longe demais.

"Dizes-me até amanhã, que tem de ser que te vais, mas amanhã sabes bem... é sempre longe demais"

(in Amanhã é Sempre Longe Demais, Rádio Macau, 1987)

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