Quem era Sophia de Mello Breyner? O que revela a primeira biografia inautorizada

Para Júlio Pomar, a sua obra tinha a solidez de uma pedra, e a sua poesia existia quase que fisicamente. Os seus livros eram "ouro da arte antiga". Mas como é que a menina que, aos 10 anos, dizia sonetos de Antero de Quental e se passeava com "Os Lusíadas" cresceu para se tornar a poetisa reconhecida do século XX?

A biografia inautorizada de Sophia de Mello Breyner - "Sophia" - vem "preencher um vazio inexplicável", num ano em que se comemora o centenário do nascimento da escritora. Isabel Nery, jornalista e ensaísta, investigadora em jornalismo literário, foi a autora, e revela que foi preciso ousadia para esta "responsabilidade tremenda", em entrevista à TSF.

"Confesso que não foi uma decisão fácil", admite a jornalista. "Eduardo Lourenço achava que não se faziam outras biografias devido ao estatuto social de Sophia, que poucos se atreveriam a aproximar-se desse mundo especial", um mundo que não inspirava proximidade, por ser Sophia uma helénica, quase no patamar do Olimpo da literatura.

O facto de "Sophia ser muitas coisas, de ser importante, e, ao mesmo tempo, a unanimidade na admiração pela escritora" é outra das razões avançadas pela investigadora em jornalismo literário para que outros se tenham afastado da tarefa de escrever uma obra sobre a sua vida.

Isabel Nery acredita que Sophia de Mello Breyner "não estaria interessada numa biografia". "No documentário de César Monteiro, Sophia diz que um escritor não precisa de uma biografia, que a sua biografia é a sua obra", mas, segundo a jornalista, "a obra de Sophia é mais do que as vontades de cada um de nós".

"Por vezes, as pessoas não tão polémicas não são tão atrativas", acrescenta ainda como um motivo possível para a escritora não ser homenageada em registo biográfico. Contudo, "a esmagadora maioria das pessoas que contactei ficou muito satisfeita, e manifestaram que já fazia falta", revela a autora, que vê em Sophia "uma autora muito amada pelo seu trabalho".

O livro que surge 14 anos depois da morte de Sophia de Mello Breyner dá conta da árvore genealógica da poetisa, que inclui um bisavô dinamarquês que vem à aventura para Portugal, e o avô, Tomás de Mello Breyner, especialista em doenças venéreas, médico da Casa Real até ao fim da monarquia.

"O bisavô Andresen foi muito importante, porque trouxe a cultura nórdica. Por isso, há um lado de Sophia que, embora não seja palpável, sente-se depois na obra", esclarece Isabel Nery. O mar nórdico está, por isso, presente nos livros de Sophia, como "O cavaleiro da Dinamarca"."Embora nunca lá tenha estado, as raízes estão em nós, mesmo que não tenhamos consciência", reflete.

Por outro lado, "o avô Tomás tinha uma admiração enorme pela Sophia, desde que ela era criança. Há textos no diário dele em que Tomás revela ter cuidado para não elogiar demasiado a neta, para não prejudicar os outros". A ligação que avô e neta tinham estabeleceu-se por intermédio da literatura. "Ainda Sophia não sabia ler e já pedia a Tomás de Mello Breyner que lhe lesse histórias", diz ainda a ensaísta.

Sophia de Mello Breyner era, assim, "uma menina muito especial", que, aos 10 anos, decorava sonetos de Antero e se passeava com uma edição d' "Os Lusíadas"."Gostava de passear pelo jardim, trincar as rosas. A casa Andresen era um mundo à parte", plantado num país analfabeto e com grande instabilidade política.

Mas o despertar para a política dá-se mais tarde, após o casamento de Francisco Sousa Tavares. As paixões iniciais foram os lugares e a Antiguidade Clássica. Essas inspirações levaram a autora da biografia de Sophia a mais de 30 lugares marcantes para a escritora, tais como a casa de infância no Porto, Lagos e Delfos, na Grécia.

"Os lugares eram essenciais para Sophia. Ela assumia-se como poeta do real", desvela Isabel Nery. "Os lugares permitem-me chegar a Sophia. Permitem-me aproximar", conclui.

Numa viagem geográfica e introspetiva, a investigadora em jornalismo literário teceu várias reflexões."A Grécia foi muito importante para compreender a ligação dela à cultura clássica. Ela não gostava da Grécia de uma forma turística. A Grécia de Sophia era a Grécia da poesia, da oralidade, das histórias que passam de geração em geração", remata.

Para a conclusão da obra, Isabel Nery falou com Júlio Pomar, que a associou à cor do "ouro das pinturas antigas". Quanto ao objeto que mais a caracteriza, o artista é também perentório: "uma pedra, pela qualidade tátil da sua poesia, que quase existe fisicamente"

Para Isabel Nery, porém, é o azul que mais define a obra de quem materializa a poesia do mar. Sophia é "azul, pedra, promessa".

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