"Nele acontecia teatro." Mário Viegas morreu há 25 anos

Foi com o encenador Carlos Avilez que Mário Viegas se estreou "a sério" no teatro. Um quarto de século depois da sua morte, o homem que ainda dirige o Teatro Experimental de Cascais, recorda o "miúdo franzino" que, um dia, lhe bateu à porta.

Corria o ano de 1968 e o Teatro Experimental de Cascais (TECascais) ensaiava a peça "O Comissário de Polícia", de Gervásio Lobato, com encenação de Carlos Avilez. Do elenco, faziam parte Mirita Casimiro, Maria do Céu Guerra, João Vasco e Lia Gama, entre outros.

"E aparece lá um miúdo com um ar muito franzino, muito assustado", recorda Avilez. "Curiosíssimo, dizia que queria ser ator." Mário Viegas não tinha mais de 20 anos, e já tinha dado os primeiros passos, meio a sério, meio a brincar, nestas artes de teatro, em Santarém, terra natal.

O encenador acedeu. "Entrou logo numa marcha que havia na peça e foi brilhante, logo." Nascia ali uma "relação de amizade enorme, até ao fim, sempre", afirma Carlos Avilez.

"Crítico feroz, mas... de grande ternura"

Cedo o diretor do TECascais percebeu que tinha pela frente alguém muito determinado: "um sentido de humor terrível, uma crítica feroz às coisas, mas, ao mesmo tempo, uma pessoa de uma grande ternura, de uma grande sensibilidade (...) a roçar o genial".

E cada ensaio, com ele, era uma "surpresa constante". Carlos Avilez recorda a forma como Viegas surgia permanentemente com propostas e ideias de uma "imaginação extraordinária".

E a maneira como sempre soube o que queria para ele e para os outros. Uma costela "política", uma rebeldia, que esteve sempre presente, e que, anos mais tarde, em 1991, o levaria a uma candidatura à Presidência da República. Para dizer "estou aqui, tratem-me bem", um "momento Mário Viegas", defende o primeiro homem a dirigir Mário Viegas em palco.

À porta "a ver se entrava alguém da pide"

Nesta conversa com a TSF, Carlos Avilez fala do "carisma" e da "irreverência" necessários para "dar a volta" à polícia política da ditadura. O encenador lembra, por exemplo, os ensaios de "Breve Sumário da História de Deus", de Gil Vicente, em 1970. Mário Viegas fazia o papel de Abraão. Havia um porteiro "para ver se entrava alguém da pide". E entrou mesmo. E a peça "só passou, porque, no ensaio, nós fizemos completamente diferente".

O diretor do TECascais lamenta que, muitas vezes, as gerações mais jovens "não terem noção nenhuma" de como era viver sob a censura, uma "experiência horrível". Avilez recorda, por exemplo, que o regime proibia peças na véspera da estreia, cortava "páginas e páginas" de alguns argumentos. Foi uma fase "muito complicada", perante a qual Mário Viegas não hesitava em dizer o que pensava e em demonstrar a sua "rebeldia inteligente".

Vinte e cinco anos depois da morte de Mário Viegas, o primeiro encenador continua a fazer de alguém muito à frente do seu - e do nosso - tempo. Alguém "insubstituível" que tinha "uma luz muito especial". E Carlos Avilez remata: "O tempo passou, mas o Mário ficou."

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