Semibreve 2021: as pérolas inauditas da vanguarda

Na 11.ª edição, o seminal festival de música eletrónica e arte digital de Braga, celebrou a sua história com sete estreias mundiais.

A AUAUFEIOMAU e o diretor artístico Luís Fernandes são, desde 2011, os responsáveis pelo evento que é hoje sinónimo de qualidade, ousadia e contemporaneidade, tendo conquistado um lugar inquestionável no itinerário mundial dos festivais dedicados à eletrónica de matiz exploratória e à arte digital. De quinta-feira a domingo, concertos, performances, instalações, conversas e um workshop, regressaram às ilustres salas da Augusta, reclamando a normalidade interrompida pela pandemia na edição anterior, que se viu forçada a cumprir-se num programa híbrido entre o Mosteiro de Tibães, a encomenda de obras sonoras inéditas e o visionamento online de performances filmadas. Habitualmente guiada por uma ética de não repetição de artistas entre edições e recorrentemente responsável por estreias nacionais, a habitual lógica curatorial do evento foi, em tom de celebração, pontualmente subvertida na edição deste ano, constituindo-se maioritariamente por artistas que fazem parte da história do festival, tendo sido, a partir destes, apresentadas novas condutas e colaborações.

Esta edição contou, pela primeira vez, com um concerto inaugural que decorreu na quinta-feira na magnífica Basílica do Bom Jesus. Em estreia nacional, os norte-americanos CV & JAB (Christina Vantzou e John Also Bennett) brindaram os presentes com uma eletrónica serena, pontilhada com gravações de campo multiformes, experimentação vocal e instrumentação acústica. O programa do dia seguinte iniciou-se online com a primeira das três conversas previstas para esta edição, o jornalista Rui Miguel Abreu conduziu a discussão em torno dos expedientes da colaboração remota entre a compositora norte-americana Yvette Janine Jackson e a violoncelista australiana Judith Hamann. O primeiro dos concertos na fausta Sala Principal do Theatro Circo foi o da inédita e eloquente intersecção da harpista norte-americana Zeena Parkins (uma veterana da improvisação eletroacústica) com o português André Gonçalves (o responsável pelos modulares ADDAC System). Seguiu-se a inesperadamente sinérgica associação da sueca Klara Lewis com a britânica Nik Void, suportada pela sempre deslumbrante imagética do artista visual português Pedro Maia, recém-chegado do consanguíneo SónarCCCB.

O workshop de improvisação ministrado por Zeena Parkins decorreu na manhã do terceiro dia no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian. Sucedeu-se a estreia mundial da performance duracional de Flora Yin-Wong - "Sea of Fertility" - baseada na obra homónima de Yukio Mishima, na Capela Imaculada do Seminário Menor. A produtora britânica operou múltiplas camadas de material sonoro em quadrifonia - num registo dedutível ao da sua rara discografia - ao que acrescentou, intermitentemente, os frutos da manipulação de uma cítara chinesa. Em simultâneo, na saudosa black box do gnration, decorria mais uma das novidades desta edição: a apresentação em formato duracional, do coletivo e editora portuense Mera. Seria o primeiro de dois focos no trabalho de estruturas emergentes na scene nacional, previstos para este ano. Ainda no gnration, o artista e investigador Heitor Alvelos conduziu a conversa com o multifacetado dj, produtor e label manager libanês, Rabih Beaini (Morphosis), e a harpista espanhola radicada no Porto, Angélica Salvi. Não surpreendentemente, a atenção recaiu no processo de colaboração entre Beaini, Salvi e a portuguesa Eleonor Picas. Regressados ao Theatro Circo, o camaleónico Rafael Toral deu a conhecer, em estreia absoluta, a magnética "Time Bridges". Uma das encomendas do festival foi inferida a partir do passado e futuro da obra do percursor português, inaugurando, confessionalmente, a "terceira fase" do compositor e intérprete. Terminado o concerto, Toral tomou a palavra e agradeceu solenemente a existência do Semibreve, à organização e ao público. A sala vibrou, majestosamente. A noite terminaria com a estreia em placo da colaboração entre a produtora norte-americana Laurel Halo e o violoncelista britânico Oliver Coates, uma conclusão planar com construções esporádicas de crescente densidade.

No quarto dia, estreou no Salão Medieval da Universidade do Minho, a performance duracional "Generations", composta por Yvette Janine Jackson e interpretada por Judith Hamann. Em paralelo, a black box do gnration albergou o segundo foco numa estrutura nacional emergente - a editora audiovisual portuguesa Turva - que preencheu as três horas da performance duracional com a apresentação consecutiva dos projetos Lorr No, Vasco Lé, funcionário, Alagoa e AG.R97, acompanhados pelos visuais do estúdio multidisciplinar AALTAR. A última das conversas decorreu ainda no gnration. Flora Yin-Wong respondeu às questões de Rui Miguel Abreu, assim como às de uma assistência algo tímida: o diálogo gravitou predominantemente em torno da peça "Sea of Fertility". A Sala Principal do Theatro Circo voltou a testemunhar o fim do programa de concertos. Os argumentos de Rabih Beaini e das harpistas Angélica Salvi e Eleonor Picas ergueram-se, belos e imponentes. O término encontrava-se inteligentemente reservado para a estreia nacional dos demolidores Supersilent: o trio de Helge Sten (Deathprod), Arve Henriksen e Ståle Storløkken. Alternando entre uma delicadeza glaciar e uma efervescente erudição meteórica, a saturnina prestação dos noruegueses roçou o inclassificável. A sala voltou a vibrar efusivamente.

Constituíram ainda o programa permanente do festival, a instalação sonora vencedora do Edigma Semibreve Award - RADAR L/410A, do dinamarquês Christian Skjødt Hasselstrøm - e a instalação Éter, uma peça audiovisual realizada pelo coletivo portuense Sonoscopia, em colaboração com a Sociedade Filarmónica Vizelense e as Termas de Vizela, ambas em exposição no Theatro Circo. Por sua vez, encontravam-se no gnration as três instalações vencedoras do Edigma Semibreve Scholar. Em parceria com o festival e com curadoria de Caterina Avataneo e Despoina Tzanou, a Galeria Duarte Sequeira agregou as obras de sete artistas internacionais na instalação "Blistering Tongues", concentrada exclusivamente em som e imagem em movimento. A programação do festival completou-se com as performances inéditas de Rabih Beaini, Zeena Parkins e Rafael Toral, filmadas na Galeria Duarte Sequeira em parceria com o canal180, sendo constituintes do programa online e publicadas nos dias 1, 2 e 3 de Novembro, respetivamente.

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