"O meu nome tem servido para justificar todos os males da Caixa"

O empresário madeirense está a ser ouvido na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos.

O empresário Joe Berardo considerou na comissão de inquérito que a sua situação creditícia tem servido como bode expiatório para os problemas que afligiram a CGD nos últimos anos, segundo a declaração lida pelo seu advogado.

A intervenção inicial de Joe Berardo na comissão de inquérito parlamentar à Caixa Geral de Depósitos (CGD) foi lida pelo seu advogado, André Luiz Gomes, uma declaração na qual o empresário considera que tem servido de bode expiatório.

"O meu nome e a minha situação creditícia têm servido como justificação para todos os males que afligiram a gestão da CGD nas últimas décadas", afirmou na declaração lida aos deputados.

Sobre as notícias de que só tem em seu nome uma garagem no Funchal, a declaração de Berardo lamenta que pessoas sujeitas ao sigilo bancário fizessem crer isso aos jornalistas, considerando essa "informação parcial e deturpada".

"Fizeram crer aos senhores jornalistas que só tinha em meu nome uma garagem, pois grato ficaria que os bancos aceitassem ficar com essa garagem no Funchal em troca de todos os ativos que lhes fui entregando pessoalmente e de boa-fé em garantias de dívidas de instituições que represento numa altura em que foi essencial no sistema bancário nacional que as dívidas não entrassem em incumprimento em virtude da situação dos mercados financeiros e da fragilidade do sistema financeiro português", afirmou.

O empresário Joe Berardo tem sido dos clientes bancários mais falados na comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da CGD.

A imagem

A audição do empresário Joe Berardo não está a ser gravada por câmaras dos órgãos de informação, uma vez que o empresário o pediu para proteção da sua imagem, informou o presidente da comissão parlamentar de inquérito à CGD.

Quando Joe Berardo chegou, pelas 14:45, à comissão parlamentar, na Assembleia da República em Lisboa, os operadores de câmaras de televisão e os fotógrafos recolheram imagens, mas de seguida tiveram de sair, motivo pelo qual o deputado do PSD Duarte Pacheco pediu explicações ao presidente da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos (CGD).

O presidente da comissão de inquérito, Luís Leite Ramos, disse que acedeu ao pedido de Joe Berardo de proteção de imagem na parte relativa à recolha de imagens pelos órgãos de informação, mas que negou o pedido para que a audição não fosse transmitida pela ARTV.

"Pediu em defesa e proteção de sua imagem que a sessão fosse realizada sem presença de fotógrafos e das câmaras de televisão", disse o deputado do PSD e presidente da comissão de inquérito, vincando que isso mesmo foi prática de outras comissões de inquérito.

O advogado do empresário madeirense mostrou-se também contra à transmissão desta comissão pela ARTV.

"É totalmente ilícita a transmissão, ainda que pelo canal parlamento. (...) A partir deste momento, qualquer gravação de som e imagem não tem autorização do meu constituinte sem prejuízo da gravação para efeitos legais", afirmou André Luiz Gomes no parlamento, em Lisboa, considerando ser um direito do seu cliente o direito à imagem.

Empréstimo de 320 milhões em dívida

Segundo a auditoria da EY à gestão da CGD entre 2000 e 2015, o banco público tinha neste ano uma exposição a Joe Berardo e à Metalgest, empresa do seu universo, na ordem dos 321 milhões de euros.

Os empréstimos a Joe Berardo serviram para financiar a compra de ações do BCP, naquilo que alguns deputados já classificaram de "assalto" ao banco, em 2007, cuja garantia eram as próprias ações, que depois desvalorizaram praticamente na totalidade, gerando grandes perdas para o banco público.

O património de Joe Berardo tem sido escalpelizado na comissão, tendo sido repetido várias vezes durante as audições que o único bem registado em seu nome é "uma garagem na Madeira".

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