Presidente do Crédito Agrícola: "Os bancos têm abusado, há comissões para tudo"

Licínio Pina afirma que as regras do BCE forçam a banca a aumentar comissões, mas reconhece que houve exageros. Licínio Pina diz que os serviços básicos devem ser "tendencialmente gratuitos".

O sistema financeiro está a adaptar-se à concorrência das fintech [empresas financeiras tecnológicas]. Os bancos tradicionais estão a saber responder?

Os bancos portugueses têm sabido sempre responder a desafios.

A Caixa Agrícola (CA) lançou o Moey, um serviço de banca digital sem custos para operações simples, como Revolut e N26. É como diz o ditado, "se não os podes vencer, junta-te a eles"?

O Moey é um produto que assenta numa app com funcionalidades como a abertura de contas à ordem. Temos 80 zonas interbancárias, uma por Caixa, e o cliente abre conta onde deseja. Foi lançado para responder a desafios que tínhamos, designadamente demográficos. Somos um banco com penetração intensa nas zonas rurais e no interior e pouca nas áreas urbanas e muitos dos nossos jovens ao vir para a universidade nos grandes centros desligavam-se da CA da sua terra. Agora podem abrir conta e fazer movimentos em todo o mundo.

Mas sendo sem custos, a CA não perde no imediato - talvez com esperança de retorno depois?

No início não se cobra taxas, mas serão adicionados produtos para capturar clientes e rentabilidade.

Uma versão premium, paga?

Digamos que é produto similar a outros que há no mercado mas diferenciado porque é uma criação exclusivamente portuguesa.

Esta é uma nova área de negócio. É esse o caminho, ir onde estão os clientes e não ter sede física?

Não acredito que o digital possa viver sem banca presencial. É necessário que haja uma rede que se possa contactar para resolver dificuldades. Portanto, vejo a banca no futuro muito assente em tecnologia mas com algumas unidades físicas.

Há o problema da regulação. As fintechs não têm de responder às mesmas exigências do que os bancos. Esse caminho de concorrer com fintechs pode ajudar a atenuar o desequilíbrio?

Não têm regulação igual, mas também não fazem o que fazem os bancos, não têm licença bancária.

Mas quando um banco tem uma fintech, prevalece o banco.

Exatamente. A fintech é um braço para clientes mais digitais, mas o banco tem de ter licença.

Mas as fintechs que não existem dentro de bancos não estão sujeitas às mesmas regras. Isso não cria desequilíbrios?

Pode criar, mas há outras, as GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon), que estão a fazer banca, digamos assim, e o regulador está muito atento à sua penetração.

Qual é a urgência da regulação?

Quanto mais rápido melhor, para termos todos as mesmas regras.

O Banco de Portugal (BdP) tem sido suficientemente diligente?

Tem. Esses temas têm sido objeto de várias conferências, eles estão preocupados e querem ter a segurança de que as fintechs não vão criar problemas disruptivos.

Temos vindo a assistir a um aumento de comissões na banca tradicional. É uma inevitabilidade? Ou será um tiro no pé?

Com as políticas monetárias do BCE, a forma de fazer banca alterou-se profundamente. Assiste-se hoje a uma inversão da relação bancária em que quem deposita paga e quem tem crédito recebe.

Os bancos, para depositar dinheiro no BCE, têm de pagar.

É assim, embora Mario Draghi tenha criado uma relativa facilidade recente: os bancos pagam 0,5% por depósitos no BdP ou no BCE mas há um limite mínimo a partir do qual pagam, de sete vezes a reserva mínima de caixa. No caso do CA, são depósitos acima de mil milhões. Essa política trouxe um grande desafio à banca e a quem a gere. Os bancos, para sustentar a rentabilidade e equilibrar balanços, e não sendo possível que haja margem financeira disponível para alimentar o negócio, foram criando comissões. Tem-se abusado um bocadinho, há comissões para tudo.

Acha que houve exagero?

Algum. O CA é dos menos agressivos: pela domiciliação da conta à ordem cobramos 15 euros por trimestre, mas excluímos jovens até 30 anos, reformados e associados.

É difícil aceitar que se pague por operações quase automáticas...

Lá está, a tendência é que quem deposita paga. Se não, quem paga os custos do banco?

Acha que os serviços devem ser tendencialmente gratuitos?

Tendencialmente, concordo.

Mas isso contradiz o que disse.

Por isso é que no CA somos menos agressivos. Posicionamo-nos num segmento de mercado diferenciado, trabalhamos com pessoas com pequenas poupanças, pequenos depositantes, muitos reformados, pessoas mais rurais. Eles são a base do nosso banco e temos em atenção a nossa responsabilidade social.

O grupo planeia reduzir o número de Caixas - hoje são 80. Em que ponto está esse projeto?

Temos um plano para fusão de algumas que têm dificuldade em cumprir os critérios exigidos pelo regulador quanto à segregação de funções. Se uma Caixa com sete funcionários tiver todos os órgãos sociais - conselho fiscal, administração, mesa, etc. - terá mais órgãos sociais do que empregados. Não dá, nem permite segregar funções de risco, compliance, auditoria...

E qual é o ponto do processo?

Uma fusão conclui-se no final de outubro, com a integração de duas Caixas, temos mais quatro em aprovação no BdP e as outras em marcha. É um processo complexo e ainda mais em virtude do fit&proper (avaliação dos órgãos sociais), que exige análise e escrutínio.

E quando estará tudo feito?

Conto que se conclua o movimento em 2020, com 20 Caixas a resultar em dez - num total de 70.

Que implicação terá isso no número de trabalhadores?

O problema que enfrentamos nas fusões é outro, designadamente que órgãos e associados entendam a razão da fusão e a aprovem na assembleia. Os empregados são realocados quando longe da idade de reforma; e muitos dos que já não acompanham as novas tendências da banca e tecnologia fazem acordos de pré-reforma.

No final de 2018 havia 4 mil funcionários. Quantos ficam?

Teremos mais, porque as nossas necessidades prendem-se com funções de controlo e saindo alguns que toda a vida foram comerciais, porque essa função deixa de existir, serão necessárias outras competências. Não sei quantos serão, mas a auditoria interna já tem, centralmente, 32 pessoas.

Em 2016, o grupo despediu três membros da equipa de auditoria, incluindo a coordenadora. O processo foi conduzido por um ex-responsável de uma Caixa que foi afastado pelo BdP. Como explica esta situação?

Essas pessoas não pertencem à Caixa Central nem a nenhuma Caixa, pertencem à Federação Nacional de Caixas Agrícolas e esta é que decidiu afastá-las. A sua função terminou na Federação - quem pertence à Federação preside a Caixas e não poderia tutelar a auditoria interna.

Então qual foi o problema?

Negociou-se com a maioria, eram uns 12 e quase todos foram realocados ou indemnizados. Esses entenderam que não e, apesar de lhes ter sido oferecido trabalho na Caixa Central, recusaram.

Trabalho que implicava um recuo de anos na carreira a receber uma fração do que ganhavam...

Eram auditores, foi-lhes oferecida auditoria. Reforçámos quadros de auditoria interna, precisávamos de pessoas e essas tinham experiência, podiam ter aceitado. A Caixa Central foi arrastada para o processo porque foi indicada por eles como testemunha ou parte da contenda, mas é assunto da Federação.

Como é que há Caixas, como a do Baixo Mondego, sobre as quais recaem acusações de conflito de interesses, entre outras?

Há que enquadrar essas questões. O fit&proper resulta numa grande transformação ao nível da gestão das Caixas, um conjunto de administradores não licenciados tem de ser substituído por quem tem o conhecimento. Quem sai, não gosta. Nós temos vindo a tentar arranjar soluções, criando uns conselhos consultivos e superiores para alocar essas pessoas, mas está em causa uma enorme variação de remuneração, e são pessoas que estiveram muitos anos ligadas às Caixas... não gostam. Por causa disso, tem havido imensas denúncias, rececionadas por nós ou pelo BdP, que nos pede que investiguemos. E tem dado trabalho, porque haja veracidade ou não, é necessário verificar e fazer averiguação, muitas vezes auditorias forenses.

Chegam muitas vezes à conclusão de que é verdade?

Algumas situações confirmam-se, mas a maioria não.

A CA teve no primeiro semestre um crescimento de 16% nos lucros, para 74 milhões. Como vai terminar os nove meses?

Já posso revelar o resultado de setembro e está bem acima do ano passado: lucro de 104 milhões que compara com 85 no homólogo.

Esse crescimento continuará?

Nos últimos três meses normalmente há ajustes - como as provisões para os fundos de pensões dos funcionários, mas continuará.

As mudanças de estatutos e regulamento dos últimos anos tiveram efeito na sua liderança?

A gestão é cada vez mais complexa - e temos a dificuldade acrescida de gerir 80 bancos como se fosse um só. Houve grande união em volta do conselho de administração da Caixa Central e as pessoas entenderam que, trabalhando em grupo, é tudo mais fácil. E temos conseguido fazer crescer o grupo: +7% nos depósitos, +5% no crédito... Há a dinâmica económica, mas o grupo tem sabido aproveitar a onda.

Uma parceria com o Montepio está fora de causa?

É um tema morto e enterrado.

Não é ressuscitável?

Não. Houve tempos em que isso foi falado, pelas características dos dois bancos, relacionados com a economia social, mas o tema foi por mim afastado e nem as pessoas que lideram o Montepio o têm abordado.

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