Costa já lançou os dados: braços abertos à esquerda e chega para lá à direita

Um repto à esquerda, com um aviso ao Bloco, e vários ataques à direita. O discurso de vitória de António Costa deixou a promessa de que o PS está disponível para uma 'Geringonça' 2.0.

Uma noite de vitória e de consagração do trabalho feito. O PS é o grande vencedor das eleições Legislativas de 2019, depois de quatro anos de governação com suporte parlamentar à esquerda. Costa andou semanas a pedir força para o PS, estabilidade para os próximos anos e recebeu dos portugueses uma vitória convincente.

Agora, é preciso arregaçar as mangas e voltar ao trabalho. Para isso, Costa conta com a esquerda, até porque os "portugueses gostaram da "Geringonça"" e mostraram isso nas urnas, e pretende manter-se longe da direita. Contudo, não deixou o Bloco de Esquerda sair ileso do discurso de vitória e esclareceu que "quem fez campanha contra a maioria absoluta" tem responsabilidades acrescidas.

A sala do "quartel-general" socialista esteve sempre bem composta numa noite que significou um regresso do PS às vitórias nas eleições para a Assembleia da República. Costa chegou cedo, mais do que o previsto, e esperou que Rui Rio terminasse o discurso para subir ao palco do Hotel Altis, em Lisboa.

O espaço era pouco para tanta gente, os aplausos superavam os do início da noite - quando se soube que o PS conseguiria a vitória - e Costa anunciava aos apoiantes e ao país que queria uma segunda versão da "Geringonça" alargada aos recém-chegado Livre e ao reforçado PAN.

"Os portugueses gostaram da "Geringonça" e desejam a continuidade da atual solução política, agora com um PS mais forte." As palavras fortes da noite vieram pouco depois dos agradecimentos, dos alertas à abstenção e responderam à questão que há muito se esperava. Sim, Costa quer renovar a atual solução política.

Como? Esta parte da questão mantém-se por responder, já que é preciso falar com os partidos e perceber o que é possível fazer. O Bloco de Esquerda disse esta noite que há duas formas de o fazer - ou chega a acordo ou negoceia ano a ano -, enquanto o PCP garantiu que não haverá uma repetição do que aconteceu em 2015. O caso está longe de estar encerrado e, se de uma série se tratasse, estas seriam cenas para o próximo episódio.

O líder socialista mostrou-se satisfeito com os resultados eleitorais em que "o PS reforçou a posição política", tornando-se no "único partido político que elege deputados em todos os círculos eleitorais do território" e que "ganhou mesmo em 15 dos 20 círculos eleitorais".

Depois de duas semanas a repetir vezes sem conta a palavra "estabilidade", o secretário-geral do PS voltou a repetir a ideia, desta vez como um dado quase adquirido, tendo em conta que acredita ser possível uma "solução estável" com os resultados desta noite.

"Independentemente da vontade dos outros, a nossa vontade e determinação é garantir quatro anos de estabilidade em Portugal", esclareceu, frisando que o PS "não atira a toalha ao chão" e sente que tem uma "responsabilidade acrescida" com esta votação.

O "quadro de parceiros com quem faz sentido trabalhar" está apresentado e o PS "tudo fará para que seja possível". Contudo, ressalva, "não são só os outros que têm cadernos de encargos, nós também temos."

Estava lançada a ideia com um destinatário bem claro. O PS tem a responsabilidade "tomar iniciativa" e os outros partidos "têm mesmo de contribuir para a estabilidade política para os próximos quatro anos", nomeadamente quem "fez campanha contra a maioria absoluta do PS" - uma referência clara ao Bloco de Esquerda.

Se o PS não tem dúvidas com quem pretende trabalhar, também não tem dúvidas sobre quem será rejeitado. Questionado sobre o recém-chegado Chega, o partido de André Ventura, Costa foi perentório: "Nós não contamos com o Chega para nada."

A resposta veio da plateia e em jeito de aprovação. Na sala repleta de socialistas ouviram gritos alusivos à Revolução dos Cravos: "25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais!"

Para o PSD e CDS ficam também críticas por não terem apresentado uma "alternativa credível" ao Governo do PS, o que os levou, de acordo com Costa, à "maior derrota histórica da direita em Portugal".

Mais ainda, o líder socialista acusou a direita de ter assente a campanha eleitoral em "casos e ataques pessoais". Por falar nisso, e questionado sobre Tancos - o tema que levou a estes tais ataques - Costa fugiu à questão e recusou-se a falar sobre o assunto.

A noite era de festa e assim desejava que continuasse. Costa abandonou o Hotel Altis depois de deixar os dados em cima da mesa. Falta que se lancem e que se encontre a tal solução de "estabilidade" com que o líder socialista tanto sonha.

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