Marta Temido demitiu-se esta terça-feira
Demissão de Marta Temido

Da pandemia às crises no SNS. Marta Temido demite-se após 1414 dias à frente da Saúde

A demissão da ministra da Saúde já foi aceite por António Costa.

A ministra da Saúde colocou, esta terça-feira, um ponto final num mandato iniciado em 2018 e que ficou marcado por muitas dificuldades. Dois meses depois de ter garantido que não desistia, Marta Temido sentiu que já não tinha condições para continuar. "Decido continuar a lutar, a responder e a contrariar todas essas circunstâncias que descreveu, não há seis anos, mas há quatro, com a responsabilidade de muitos anos de trabalho no Serviço Nacional de Saúde. Não tenho só responsabilidade de ministra, mas também a responsabilidade de muitos anos de trabalho no SNS, estar ombro a ombro com muitos profissionais de saúde, ter enfrentado muita contestação, ter estado convosco em muitas sessões a tentar esclarecer a resposta à pandemia e a ter muitos problemas para resolver. Continuo determinada e continuo com vontade de resolver os problemas", dizia Marta Temido a meados do mês de junho de 2022.

Foi ministra durante 1414 dias, quase quatro anos. No início, era considerada um das mais populares do Executivo, mas depois vieram as críticas. Dois anos de pandemia trouxeram desgaste, mas Marta Temido viu-se envolvida em várias polémicas.

Uma das primeiras, pouco depois de ter tomado posse, esteve relacionada com as Parcerias Público Privadas (PPP). Na nova lei de bases, a porta mantinha-se aberta a algumas PPP e os parceiros da geringonça acusaram a ministra de ter furado um acordo assinado com o PS.

Ainda nos primeiros meses de mandato, Marta Temido chocava de frente com os enfermeiros. Em reação a uma greve, a ministra rejeitava negociar para não privilegiar o criminoso e o infrator. Dias depois, pediu desculpa à bastonária.

Marta Temido foi considerada um dos "rostos" mais conhecidos dos portugueses devido à pandemia da Covid-19, que chegou a Portugal no início de 2020.

Desde então, o combate à Covid-19 passou a dominar a atuação do Ministério de Marta Temido, natural de Coimbra, onde nasceu em 1974, com várias organizações do setor, como as ordens profissionais e os sindicatos, a criticarem a crónica falta de meios do Serviço Nacional de Saúde (SNS) evidenciada com a pandemia, que atingiu o "pico" de internamentos e mortes no início de 2021.

Dividindo o protagonismo com a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, e com o ex-coordenador da `task force´ da vacinação, Gouveia e Melo, a ministra da Saúde garantiu sempre que o SNS tem sido alvo de um reforço de financiamento, mas também de profissionais de saúde.

Além da pandemia, a governação de Marta Temido ficou marcada pela aprovação em Conselho de Ministros, em outubro de 2021, do novo Estatuto do SNS, conforme previsto na Lei de Bases da Saúde publicada em 2019, e que, segundo o Governo, vem clarificar o papel e a relação entre os vários atores do sistema de saúde.

Este novo Estatuto prevê a criação de uma direção executiva para a gestão do SNS, uma área que não é desconhecida para a ministra da Saúde, que é doutorada em Saúde Internacional, mestre em Gestão e Economia da Saúde e licenciada em Direito.

De resto, a relação com os profissionais do setor andou quase sempre aos trambolhões. Durante o combate à pandemia, Marta Temido elogiou inúmeras vezes o trabalho de médicos e enfermeiros, mas foi um pedido para mais resiliência, o que causou mal-estar e obrigou a ministra a ter de se explicar.

As filas de espera no Sistema Nacional de Saúde foram outro motivo de críticas a Marta Temido, críticas essas que se agravaram nos últimos meses com várias urgências obstétricas a fecharem por falta de médicos em todo o país.

Temido anunciou um plano de emergência para o verão, mas os problemas mantiveram-se, e com efeitos trágicos. Em julho, um bebé morreu durante uma cesariana de urgência no hospital das Caldas da Rainha devido ao encerramento do bloco de partos.

No mesmo mês, um outro bebé perdia a vida, depois de a mãe ter feito mais de cem quilómetros à procura de um hospital.

O caso mais recente foi conhecido nas últimas horas: Uma mulher de 34 anos, grávida de 31 semanas, morreu, em Lisboa, depois de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória durante a transferência de ambulância de Santa Maria para São Francisco Xavier. A grávida estava a ser transferida porque em Santa Maria não havia vaga para o bebé quando fosse provocado o parto, uma medida urgente para salvar a vida da mãe.

A visibilidade pública de Marta Temida estendeu-se, recentemente, à atividade partidária, com a sua filiação no Partido Socialista, chegando mesmo a receber o cartão de militante das mãos de António Costa no congresso que se realizou em agosto de 2021 em Portimão, título que considerou ser "uma honra" e também "uma responsabilidade".

Nas eleições de 30 de janeiro, Marta Temido foi eleita deputada à Assembleia da República por Coimbra, distrito por onde foi cabeça de lista do PS.

Entre os desafios imediatos, o Ministério tem de dar resposta à recuperação da atividade assistencial aos utentes prejudicada pela pandemia da Covid-19 e materializar os cerca de 1,3 mil milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) destinados a reforçar o SNS em várias áreas.

Marta Temido sucedeu a Adalberto Campos Fernandes em 2018. A ministra demissionária é doutorada em Saúde Internacional pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Gestão e Economia da Saúde, pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e é licenciada em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

Marta Temido também foi subdiretora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa e presidente do conselho diretivo da Administração Central do Sistema de Saúde, assim como membro do conselho de administração de vários hospitais do Serviço Nacional de Saúde.

A demissão da ministra da Saúde foi anunciada pelo próprio Ministério numa nota enviada às redações.

"A ministra da Saúde, Marta Temido, apresentou hoje a sua demissão ao Primeiro-Ministro por entender que deixou de ter condições para se manter no cargo", lê-se no comunicado.

António Costa já aceitou a demissão da ministra. "O primeiro-ministro recebeu o pedido de demissão da Ministra da Saúde. Respeita a sua decisão e aceita o pedido, que já comunicou ao Senhor Presidente da República", anuncia o gabinete do primeiro-ministro em comunicado.

"O primeiro-ministro agradece todo o trabalho desenvolvido pela Dra. Marta Temido, muito em especial no período excecional do combate à pandemia da Covid-19", afirma.

O gabinete de António Costa revela que "o Governo prosseguirá as reformas em curso tendo em vista fortalecer o SNS e a melhoria dos cuidados de saúde prestados aos portugueses".

* Notícia atualizada às 11h34

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