De Sá Carneiro à maçonaria. Debate marcado por ataques e poucas convergências

Muitos ataques e poucas ideias para o futuro num debate onde "a roupa suja" ficou à vista de todos na televisão pública. Candidatos à liderança do PSD só convergem nas críticas ao modelo económico socialista.

Quis o destino (ou as agendas) que o primeiro debate a juntar os candidatos à liderança do PSD fosse no dia da morte do fundador, Francisco Sá Carneiro, depois da missa evocativa onde Rui Rio e Luís Montenegro marcaram presença e Pinto Luz, por não ter esse hábito, faltou à chamada. Mas o espírito de Sá Carneiro esteve bem presente nos estúdios da RTP esta noite. Já lá vamos porque os ataques vieram primeiro.

Com Rui Rio de um lado da mesa e Montenegro e Pinto Luz do outro, o gancho para os 52 minutos de debate foi lançado pelos resultados eleitorais com o presidente do PSD a começar por realçar que "há derrotas e derrotas" e que o clima de "guerrilha" interna não ajudou. Mas os dois adversários não perdoaram e não se escusaram a apontar que o "resultado das europeias foi o pior de sempre" e que nas legislativas pouco faltou.

Montenegro não deixa passar e diz logo que "a desculpa da guerrilha interna não colhe" e que "o PSD se apresentou a estas eleições como um PS número 2". "Não vale a pena arranjarmos desculpas, as coisas correram mal", nota o antigo líder parlamentar.

Também Pinto Luz entra em cena a pedir a Rui Rio a receita para o futuro porque "a receita que nos trouxe até aqui foi errada". "Rui Rio optou por uma estratégia de subalternização em relação ao PS mas, mais do que isso, optou por uma estratégia de estar contra tudo e contra todos", sublinha Pinto Luz pedindo a Rio para "poupar na lenga-lenga" de se queixar "constantemente de que todo o mundo está contra ele". E os exemplos vão desde a comunicação social e dos jornalistas à maçonaria, passando pelo Ministério Público e pelos próprios militantes do partido.

E antes de chegarmos à maçonaria que deu pano para mangas neste debate, Rio não se ficou e mostrou as garras ao, ironicamente, sublinhar que "estes dois senhores têm resultados eleitorais brilhantes". Apontando a Montenegro, sublinha as derrotas na Câmara de Espinho e na distrital de Aveiro, com a mira em Pinto Luz, dispara com os resultados que o PSD teve em Lisboa quando o agora autarca liderou a distrital.

Dados lançados para a confusão e para a troca de acusações com Montenegro a lembrar, por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa que perdeu em Lisboa e hoje é Presidente da República ou Pinto Luz a insistir que Rio transformou a derrota em vitória ("à semelhança do que faz o PCP"). Montenegro aproveitou ainda a deixa de Rio que se referiu ao Conselho Nacional de Janeiro como "golpe de Estado" para virar o jogo: "não houve golpe nenhum, fiz tudo às claras e o senhor faz pela calada".

"Foi o que fez em 2013 na Câmara do Porto quando montou uma candidatura contra o PSD e contra uma pessoa que era presidente do PSD, isso sim foi uma golpada e pela calada. E o senhor agora até anda aos beijos na boca e aos abraços com Luís Filipe Menezes e está no seu direito, mas apoiou Rui Moreira, zangou-se com ele, mudou de opinião, e agora já tinha desapoiado Menezes de quem disse cobras e lagartos, veja bem... Está a falar de hipocrisia? Hipocrisia é isto!", sublinha Montenegro.

Quem incorpora mais Sá Carneiro?

Até aqui o debate está em modo "2 contra 1" e assim segue com o atual presidente do PSD a puxar de outra carta: a maçonaria. O mote foi dado pela jornalista que lembrou as declarações de Rio nos últimos meses sobre "grupos organizados" e questionou o presidente social-democrata sobre se visava os adversários.

"Eles dois são conhecidos como sendo da maçonaria", atira Rio questionando a necessidade de haver sociedades secretas depois do 25 de abril. Nas explicações, Luís Montenegro lamentou o facto de Rui Rio ter entrado na "política da insinuação" acusando Rio de estar a fazer julgamentos com base em notícias, algo que tanto critica. "Não sou da maçonaria", diz Montenegro realçando que apenas esteve num jantar.

Já Miguel Pinto Luz tira "o elefante de dentro sala". "Fui membro da maçonaria com 20 e poucos anos e saí há mais de 10. Com a mesma liberdade com que entrei também saí. Desde que tenho cargos públicos, não pertenço à maçonaria", diz o autarca de Cascais. Perante a desconfiança de Rio, Pinto Luz questiona: "acredita na minha palavra ou continua a desconfiar de tudo e de todos?".

Se até aos 20 minutos já tinham sido feitas algumas referências a Sá Carneiro, é nesta altura que os candidatos lutam para ver quem é mais "Sá Carneirista". Pinto Luz acusa Rio de fazer com que o PSD perca "o ímpeto reformista" e saca de um livro de Sá Carneiro para oferecer a Rio. Falando do fundador do partido, de Cavaco Silva e de Pedro Passos Coelho como líderes que ultrapassaram o impasse em que o país estava, Pinto Luz diz que chega para "unir o PSD" com um projeto mobilizador e reformista.

Montenegro que também trazia o livro "Impasse" de Sá Carneiro, aproveita para ler uma passagem: "dispondo o governo de apoio parlamentar maioritário, o nosso papel, como oposição, deve ser o da crítica exigente e não o da cooperação em nome do interesse nacional, pelo contrário, a defesa deste exige de nós que desempenhemos o papel habitual de oposição em democracia, denunciando erros, apontando defeitos, apontando soluções alternativas, mas não negociando o conteúdo das leis, não efetuando acordos pontuais ou globais, não transigindo com a política do governo". "É isso que me proponho fazer", diz Montenegro.

Rio, confesso admirador de Sá Carneiro, sublinha que neste ponto tem de facto uma "divergência real" e lembrou que antes de fazer a AD, Sá Carneiro tentou uma "convergência democrática com o PS" e, como não conseguiu, fê-la com o CDS. "Uma coisa é 1977, 78 ou 79 outra coisa é a situação atual", destaca Rio defendendo que o PSD deve fazer "uma oposição construtiva" que denuncia mas que também é capaz de concordar. "Para concordar é preciso ter grandeza", destaca Rio dizendo ainda que a reforma do sistema político, por exemplo, só pode ser feita com os socialistas.

Contra o PS, marchar, marchar...

Depois da "lavandaria", começam a chegar as convergências. O Orçamento do Estado é um desses exemplos, mas só entre dois dos candidatos. Já tinha sido anunciado por todos, mas no debate fizeram questão de o frisar. Montenegro é o único que "às cegas" votaria contra a proposta de Orçamento do Estado do governo, com Miguel Pinto Luz e Rui Rio a admitirem que é difícil aprová-lo, mas que esperam para ver o documento.

Seguindo no debate, Miguel Pinto Luz é crítico do peso do Estado na economia, dando o exemplo dos transportes; Luís Montenegro sublinhou "a maior carga fiscal de sempre" com a degradação dos serviços públicos a acontecer em paralelo, principalmente na saúde; Rui Rio partiu para as críticas ao modelo económico socialista que deveria trazer "mais receita por via de maior crescimento económico e não por maior carga fiscal".

Já na parte final do debate, o vice-presidente da Câmara de Cascais até sublinhou que estão todos "mais ou menos de acordo nesta matéria". "Temos de virar o país para as exportações e para o investimento, mas temos de desafogar as famílias desta maior carga fiscal de sempre, temos de simplificar o sistema fiscal e dar previsibilidade. Às vezes, é melhor para o investidor dar-lhe previsibilidade do que uma baixa carga fiscal", sintetiza Miguel Pinto Luz.

Ponto final no debate em que ainda se falou de autárquicas com os candidatos a resumirem as ideias que têm vindo a defender. Todos reconhecem a sua grande importância, mas só Luís Montenegro é mais taxativo na ideia de que é possível vencer, diz até já ter nomes para concorrer às câmaras de Lisboa e Porto.

Foram 52 minutos de debate, grande parte dele a "lavar roupa suja" com ataques de parte a parte, mas com poucas novidades face àquilo que já vem sendo dito pelos candidatos nesta campanha interna que terá o primeiro momento decisivo a 11 de janeiro - dia em que os militantes vão ser chamados às urnas.

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