"É essencial falar verdade às pessoas." Um dia nos bastidores com o MAI
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"É essencial falar verdade às pessoas." Um dia nos bastidores com o MAI

Entre almoçar no próprio gabinete a sair de reuniões para entrar noutras logo a seguir, Eduardo Cabrita conversou com a TSF sublinhando que a estratégia do governo é a de "falar a verdade aos portugueses", admitindo que nem o executivo tem conhecimento sobre tudo o que acontece no mundo relacionado com a pandemia. Em permanente contacto com o primeiro-ministro, o MAI confessa que o momento mais difícil no meio desta crise nem teve que ver com o novo coronavírus.

São nove horas da manhã e, numa Praça do Comércio praticamente deserta, Eduardo Cabrita sai do carro seguido por um dos seguranças que o acompanha em permanência. De pasta na mão com documentação e jornais, o ministro da Administração Interna entra no edifício, cumprimenta os funcionários e começa por recordar que o dia anterior tinha durado até perto da meia-noite por causa dos detalhes que era necessário acertar sobre os decretos aprovados em Conselho de Ministros.

Sem se queixar da falta de horas de sono ("durmo, durmo perfeitamente!"), Eduardo Cabrita, que já levava quase uma hora de viagem de casa até ao ministério, entra no gabinete onde tem em cima da mesa de reuniões os tais decretos de que falava e que tinham sido publicados em Diário da República já altas horas da noite e um exemplar do dia do jornal espanhol El País.

"Isto vai até tarde e começa cedo", diz o ministro antes de confessar uma rotina antiga e que ainda é mais vital numa altura de Estado de Emergência. "De manhã, tenho um hábito muito antigo com o primeiro-ministro... Conhecemo-nos desde a faculdade e, como somos os dois madrugadores, uns dias por SMS, outros por viva voz, as coisas mais complexas são acertadas entre as 7h00 e as 8h30", nota.

Antes de chegar, já espreitou os jornais e vai ainda passar os olhos pelo El País - "é obrigatório para perceber o que se passa em Espanha" - e pela documentação enquanto toma um café. Entre as folhas, estão os relatórios diários das forças de segurança com os mais recentes números de ocorrências de desobediência nesta fase excecional da vida do país.

Em conversa com a TSF, recorda alguns episódios caricatos que vão desde "um caso em que o próprio presidente de Junta estava dentro do restaurante fechado num almoço com amigos", às "pessoas que se juntam a dizer que é take-away e a tomar umas cervejas à porta" ou "as pessoas que acham que, com um cão, podem ir a qualquer lado".

Histórias à parte, às 9h40, está tudo pronto para a primeira de três reuniões matinais. Os dias, geralmente, começam desta forma: a reunir com os secretários de Estado que tem sob sua alçada. No primeiro dia do novo Estado de Emergência, também se encontrou logo em seguida com o diretor nacional da PSP, Magina da Silva, com o comandante geral da GNR, Botelho Miguel, com o comandante nacional da Proteção Civil, Mourato Nunes, e com a diretora nacional do SEF, Cristina Gatões.

Sem sair do gabinete durante toda a manhã, estiveram em análise todos os últimos relatórios produzidos pelas forças de segurança, bem como as medidas aprovadas no Conselho de Ministros. Num ministério "que não pode parar" como faz questão de sublinhar, Eduardo Cabrita sabe bem que tutela uma das pastas mais escrutinadas pela população. Também por isso, são várias as referências ao longo do dia à atitude dos portugueses durante este período, bem como a atuação das autoridades.

"Não esconder que não sabemos tudo e não criar falsas ilusões"

Perto do meio-dia começam a circular funcionários com caixas com comida. É assim por estes dias de Covid-19: os almoços são encomendados e os trabalhadores do ministério comem por lá, ministro incluído, quando há tempo para tal. Este é um dia em que há tempo porque uma reunião europeia caiu da agenda.

"Como não há nenhum restaurante aqui na zona, fechou tudo, arranjaram aqui uma maneira...", nota Eduardo Cabrita com um tabuleiro à frente na mesa que minutos antes servia para reuniões dentro do próprio gabinete.

No menu, sopa, esparguete à bolonhesa e um refrigerante sem açúcar que alguém do ministério escolheu para a refeição do ministro. Ao fundo, a televisão com o noticiário, ao lado o telemóvel que não para de receber mensagens e ainda relatórios e documentação.

Rotina funcional alterada, mas e na de trabalho? "Os outros temas de gestão corrente, maioritariamente, desapareceram. Podemos adiar o pagamento das rendas de casa, o pagamento dos empréstimos bancários, até o pagamento pelas empresas de alguns impostos, mas não podemos adiar o verão e, portanto, a questão dos incêndios florestais mantém-se", nota o ministro realçando que o governo decidiu adiar as obrigações de limpeza, reconhecendo que estão a "correr algum risco", mas que essa operação não é viável nesta altura.

Entre uma garfada e outra, Eduardo Cabrita sublinha que começou a despertar para o assunto do novo coronavírus na comemoração do ano novo chinês. Com um passado profissional ligado a Macau, o governante não deixa de comemorar a data especial para os chineses e este ano organizou um almoço chinês com amigos onde o tema surgiu. "Aí já havia notícias da China e confesso que hesitei. Aí talvez tenha sido a primeira vez que, entre amigos, falámos um bocadinho a sério do impacto que isto podia ter. No plano europeu, em fevereiro já nas reuniões europeias a questão estava a ser avaliada", recorda.

Sobre o futuro, ninguém se arrisca. Precisamente por isso, Cabrita diz que a estratégia do governo é só uma: "a verdade". "Uma questão essencial na gestão desta crise é falar verdade às pessoas. Não esconder que não sabemos tudo e não criar falsas ilusões".

Afirmando que "há muita coisa nas redes sociais e nos jornais" sobre eventuais vacinas, o ministro sublinha que as informações de que dispõem neste momento apontam para o facto de que "vamos ter de passar um próximo inverno com o vírus, não se sabe com que intensidade".

"Esse quadro é o quadro realista e é com esse que temos de viver, não é a criar expectativas que depois podem acentuar a dimensão de depressão coletiva. Acho que os portugueses estão a reagir muito bem, globalmente, de forma muito positiva", nota o ministro para quem este nível de limitação é "sustentável até à Páscoa". Ainda assim, a prudência recomenda a que não se comprometa com datas para um aliviar de restrições.

Um murro no estômago a meio da crise do coronavírus

A meio da pandemia, Eduardo Cabrita teve razões para sorrir quando viu a correr mundo e a ser elogiada a medida de regularização extraordinária, durante a pandemia, de imigrantes em Portugal. Mas se estes elogios globais relacionados com o SEF lhe causaram satisfação, uma outra notícia acerca deste mesmo serviço de segurança foi como que "um murro no estômago".

"O momento mais difícil não tem que ver com isto. Foi saber, no meio disto, daquele caso horrível no aeroporto de Lisboa de morte de um migrante, sobretudo quando Portugal é elogiado em todo o mundo por decisões que também tomamos sobre direitos. Foi verdadeiramente um murro no estômago do qual serão tiradas todas as consequências no plano jurídico, mas também no plano da organização do modelo de funcionamento no Aeroporto de Lisboa que não será o mesmo depois disto", garante o ministro.

Antes, confessava à TSF ter consciência de que está a ser exigido muito e dá um exemplo. "Foram retomadas fronteiras terrestres em poucas horas. A decisão andava a ser discutida, mas a decisão com Espanha foi fechada às três da tarde, acordámos que eram aqueles nove pontos e em que termos é que se fazia a reposição de fronteiras. Foi difícil dizer às pessoas: 'à meia-noite têm de lá estar, aquilo tem de estar a funcionar'", diz o ministro notando que "houve pessoas que foram transferidas, com prejuízo de vida", para serem colocadas na fronteira com o país vizinho.

Durante o almoço, houve ainda tempo para uma outra preocupação de muitos cidadãos: os drones das autoridades e que muitos classificam como pertencentes a um universo distópico ou orwelliano. Eduardo Cabrita sublinha que tudo foi feito com o aval da Comissão Nacional de Proteção de Dados e garante que este precedente aberto é apenas devido ao Estado de Emergência e "estritamente na medida em que for necessário, a proporcionalidade é aqui um elemento essencial".

Considerando que estes tempos em que vivemos são transversais à sociedade, "cujas causas, em parte, não conhecemos e não dominamos", Eduardo Cabrita sublinha que são situações que testam "a nossa capacidade de salvaguardar valores e o primado daquilo que é o núcleo essencial do Estado democrático". "É nestes momentos que se testa exatamente a solidez destes valores e convicções", diz.

Estamos a passar nesse teste? "Acho que estamos claramente a passar neste teste", nota o ministro afirmando que "não há uma referência de abuso de autoridade" e que nenhuma força política ou alguém vem dizer "que o governo está a aproveitar este momento para passar qualquer linha vermelha de exercício de autoridade".

Reuniões atrás de reuniões

Se de manhã as reuniões seguiram-se umas às outras, depois do almoço a situação não muda de figura. Sem tempo para café, o ministro sobe ao segundo andar do ministério para mais uma reunião de monitorização do Estado de Emergência.

É ele próprio quem preside a esta encontro que junta secretários de Estado de diversos ministérios e ainda os responsáveis das forças e serviços de segurança. Por videoconferência, o ministro toma conhecimento das mais recentes informações sobre, por exemplo, desobediências durante este período. No caso das primeiras duas semanas, foram 108 as detenções efetuadas pelas autoridades, um número que mais tarde o governante deu a conhecer numa conferência de imprensa marcada no próprio dia.

Pelo caminho, dirige-se a uma outra call para dar uma palavra de ânimo à subcomissão nacional de Proteção Civil que se foca em pormenores mais operacionais no terreno e que é acompanhada pela secretária de Estado da Proteção Civil, Patrícia Gaspar.

Com o tempo a correr, já quase atrasado para um encontro com o primeiro-ministro, Eduardo Cabrita torna a elogiar a atitude dos portugueses e, claro, das suas forças de segurança. Afinal, é preciso motivação para todos numa altura destas.

Considerando-se satisfeito com a atuação das autoridades e, para já, sem necessidade de mais efetivos, Eduardo Cabrita confessa também estar satisfeito com as diferentes forças políticas no país.

"Reconheço nesta matéria um grande sentimento de coesão nacional, tal tem sido refletido quer na forma como os decretos do Presidente da República têm sido apreciados pela Assembleia da República, mas também no envolvimento que temos colocado... O primeiro-ministro tem ouvido regularmente os líderes partidários, [eles] participaram, aliás, nas reuniões com epidemiologistas e outros especialistas na área da saúde que os têm confrontado com a análise da situação, mas sobretudo a previsão sobre a evolução", nota.

Questionado se acredita que a atual situação não servirá no futuro como arma de arremesso político, Cabrita é claro: "Acho que a saúde e a segurança de todos são elementos de união, nunca serão, numa democracia adulta como a portuguesa, motivo de confrontação política".

Entretanto, conseguiu arranjar uns minutos para conversar com a filha que trabalha numa universidade holandesa e que está agora confinada na Bélgica. Procurar escapar da realidade por uns minutos que seja, não é fácil, conta o ministro Eduardo Cabrita que, quando é possível, procura refúgio nas letras, numa "literatura de esperança que permita olhar com terminação para os tempos futuros".

"Alguma poesia e também alguma literatura portuguesa moderna", confessa o ministro elegendo o conterrâneo Bruno Viera Amaral, um autor "que nos diz muito sobre a esperança e o sentimento de comunhão em comunidade".

Para já, não há tempo para leituras ou para relaxar porque o dia está longe do fim. Já passa das cinco da tarde e tem ainda, pelo menos, mais duas reuniões antes de regressar a casa onde, provavelmente, ainda irá ter de ler telegramas diplomáticos, emails, mensagens. Talvez até consiga passar os olhos pelo barreirense Bruno Vieira Amaral que sem saber, no livro "As primeiras coisas", até tem uma passagem para estes tempos em que vivemos: "Como se as leis universais ficassem suspensas, à espera de que a nossa vida se resolva para só então voltarem a impor a sua serena e inquestionável autoridade".

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