António Costa em entrevista à TSF
Entrevista TSF

"Espero manter a lucidez de não ficar tempo a mais do que devo." A entrevista na íntegra

As respostas sobre o Novo Banco, a António não lhe convêm. O primeiro-ministro quer arrumar o assunto de vez e, quanto a Mário Centeno, o ideal seria que deixassem de lhe perguntar se fica ou sai do Governo. No primeiro dia da nova fase do desconfinamento do país, António Costa falou da necessidade de recuperar uma economia "congelada", da Europa e das presidenciais. Com o Congresso do PS adiado, Costa insiste na ideia de que Marcelo tem a reeleição garantida e não exclui um apoio do PS ao atual Presidente.

Novo Banco: "Não disse nada de que não tivesse consciência"

O senhor foi perentório em dois debates quinzenais sobre o Novo Banco: não haveria novas injeções sem o resultado da auditoria que foi pedida à Deloitte - estava prevista para maio e agora só será conhecida em julho. O senhor ignorava que essa sua declaração deixaria o Estado português em incumprimento ou o senhor acreditou mesmo que era possível fazer depender as injeções de capital dessa auditoria?

Eu creio que já está tudo esclarecido. O Governo já assumiu que houve uma falha de comunicação interna. Essa falha de comunicação está devidamente explicada. Já tive oportunidade de reafirmar a minha confiança no senhor ministro. O senhor ministro está a trabalhar em pleno e o Estado cumprir não só as suas obrigações contratuais, preveniu aquilo tinha que prevenir em matéria de auditoria às contas e não está prejudicado aquilo que é obrigação legal de fazer a auditoria que é determinada pela lei aprovada o ano passado. É um assunto devidamente esclarecido e a política desconfinou mas deve continuar centrada naquilo que é verdadeiramente relevante para a vida dos portugueses e que hoje tem um duplo desafio: continuar a conter a pandemia mas reanimar a nossa vida económica e responder à crise económica e social que esta pandemia tem causado. E essa é seguramente uma das maiores preocupações dos portugueses e o dever da política que é centrar-se naquilo que são as preocupações das pessoas e as necessidades do país.

Eu percebo que queira dar a polémica por encerrada mas continuo com uma dúvida: essa falha de comunicação aconteceu apenas no último debate quinzenal ou é uma falha de comunicação que tem mais de mês? Porque o senhor, numa entrevista ao Expresso, também foi muito perentório a dizer que o que estava no Orçamento do Estado era para cumprir. E o que estava no Orçamento do Estado não fazia depender novas injeções no Novo Banco da auditoria da Deloitte?

Eu não vou continuar a alimentar...

Veja a entrevista na íntegra

Eu não quero alimentar, quero esclarecer só...

Eu fiz uma afirmação no Parlamento que não correspondeu à realidade e por isso eu pedi desculpa à deputada Catarina Martins. Quando à falha de comunicação no Governo foi diretamente esclarecida entre mim e o senhor ministro de Estado e das Finanças. É um assunto que está devidamente ultrapassado e portanto cada um continua a seguir o seu trabalho em equipa, como é próprio numa ação governativa que não é, muitas vezes, isenta de falhas de funcionamento interno, mas que felizmente esclarecidas, estão ultrapassadas e agora cada um está a fazer aquilo que importa fazer.

Tinha consciência que havia um pagamento para ser feito em maio? Ou achou que esse pagamento podia ser adiado?

Desculpe lá... Eu não vou continuar a falar desse assunto...

Eu tenho que tentar esclarecer...

Eu percebo a sua pergunta mas é um assunto que está devidamente encerrado e devidamente esclarecido. Não creio que tenha utilidade para o país, neste momento, aprofundar esse tema. Eu felizmente tenho consciência de tudo. Não disse nada de que não tivesse consciência e também estou consciente de que estando o assunto esclarecido, reafirmada a minha confiança o seu ministro das Finanças, não vou continuar a aprofundar um debate que está ultrapassado.

O contrato de venda à Lone Star prevê ainda que o Estado possa ter que injetar até mais 920 milhões de euros no Novo Banco. A pergunta que lhe queria fazer é se esta auditoria que vai ser conhecida em julho pode determinar futuras injeções de capital no Novo Banco?

Eu creio que já todos são especialistas quer no contrato quer no conjunto da legislação que existe. Não vamos estar a especular independentemente dessa auditoria, os pagamentos não são automáticos e, sobretudo, este ano deixaram de ter essa atomicidade porque estão sujeitos a mais critérios de exigência.

Quanto ao fundo que é o que é o que é mais relevante. O BES terminou como terminou, foi tomada uma resolução que foi feita em 2014 e criou-se um condicionamento muito específico que levou à venda do Novo Banco nas condições em que ele pode ser vendido. O conjunto dessas obrigações contratuais tem um conjunto de exigências quanto ao pagamento e quando também às verificações das condições para pagamento. Essas regras têm sido cumpridas o ano passado a Assembleia República criou uma nova exigência relativamente à verificação de uma nova auditoria, para além das auditorias que são feitas pelo auditor oficial - que neste caso foi a Ernest & Young - da verificação pela comissão de acompanhamento que está em funcionamento. Para além da verificação do agente verificador que é a Oliver Wyman. Para além disso tudo criou ainda na sequência dos pagamentos uma nova exigência de uma nova auditoria. Essa auditoria que devia ter estado pronta em maio e que só estará pronta em julho é relativa às contas de 2018. Estas auditorias foram feitas e a tranche do empréstimo que foi feito é relativa às contas de 2019.

Isso nós sabemos. O que ainda não conseguimos perceber no âmbito desta polémica, é para que é que serve esta auditoria da Deloitte? Em que é que ela pode condicionar decisões futuras do Estado?

Basta ir ver o quadro do debate parlamentar, o quadro da proposta em que essa auditoria foi feita e está lá bem claro para que é que ela serve. Agora não vamos estar a antecipar nem os resultados de uma auditoria que só vamos conhecer em julho...

Nem foi isso que lhe perguntei...

...nem o que decorrerá da ação do Estado em função de uma auditoria. A única coisa nova neste processo todo foi ter havido uma falha dentro do governo de comunicação que já assumimos, já pedi desculpa a quem tinha que pedir desculpa, a quem tinha dado uma resposta errada, e acho que um primeiro-ministro quando fala perante o Parlamento não pode haver dúvidas de que aquilo que diz é aquilo que é a sua verdade. Pode depois e se houver uma falha tem obviamente de o reconhecer e a primeira coisa que fiz foi pegar no telemóvel e informar a deputada Catarina Martins. Dessa parte ficou esclarecido. Depois havia uma parte a esclarecer que tinha a ver como é que tinha havido a falha no interior do governo. Esse é um assunto que foi esclarecido diretamente entre mim e senhor ministro de Estado e das Finanças...

E que não quer tornar público?

E está neste momento ultrapassado. Só tem que ser tornado público a única coisa que é relevante que é saber se o primeiro-ministro mantém ou não mantém a confiança no seu ministro de Estado e das Finanças. Mantém, foi tornado público isso.

Tendo mantido posso deduzir que não se sentiu desautorizado pelo seu ministro das Finanças?

Senti que tinha havido uma falha de comunicação - como o senhor ministro já tinha aliás assumido perante a Assembleia da República - e foi explicado as condições e as razões pela qual essa falha existiu. Se não tivesse aceitado as explicações obviamente não teria mantido a confiança. Se mantive a confiança foi porque aceitei as explicações da parte do senhor Ministro e acho que estamos esclarecidos.

Ainda me falta esclarecer uma coisa: o senhor, a propósito de umas declarações que o seu ministro das Infraestruturas fez no Parlamento, sobre a TAP, veio dizer numa entrevista que não se discute com acionistas privados em público - naquilo que foi entendido por muitos como uma espécie de puxão de orelhas ao seu ministro. Ora o ministro das Finanças a semana passada fez várias críticas à forma como a resolução do BES foi executada pelo anterior Governo. O que lhe pergunto é isto: havendo tanta litigância neste momento contra o Estado português a propósito dessa resolução, essas declarações de Mário Centeno são sensatas?

Eu não sou comentador político. Já já me dediquei a essa atividade quando estava na Quadratura do Círculo e, portanto, deixo aos comentadores os comentários. Eu acho que há um mau hábito de se procurar encontrar sempre terceiras e quartas leituras naquilo que se diz que é objetivamente dito e ponto e ponto final. É evidente que quando um ministro está no Parlamento e que lhe são feitas determinadas perguntas, tem de responder. Depois quando aparece a notícia, até parece que é o ministro que anunciou uma coisa sem que lhe tivesse sido perguntado o que quer que quer que seja. Eu acho que neste momento, para ser totalmente sincero, o que preocupa em primeiro lugar os portugueses é saber da sua saúde. Em segundo lugar é saber como é que saímos desta crise económica e social que já está a atingir muitos empregos, já está a atingir o rendimento de muitas pessoas que estão a manter o rendimento mas com um forte corte porque estão em situação de lay-off e numa situação de incerteza. A esta hora, seguramente, muitos pais estão angustiados em saber como é que os filhos vão sair pela primeira vez de casa para voltarem à escola. Se deixam ou não deixam os seus filhos mais pequeninos nas creches. Isto é o que está a preocupar.

Mas acredita também que os portugueses se preocupam com 850 milhões de euros que não são propriamente 850 euros...

Recomendo vivamente a revista do Expresso desta semana que traz um inquérito muito interessante sobre o que é que os portugueses se interessam, se veem ou não veem notícias, que tipo de notícias se interessam, que meios é que seguem, mas não sei se reparou no mais interessante de tudo: revela-se bem que os portugueses estão muito interessados em seguir informação - aliás houve um aumento imenso do consumo de informação nestes últimos dois meses -, mas não sei se reparou qual é o tema que menos interessa a toda a gente? É a parte que se refere ao noticiário político. O que não quer dizer que é falta de interesse dos portugueses sobre a política. Não. É precisamente sobre essa dimensão que tanto entusiasmo habitualmente provoca a esta bolha política mediática onde nós vivemos mas que infelizmente ou felizmente para a saúde dos portugueses diz muito pouco aos portugueses.

Centeno de saída? "Ninguém está eternamente no Governo"

Não vai confirmar se Mário Centeno lhe colocou a demissão em cima da mesa?

Não. As conversas entre o primeiro-ministro e os seus colegas de Governo naturalmente têm que ser as conversas entre o primeiro-ministro e os seus colegas de Governo.

Mas admite, pelo menos, que as declarações do Presidente da República na Autoeuropa, ao seu lado, foram determinantes para aquela reunião que teve com Mário Centeno?

Como sabe - está aliás explicado no comunicado - era uma reunião que estava marcada para tratar de dois assuntos: um a reunião do Eurogrupo que tinha lugar dois dias depois, na sexta-feira e outro para definirmos o calendário de preparação do Orçamento Suplementar que temos de apresentar na Assembleia da República no próximo mês e que exige a definição do calendário quer interno para o governo, quer de articulação com os diferentes partidos parlamentares quer com as diferentes instituições que devem ser envolvidas na elaboração do próximo Orçamento. Visto que o próximo Orçamento é muito importante para dar e definir a dimensão financeira do nosso programa de emergência económico-social para continuar a responder a esta crise de forma estruturada. Aquilo que se fez nestes dois meses foi responder numa situação de emergência. Agora temos de estruturar esta resposta porque agilizámos o lay-off, agilizámos o rendimento social de inserção, agilizámos as medidas de moratórias, quer de pagamentos ao Estado quer de pagamentos a outras instituições...

Mas não acaba às suas reuniões todas com os seus ministros a reforçar-lhes a confiança política?

Não. Depois obviamente havia uma especulação tal nesse dia sobre a confiança, se o primeiro-ministro ia demitir ou não ia demitir, se o ministro se ia demitir ou não se ia demitir, e era obviamente necessário, primeiro esclarecer esclarecer em que condições é que tinham sido feitos os pagamentos. Esclarecer que estava esclarecida a falha de comunicação que tinha existido e que não havia quebra de confiança entre o primeiro-ministro e o ministro de Estado e das Finanças.

Gostava de contar com Mário Centeno até ao final da legislatura?

Obviamente gosto de ter no governo as pessoas que estão no governo senão não as mantenha mantinha lá. Recordo que o professor Mário Centeno estava no sossego da sua vida académica e técnico profissional no Banco de Portugal quando eu fui desafiar - finais de 2014 princípio de 2015 não tenho veja já bem presente - para prepararmos na altura o cenário macroeconómico que permitisse e definisse as condições da estratégia económica e financeira da alternativa do Partido Socialista ao então governo do PSD e do CDS. Tem sido um longo trabalho profícuo para para o país. Ainda ontem o senhor Presidente da República dizia que os portugueses têm boas razões para estar gratos a Mário Centeno pelo trabalho que tem sido feito. Se olharmos para o que era a realidade económica e financeira do país em fevereiro percebe-se muito bem o trabalho que foi feito ao longo destes cinco anos. E não estaríamos hoje nas condições em que estamos, com capacidade de responder como temos tido capacidade de responder a este contexto de crise se esse trabalho prévio não tivesse sido feito. Agora como é evidente os governos têm dinâmicas, as pessoas têm tem também a sua vida e portanto não vale a pena de repetirem essa pergunta porque essa pergunta já respondi "n" vezes.

Foi desafiar Mário Centeno ao Banco de Portugal, agora pode ter que o devolver à precedência, mas como Governador?

Tudo terá o seu tempo. Há uma coisa que é certa: quem é funcionário do Banco Portugal mantém o seu lugar de origem. Portanto o lugar de origem é no Banco de Portugal quando e se sair do governo. Se não, todos todos saímos do governo visto que ninguém está eternamente no Governo.

O mandato do atual governador termina no início de julho. O mandato de Mário Centeno à frente do Eurogrupo termina no dia 13 de julho. Tem um calendário na cabeça para começar a tratar desse assunto?

No momento próprio trataremos...

O que é o momento próprio? É um mês antes? Três semanas antes?

Terei que falar com o senhor Governador. Não vou aqui também... olhe, tal como não discuto com os acionistas na comunicação social, também não falo com o Governador através da comunicação social. Estamos bastante longe desse momento. É uma data que é conhecida e obviamente que não se deve deslegitimar o governador do Banco de Portugal enquanto ele estiver em funções. Tem funções até julho e atempadamente irei conversar com ele sobre o momento de saída e o momento de designação de um sucessor.

Vai manter a prática de discutir o nome do próximo governador com o maior partido da oposição?
Infelizmente não é manter a prática. Eu já disse várias vezes que não farei o que o anterior primeiro-ministro fez quando eu era líder da oposição que foi telefonar-me às sete da manhã para me informar que nesse dia o Conselho de Ministros iria renovar o mandato do atual governador. Transmiti qual era a posição do Partido Socialista e a resposta que obtive foi que isso era uma decisão do Governo e que o governo não tinha que ouvir a oposição e que estava simplesmente a informar-me para não saber pela comunicação social. Eu agradeci, registei, mas como tenho dito não é assim que farei. Portanto antes de designarmos o novo governador consultarei naturalmente os partidos na Assembleia da República, ouvirei também o senhor Presidente da República. Ouvirei também as instituições que devem ser ouvidas pelo Governo antes de tomar uma decisão sobre a designação do próximo governador.

Mas há uma coisa que já se sabe pela comunicação social: é que o PSD está contra - e outros partidos - uma eventual nomeação de Mário Centeno para o Banco de Portugal.

Bom, se o critério é saber pela comunicação social já sobre duas coisas: já li na comunicação social o PSD dizer uma coisa e já li pela comunicação social que o PSD dizia outra coisa. Portanto, eu por mim, já me habituei a não ouvir os outros através da comunicação social. Desculpará, mas tendo essa possibilidade de ouvi-los diretamente. Portanto, no momento próprio, ouvirei.

E há a possibilidade de prolongar um mês ou dois o mandato do atual governador, se for necessário?

Se não for necessário, sim. Mas é sempre assim.

O senhor escolheu Mário Centeno pela vertente académica. Ele é um dos poucos elementos de topo do governo que não entrou nem laços de confiança ou de lealdade política porque - o senhor já disse que não o conhecia até 2014. Qual é o critério para escolher um próximo ministro das Finanças? É a componente mais técnica? Ou uma componente mais política?

Depende da circunstância. E depende se é necessário escolher um novo ministro das Finanças. Mas isso depende sempre da escolha de qualquer ministro. Essa circunstância não existiu portanto é um assunto que está encerrado e arrumado. Não há nenhuma circunstância que tenha a ver com crise nenhuma. Mas sabe que ao contrário do que vejo muitas vezes na comunicação social a generalidade dos membros do Governo nem são meus amigos pessoais e muitos deles eu também não os conhecia pessoalmente. São pessoas que eu conheço do ponto de vista institucional, do ponto de vista técnico, do ponto de vista político e com quem fui trabalhando. O professor Mário Centeno é, talvez, dos atuais membros do Governo aquele com quem tenho tido um trabalho mais prolongado e contínuo porque começámos em finais de 2014, ou princípios de 2015, a preparar na altura a alternativa e a elaboração do programa do Governo. Depois constituição do governo em todos estes cinco anos de trabalho. O professor Mário Centeno, aliás, tem um recorde que é ter sido o único ministro das Finanças desde o 25 de Abril, que fez uma legislatura completa como o ministro das Finanças. Nenhum outro.

Portanto, Mário Centeno já cumpriu bem o seu papel?

Todos os dias cumpre o seu papel e há de continuar a cumprir o seu papel bem, enquanto estiver no Governo, como aliás os outros membros do Governo. Quando deixarem de cumpriu bem o seu papel, deixam de ser membros do Governo, faz parte das regras do jogo.

Depois há também a vontade própria...

A vontade própria, as necessidades do país, há "n" critérios. O Governo não tem sido o mesmo desde o início, como é sabido, eu sou bastante conservador em matéria de mudanças de governo e em remodelações os meus governos devem ter sido daqueles que menos remodelações tiveram, mas tiveram.

Quando tiver de substituir Mário Centeno, tem dentro do governo soluções o cargo?

Quando esse problema se puser eu pensarei nesse assunto. Mas como deve imaginar já tenho problemas suficientes para não ter que estar a imaginar problemas para resolver. Basta-me aqueles que tenho efetivamente para resolver. Quando essa questão se puser pensarei nesse problema.

Sabe que há quem ache que o senhor já tem esse problema para resolver?

Eu sei. Eu leio a comunicação social portuguesa - o professor Cavaco Silva é que dizia que não lia jornais. Eu leio jornais e sei o que os jornais dizem. Agora, infelizmente nem tudo aquilo que leio corresponde à realidade. Há outras coisas que correspondem muitas vezes.

Segunda vaga? "Quem toma decisões não pode ter receio de ter de puxar o travão de mão"

Já deixou claro várias vezes que se tivesse que dar um passo atrás não hesitaria em dar. Mas eu gostava de saber se o governo já está - internamente pelo menos - a preparar uma eventual segunda vaga?

Nós não terminámos a primeira vaga. Ela está aí. Há uma coisa que nós devemos estar todos conscientes, que é fundamental, é que até haver uma vacina, ou até haver um tratamento - e haver não é ter sido inventada, é disponibilizado no mercado - quando qualquer um de nós já estiver vacinado, aí poderemos retomar a nossa vida como a conhecíamos até fevereiro. Até esse momento nós temos de recuperar a nossa liberdade mantendo a segurança necessária. Ora as normas de segurança hoje complementam as que já existiam. Como antes não se via atravessar a estrada sem olhar para um lado e por outro, não se devia atravessar uma passadeira com o semáforo sem que o semáforo estivesse verde, agora temos novas regras. Não devemos estar a menos de um metro e meio, dois metros de proximidade uns dos outros. Quando entramos num local fechado com muita gente, num centro comercial ou numa loja temos que passar utilizar máscaras, temos que levar muito mais vezes as mãos...

Há muita coisa a aprender com esta primeira vaga...

E vamos continuar a aprender.

Logo de início foi recomendado que não se usasse máscaras, agora já se recomenda que se usem máscaras. A distância começou por ser de um metro, agora já vai quase em dois. Daí a pergunta: com tudo o governo estamos a aprender, se não era de começar a prever, quer do ponto de vista de saúde pública, quer do ponto de vista económico, a possibilidade de uma segunda vaga?

Quando diz na segunda vaga, diz um novo recrudescimento. Eu tenho aliás explicado que nós temos de assumir que cada passo que damos no desconfinamento aumenta necessariamente o risco de contaminação e, portanto, nós só o podemos fazer de uma forma gradual indo medindo e indo verificando um conjunto de condições. Lembra-se que as primeiras condições que coloquei foi que já houvesse no mercado em abundância quer as marcas comunitárias, quer o gel e o álcool. Que eram bens raríssimos no início desta desta pandemia. Houve assaltos para roubar máscaras. Hoje felizmente é um bem que já está massificado na sua distribuição, o gel e o álcool também. Essa condição está verificada. Em segundo lugar que para cada conjunto de atividades estivessem definidas normas de segurança e elas pudessem ser implementadas. Ainda hoje estive de manhã a tomar um café no Califa e já existe um acrílico a separar cada lado das mesas, já existe um dispensador automático de gel à entrada. Os estabelecimentos têm-se preparado. As escolas vão abrir hoje depois de uma gigantesca operação logística, que graças às nossas Forças Armadas conseguimos desenvolver, para distribuir em todas as escolas máscara suficientes para os alunos professores, assistentes técnicos e assistentes operacionais.

O país tem vindo a preparar...

O país tem-se vindo a preparar e estamos a robustecer o Serviço Nacional de Saúde de forma a que, em qualquer circunstância, se houver um aumento do nível de contaminação e de necessidade de internamentos continue a não faltar nada e o Serviço Nacional de Saúde continue ter capacidade de resposta.

E o Orçamento Suplementar pode ser fundamental para isso?

O orçamento suplementar vai cobrir necessariamente isso, mas temos vindo a responder desde já. Como se recorda no Orçamento de Estado para este ano nós fizemos o maior aumento de sempre da dotação inicial do Ministério da Saúde. Foram mais de 900 milhões de euros que o Ministério da Saúde teve no seu orçamento este ano. Obviamente tinha outro destino que não este que não se podia prever. É necessário reforçar seguramente o orçamento do Ministério da Saúde porque tendo-se gasto aquilo que não estava previsto gastar com o Covid, as outras necessidades para os quais era necessário esse reforço não deixem de estar satisfeitas.

Em quanto vai ser preciso fazer esse reforço?

Neste momento ainda é prematuro estarmos com essas afirmações. Mas, por exemplo, posso-lhe dizer que desde sábado passado na nossa a embaixada em Pequim tem finalmente os famosos 500 ventiladores que tínhamos adquirido, que felizmente até agora não foram necessários, mas porque é que é importante eles terem sido adquiridos? Esse reforço do Serviço Nacional de Saúde é muito importante. Portugal era dos países que tinha o menor número de camas de cuidados intensivos por habitante e, portanto, é uma necessidade permanente para além do convite porque infelizmente elas são necessárias para "n" outras situações da nossa vida e da nossa saúde. E nós temos que assumir de uma forma previdente que desejamos o melhor mas temos que prever o pior. E ninguém sabe bem o comportamento de um vírus que é novo, mas podemos admitir como razoável que o outono e o inverno - que é um período onde tradicionalmente todos nós adoecemos mais do que no período do verão - possa voltar a haver uma maior pressão para o Serviço Nacional de Saúde. Nessa altura é essencial dispormos de maior capacidade do que aquela que temos neste momento.

E é essencial também que se consiga evitar ter que puxar novamente o travão de mão do país e parar tudo. Mas isso é também uma possibilidade, ou não?

Eu acho que temos que todos ter a consciência do perigo que existe, não para ficarmos paralisados, mas para podermos agir com a responsabilidade. Em segundo lugar, quem toma decisões não pode ter vergonha ou ter receio de ter de puxar o travão ou mesmo dar um passo atrás, e como a saúde e a segurança portugueses têm que estar acima de tudo, eu farei isso com a mesma com a mesma tranquilidade com que digo hoje os portugueses: podem sair à rua com a segurança e com as cautelas necessárias. E quando me diz: bom, mas isto pode acontecer no inverno e pode ser pior. Claro que pode. E essa é uma das razões pelas quais eu tenho insistido que este mês de maio e junho são muito importantes para treinarmos novas rotinas, novas formas de trabalho. Uma das razões fundamentais porque insistimos para que houvesse este período de regresso à escola é não só para a preparação para a época de exames, não só para retomar a aprendizagem presencial, mas também para que as escolas, os alunos e as famílias treinem rotinas daquilo que pode vir a acontecer durante o próximo ano letivo. O mesmo com as empresas. Quando nós dissemos que até ao final de maio deve manter-se a obrigatoriedade do teletrabalho, é importante que as empresas continuem a consolidar esta aprendizagem fizeram de uma forma extraordinária em tão pouco tempo de como é que se reorganizam para trabalharem e desenvolver sua atividade com uma grande dimensão de teletrabalho. Em junho dissemos vamos agora fazer um regresso parcial ao trabalho presencial. Para quê? Para que possam treinar-se outras rotinas, por turnos, por dias ou por rotações semanais.

Festa do Avante: "Cada partido tem de cumprir as regras que existem"

Que lições é que nós devemos tirar com o que se passou no 1º de maio, quando olhamos para a Festa do Avante?

A lição fundamental que eu acho que devemos tirar todos é a seguinte: acho que uma das qualidades do país foi ter mantido neste período de estado de emergência, não só um grande sentido de responsabilidade política de todos os agentes, das oposições, dos diferentes órgãos de soberania, dos portugueses, mas temos sido capazes de viver em estado de emergência sem suspender a Democracia. Como sabe noutros países foram impostas restrições à liberdade de imprensa, à liberdade de reunião. Cá fomos conseguindo viver estes períodos com grandes irresponsabilidade e sem suspender a democracia e a democracia não pode estar suspensa. A democracia tem de se adaptar a estas novas regras. E, portanto, há direitos fundamentais que têm de ser respeitados. Em circunstância alguma o governo pode pôr em causa os direitos das oposições, os direitos coletivos dos trabalhadores a não ser na margem do estritamente necessário.

Os direitos dos partidos ficam em causa se não existir Festa do Avante?

A Festa do Avante, que eu saiba, é uma iniciativa de um partido, não dos outros. Cada partido tem que ter a liberdade da sua organização e tem de cumprir as regras que existem e as normas de saúde que existem.

Foram cumpridas as regras no 1.º de Maio?

As regras foram definidas em articulação entre a Direção-Geral da Saúde, as forças de segurança e as centrais sindicais. Eu não tenho notícia por parte da Direção-Geral da Saúde e das forças de segurança que não tenham sido cumpridas as regras.

Mas viu imagens, com certeza, na televisão de autocarros que vieram do Seixal quando nem sequer se podia sair do concelho naquele fim de semana...

Está enganado porque o decreto do estado de emergência previa precisamente as exceções de circulação entre concelhos, designadamente naquele quadro. Os autocarros continuam a circular desde que tenham a lotação devidamente respeitada.

Acredita que a Festa do Avante vai decorrer dentro das normas?

A Festa do Avante, como deve imaginar, tem de perguntar ao PCP. Segunda coisa: relativamente à proibição de festivais e de eventos até 30 de setembro, há uma proposta de lei do Governo apresentada à Assembleia da República e que a Assembleia da República está ainda a debater. E, portanto, acho que vamos aguardar pelo debate na Assembleia da República irá fazer e o que a Assembleia da República irá determinar sobre essa matéria visto que restrições sobre direitos liberdades e garantias só podem ser impostas por reserva constitucional pela Assembleia da República.

Há pouco sublinhava que em Portugal não foi necessário restringir uma série de direitos que foram restritos noutros países. A verdade é que o PCP parece discordar porque marcou um comício para dia 7 de junho contra precisamente a retirada de direitos. Quer começar por responder ao comício, ao motivo do comício?

Nem uma coisa nem outra. Há uma coisa que posso garantir: não irei ao comício do PCP.

Mas é injusta esta posição do PCP?

Que estão a ser retirados direitos é uma evidência. Quando nós dissemos aos estabelecimentos comerciais que grande parte deles tem de continuar a estar fechados, quando dizemos aos ginásios que têm de continuar a estar fechados, quando dizemos aos restaurantes que só podem abrir com uma capacidade limitada, é evidente que estamos a retirar direitos. Quando durante o estado de emergência foram suspensos alguns direitos dos trabalhadores, como por exemplo o direito à greve, retiraram-se direitos. Neste momento já não está em vigor essa diminuição. Claro que em todos os momentos de crise, designadamente nas relações laborais, há uma tensão maior. Acho que os parceiros sociais têm sido extraordinariamente responsáveis na forma como têm sabido gerir estas dificuldades nas relações de trabalho. Como é que empresas que foram obrigadas a estar fechadas, em vez de terem recorrido massivamente ao desemprego, aproveitaram a oportunidade do lay-off. Muitas conseguiram até complementar a perda de vencimento dos seus trabalhadores. Outras não puderam fazer. Da mesma forma que os trabalhadores têm aceitado - com compreensão e certamente com sofrimento - um corte no seu vencimento em troca da manutenção do seu posto de posto de trabalho. E acho que isto é também um sinal de confiança de todos no futuro e na capacidade de recuperação do país. Porque se uma empresa não tivesse esperança confiança no seu futuro, simplesmente fechava as portas e não estava a martirizar-se durante durante mais tempo. Acho que aquilo que temos que fazer é mobilizar essas energias para voltar a recuperar a economia do país, sabendo que felizmente já não partimos do ponto de partida em que estávamos há cinco anos, mas sabendo que vamos ter de novo de fazer um esforço de recuperação. Porque o desemprego deixou de cair e, pelo contrário, o desemprego está a aumentar, os rendimentos deixaram de ser recuperados e estão a perder-se e as empresas, em vez de aumentarem as suas exportações, têm os mercados todos fechados porque esta é uma paralisação da economia à escala à escala global. Temos que nos focar é nisso.

"Se necessário", verão não terá discotecas e bares

Os cafés os restaurantes já reabriram. As discotecas e os bares: há alguma previsão de quando podem reabrir? Ou isso ainda não foi discutido.

Ainda não está no nosso no nosso calendário. Nós temos que ir fazendo de uma forma gradual e começando com os setores e atividades onde é mais fácil regular e estabelecer normas de afastamento. Ora atividades que, pela sua própria natureza, vivam, não do afastamento, mas da proximidade e da interação, é evidente que estarão no último lugar daquelas que poderão reabrir.

Podemos passar um verão sem discotecas e bares?

Se for necessário. Se não for, melhor. Se for terá que ser. Nós não podemos pôr agora em causa aquilo que conseguimos com enorme dificuldade. Há pessoas que estão há dois meses sem saírem de casa. Só hoje é que as famílias vão poder voltar a visitar os seus familiares que estão em lares. Só hoje é que os pais - muitos deles desesperados porque precisavam de colocar as suas crianças nas creches - vão poder vão poder ter essa oportunidade. E fazem-no, ainda por cima, com o coração dividido e aflitos sem saber se isso é um risco para crianças. Portanto nós estamos a viver ainda momentos que são muito difíceis e em que não podemos pôr em causa aquilo que conseguimos conquistar. Logo no princípio disse uma frase que tem sido o critério que nos tem regido na definição do que é que podemos e não podemos fazer: o máximo de contenção com o mínimo de perturbação. Portanto tudo o que puder funcionar normalmente tudo que encaixar aqui, ótimo.

E os ginásios?

Estamos em diálogo com a Associação para ver como é que se asseguram critérios de higienização que permitam a retoma dessa atividade. Isto é outro setor que se conseguiu reinventar nas plataformas digitais, com os PT´s a fazerem treinos à distância, muitos agora a fazerem já no espaço público, desde que é possível. Agora o ginásio em si, temos de encontrar normas que possam ser efetivamente garantidas, quer de não acumulação de pessoas no mesmo espaço, quer de higienização dos equipamentos que são utilizados por todos, como sabe no golf ou no ténis os balneários continuam encerrados porque são obviamente locais onde é mais fácil o risco de contaminação. Portanto temos que ir tomando medidas. A Direção-Geral da Saúde já sinalizou quanto às piscinas e às praias que não há qualquer evidência de que a água do mar ou a água da piscina, desde que devidamente tratada, constitua um risco acrescido para a transmissão do vírus. Portanto nós vamos poder ir avançando. Há bocado disse e bem: houve aqui muitas vezes indicações contraditórias ao longo destes meses, o que é verdade, em Portugal e é verdade a nível mundial na Organização Mundial de Saúde. Nós não podemos pedir aos cientistas aquilo que cientistas não nos podem dar. Os cientistas não podem saber já tudo o que há para saber sobre um vírus que eles próprios só conhecem desde há três ou quatro meses. Seguramente daqui a cinco anos, quando retrospetivamente se fizer o estudo, os cientistas vão saber muito mais coisas que não sabem hoje. E como os decisores políticos têm que procurar ir decidindo com base no melhor conhecimento científico que está disponível em cada um dos momentos, e como esse conhecimento é evolutivo, porque neste caso o que nós estamos a assistir é um mundo transformado num gigantesco laboratório onde os cientistas estão em tempo real a estudar um vírus, a nossa reação e o nosso comportamento. Nós não damos conta, mas verdadeiramente somos ratinhos de laboratório nesta experimentação e nesta investigação global que está a ser feita sobre o vírus. É natural que conforme se vai avançando no conhecimento, as decisões vão evoluindo também em função desse conhecimento.

"Não precisamos" de medidas de austeridade

Como é que se pode prometer que não serão feitos cortes nos salários ou nas pensões, que não serão aumentados os impostos, se ainda não se conhece a resposta europeia? E, sobretudo, quando não se sabe a real dimensão desta crise?

Cada doença tem a sua cura específica. Neste momento a doença que nós temos do ponto de vista do ponto de vista económico não tem a ver nem com um problema estrutural da nossa economia nem com uma rutura das finanças do Estado ou com uma crise do sistema financeiro. Tem a ver, simplesmente, com uma paralisação da economia à escala global. De repente a economia, à escala mundial, parou. E tendo parado, toda a cadeia económica parou. Portanto nós não temos neste momento que acrescentar medidas de restrição económica, seja por cortes no rendimento, por via de cortes de salários ou de pensões, ou por via de aumentos de impostos, para responder a esta crise. Pelo contrário.

Disse neste momento...

Não não neste momento. É não precisamos. Esta crise não precisa disso, precisa, pelo contrário, de incentivos à procura de forma a poder retomar a produção. Precisamos mesmo do contrário das medidas de austeridade. Neste momento e a seguir.

O seu ministro da Economia disse-o de forma muito clara: isto tem uma fatura. Quem é que a vai pagar?

Em primeiro lugar nós, felizmente, hoje temos uma situação financeira que tem outra qualidade que não tinha anteriormente.

O superavit já foi...

O superavit já foi, mas dá-nos um músculo que não tínhamos e agora já temos. Em segundo lugar a União Europeia começou logo por flexibilizar as regras do Pacto de Estabilidade com a consciência de que obviamente este ano não vai ser nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira preocupação saber qual é o défice deste ano. É evidente que isto não significa que nós possamos passar um cheque em branco para uma despesa que é ilimitada e, pelo contrário, por isso temos imposto restrições de forma responsável à despesa que podemos fazer. A austeridade existe quando há uma decisão política de cortar rendimentos por via do corte de salários, pensões, ou outros subsídios, ou por via do aumento dos impostos. Ora não há nenhuma decisão política nesse sentido. A perda de rendimentos que está neste momento a existir para muitas pessoas resulta não de uma decisão política, mas é digamos um resultado da situação de crise e essas crise tem que ser ultrapassada.

Todos temos memória do que aconteceu em 2009 2010 e depois o que aconteceu em 2011. A política europeia em 2009 2010 era expansionista e em 2011 chamámos a troika.

Certo. Em primeiro lugar: a União Europeia já deu alguns sinais de compreensão de que não pode repetir os erros. Desta vez não esperámos dois anos para que o senhor Draghi viesse dizer o que veio dizer em 2012 e a senhora Lagarde, depois de uma primeira frase infeliz, imediatamente agiu e isso permitiu imunizar até agora qualquer risco de crise das dívidas soberanas. As taxas de juro subiram mas de uma forma absolutamente controlável. Portugal já fez três emissões de dívida desde o início desta crise sempre com tranquilidade sem restrições de financiamento e está mesmo criada já uma linha de segurança para qualquer crise financeira de qualquer Estado. Nós felizmente não precisamos de a utilizar mas ela existe e é importante porque isso também atenua a pressão dos mercados porque os mercados sabem que não podem esticar a corda porque os Estados têm ali um um seguro que podem utilizar em caso de necessidade. Já foram agora a provados no último Eurogrupo as condições para que até junho entrem em vigor o novo programa que vai permitir aos Estados financiar medidas como o lay-off. Vai estar em vigor, espero, até junho também as linhas relativamente ao Banco Europeu de Investimentos e estamos a trabalhar ativamente para a criação do fundo de recuperação económica. Se quisermos o chamado Plano Marshall que a Europa precisa.

E acha que pode chegar ao tal bilião?

As discussões estão em curso. Ainda no sábado passado tive um longo telefonema com a presidente da Comissão Europeia sobre esse tema. A Comissão tem agora o calendário de apresentar no dia 27 a sua proposta do Fundo de Recuperação. Tem havido um intenso nível de contactos entre todos os chefes de governo para procurarmos encontrar aqui uma solução que seja equilibrada e que permita responder o melhor possível a esta situação.

Equilibrado é o quê? É ficarmos entre os 500 mil e o bilião? Ou é serem mais subsídios e menos empréstimos?

Essa segunda questão, para mim é a essencial. Nós temos que assegurar que seja um mecanismo que seja utilizável por todos os Estados-Membros independentemente da sua situação económica e financeira anterior a esta crise. Este é um programa específico de recuperação em função desta crise que é uma crise comum a todos. É um programa que tem um horizonte temporal limitado dois anos, três anos no máximo. E portanto nós temos que ter todos as mesmas condições de poder agir. Nós não podemos viver num mercado interno onde em função da capacidade orçamental de cada um dos estados as regras são absolutamente distintas. A Alemanha só no apoio a Adidas injetou tanto como o conjunto daquilo que têm sido os apoios mensais do Estado Português a todas as famílias e a todas as empresas. Nós temos que criar condições para que não se acentuem as assimetrias porque se se acentuarem as assimetrias estamos a pôr em causa a retoma do mercado interno e a própria manutenção da zona da zona euro. E, portanto, a Europa tem que responder nesse sentido e há uma vontade política muito generalizada nesse sentido. Como é sabido há uma pequena minoria de bloqueio que tem existido no Concelho é aquilo que temos estado a trabalhar é para superar esses fatores de bloqueio.

E quanto ao valor?

O valor tem de ser um valor que tenha a dimensão suficiente para aquilo que são as necessidades. As necessidades têm sido estimadas de uma forma ou forma divergente. Ninguém tem ainda um valor final. O facto de ser integrado no próximo quadro financeiro plurianual ajuda, obviamente, a acrescentar àquilo que é a capacidade de acrescentar a este reforço aquilo que é já a base financeira do próximo quadro financeiro plurianual. Isto é um acréscimo. Está já acordado - isso é pacífico entre todos - que haverá uma revisão a meio do período para poder haver ajustamentos. Temos de ter em conta a possibilidade da União Europeia reforçar os seus recursos próprios e temos tempo.

Mas não vai chegar ao bilião de euros, já não acredita nisso?

Não quero estar aqui a especular sobre isso. Sendo sincero nós temos que ter uma dimensão suficiente. As estimativas têm sido de que menos de um bilião é insuficiente para as necessidades. Esse bilião pode ser composto de diversas formas. Pode ser composto de dinheiro que seja exclusivamente de transferências, podem ser instrumentos financeiros que ajudem a alavancar a mobilização de outros recursos, designadamente de investimento privado. Há várias formas de o construir. E nesta fase eu acho que mais do que traçar as linhas vermelhas é irmos abrindo caminhos de convergência para evitarmos um bloqueio. Porque o bloqueio seria o pior para todos. E com a consciência do seguinte a dimensão tem que ser aferida não em função da necessidade de cada um dos estados, mas do conjunto da economia europeia. O problema não são só os 20 mil milhões de euros que é aquilo que tendo em conta as previsões da União Europeia seria uma perda de riqueza do Produto Interno Bruto nos próximos dois anos em Portugal. Nós temos de ter em conta que para a nossa retoma não nos basta a nossa procura interna. Hoje, felizmente, 44% da nossa economia são exportações. Ora para nós podemos exportar é preciso que os outros comprem. E isso é uma consciência que felizmente quase todos os Estados membros já assumiram. Há três ou quatro que enfim ainda não perceberam bem que só são ricos no mercado interno se todos os outros contribuírem para a riqueza desse mercado interno. Mas enfim, aqui não é uma questão de ser otimista, é uma questão de estar confiante no instinto de sobrevivência da União Europeia. Se a Europa conseguir responder bem a esta crise suscita um enorme dúvida à escala global sobre o sentido da Europa. Felizmente a Comissão tem reagido bem, o Parlamento Europeu ter reagido muitíssimo bem. O Banco Central Europeu tem reagido bem. O Conselho menos bem fruto das regras de bloqueio que uma minoria consegue impor.

"Temos que repensar obviamente tudo aquilo que tínhamos previsto"

O senhor prometeu começar a discutir esta semana o lançamento de um programa de emergência económico e social. Consegue dar-nos uma ideia do dinheiro que vai ser alocado a este programa?

Temos estado a trabalhar. Com o ministro das Finanças já definimos o calendário dos trabalhos. Entre aquilo que são as verbas ainda disponíveis no PT 2020, as verbas que estão previstas no Orçamento de Estado, aquilo que podemos neste momento já antever que possa ser garantido pelo programa Sure que é o programa de apoio ao emprego da União Europeia, daquilo que possa vir a ser o quadro do programa de recuperação que a Comissão vai apresentar no próximo dia 27, nós teremos melhores condições. Como tenho dito já percebemos que na União Europeia não ficaremos pelo nível da fisga, mas entre a pressão de ar e a bazuca não sabemos qual é a capacidade de fogo que vamos ter. E como é evidente isso depende muito para saber como é que podemos ir à luta.

O Ministro das Finanças dizia aqui na TSF na semana passada que muita coisa tinha que ser repensada no orçamento para 2021. Os aumentos na função pública e a revisão dos escalões de IRS provavelmente vão ter de ser repensados. Está preparado para ter que deixar cair algumas das promessas que tinha feito?

Eu acho que o país todo tem a noção que nós fizemos um programa do Governo num quadro em que não havia pandemia nem esta crise económica à escala à escala global. Todas as previsões económicas se alteraram radicalmente. Tivemos em janeiro e fevereiro um forte aceleramento do crescimento da nossa economia, uma redução muito forte do desemprego. Tudo isso se alterou em pouco mais de um mês, em dois meses. Isso alterou radicalmente. Temos que repensar obviamente tudo aquilo que tínhamos previsto, como é óbvio.

Mas aumentos para a Função Pública ou uma revisão dos escalões do IRS são tudo políticas de reforço dos rendimentos.

A proteção dos rendimentos é seguramente essencial para combater esta dinâmica recessiva, para evitar uma dinâmica que sirva na nossa economia. O reforço dos rendimentos seria ótimo mas tudo, obviamente, ainda depende não só da resposta da economia portuguesa nos próximos meses, como também depende daquilo que seja efetivamente o quadro de incentivos comunitários para a retoma da economia.

Elogio a Rui Rio "foi absolutamente merecido"

No caso do Orçamento Suplementar vai procurar que ele seja aprovado com os parceiros à esquerda ou é-lhe indiferente desde que ele passe? Pergunto porque Rui Rio já se mostrou disponível para para aprovar um orçamento suplementar.

O desejo que eu teria é que o Orçamento fosse aprovado por unanimidade. Não tenho essa ilusão, mas se fosse por unanimidade melhor. Quanto ao quanto ou mais eu acho que temos que trabalhar. Não há nenhuma razão para alterar aquilo que são as orientações políticas do país e uma das razões fundamentais pelas quais Portugal tem estado relativamente imunizado quanto à emergência dos populismos é porque os portugueses têm encontrado sempre no sistema político a capacidade de resposta às necessidades de alternativa que configurem cada momento. Quando em 2011 sentiram a necessidade de mudar, encontraram quem liderasse essa mudança, quando em 2015 sentiram a necessidade de mudar também foi possível ver essa capacidade de mudar, quando em 2012 19 manifestaram vontade de continuidade, também encontraram quem assegurasse a continuidade e é importante que se preserve essa vontade porque obviamente há de haver um dia que os portugueses vão querer de novo uma alternativa. Por isso temos dito que no nosso sistema partidário como o conhecemos temos dois partidos que podem liderar alternativas: à esquerda o PS, à direita o PSD. As soluções de Bloco Central empobreceriam a capacidade de gerar alternativas em nosso país. E como se demonstrou nesta crise não é o facto não haver Bloco Central e de haver polos alternativos na vida democrática, que é fundamental para os portugueses tenham sempre a liberdade e a possibilidade de poderem escolher caminhos diferentes a seguir, que impede que haja momentos de convergência e momentos de unidade nacional em torno daquilo que é fundamental. Acho que foi exemplar como é que nós conseguimos uma coisa tão extraordinária como a suspensão da Constituição durante um período tão prolongado como o do estado de emergência, garantindo uma convergência absoluta entre o Presidente da República, ao Governo, à Assembleia da República e na Assembleia da República com votações que foram do CDS ao Bloco de Esquerda. Isto é isto é muito muito relevante.

Rui Rio foi elogiado em Espanha aliás. Foi merecido esse elogio?

Eu acho que foi absolutamente merecido. Não tenho nenhuma razão para não acompanhar este elogio e foi muito importante para a imagem internacional do nosso nosso país. Porque neste quadro futuro onde a Europa vai - espero eu - não esquecer o que aprendeu nesta crise de que não pode continuar a não ter a capacidade de produzir bens que são absolutamente essenciais e que se pode dar ao luxo de ter cadeias de valor tão extensas, e portanto com tantos riscos de disrupção, ou tão centralizadas em alguns países do extremo oriente - fala-se muito da China, mas por exemplo a concentração e a dependência da indústria farmacêutica da índia é também muito grande - e portanto nós temos que recuperar na Europa a capacidade de produzir. E Portugal é um país que pode estar no centro desse esforço de recuperação da nova capacidade europeia de produzir bens que são essenciais. Nós demonstrámos não só ser um país seguro, na nossa capacidade de gerir e controlar a crise de pandemia, mas também um país seguro do ponto de vista do funcionamento das instituições.

Disse na semana passada que tem consciência de que quando esta pandemia passar lhe vão apresentar a fatura política. Esta estabilidade política que vivemos hoje e que o senhor elogia tem os dias contados?

Eu acho que as pessoas os portugueses têm bem a noção da mais valia que há na existência de uma estabilidade política e num funcionamento harmonioso entre todos os órgãos de soberania. Essa estabilidade política não é incompatível com os partidos terem cada um as suas posições, as suas orientações e as suas prioridades.

Sente o confinamento da oposição?

A oposição tem feito o que lhe compete, como o governo feito o que lhe compete. Cada um apresentar suas ideias. Tem havido um esforço conjunto e comum de convergirmos sobre as ideias e decisões que têm que ser e devem ser partilhadas por todos, mas cada um assumindo a sua responsabilidade. Não tenho a convicção de ter uma espécie de salvo-conduto que no final desta crise a oposição deixe de ser oposição e passe a ser apoiante do Governo. Isso não faz parte da regras democráticas. Não é assim na vida e quem está na política não está à espera de gratidão, está aqui para cumprir as suas funções e para tomar e assumir as responsabilidades e decisões a cada momento.

A verdade é que as sondagens parecem aprovar a forma como o senhor tem gerido esta crise. Isso serve-lhe, de alguma forma, de consolo?

Qualquer um prefere ser aprovado no que faz do que desaprovado naquilo que faz. Felizmente os portugueses têm reconhecido que a forma como temos enfrentado coletivamente esta crise tem sido benéfica para o país, tem permitido evitar o pior do ponto de vista de saúde, permitiu que o Serviço Nacional de Saúde de que todos tinham muita desconfiança, pelo contrário, tenha mostrado a sua capacidade e a sua robustez na resposta a esta crise. E agora temos de nos concentrar nesta segunda fase muito importante que é o relançamento da economia, a proteção do emprego, dos rendimentos, para podermos recuperar. Todos sabemos que esta recuperação não vai ser num prazo curto. As previsões que temos das finanças apontam para que antes de 2022 não retomemos onde estávamos em 2019. Tenho confiança que isso seja possível desde que façamos as opções certas e não cometamos erros.

As mesmas sondagens que lhe dão um nível de aprovação bastante elevado mostram também um crescimento muito significativo do Chega nas sondagens. Teme que este contexto em que vivemos seja propício ao crescimento dos fenómenos de extrema-direita e populistas?

Teoricamente sim, mas não creio que seja motivo sério de preocupação. Eu acho que há aqui uma certa hipervalorização do radicalismo pelo seu exotismo mas acho que não passa mesmo disso. Acho que os portugueses não gostam de radicalismos, pelo contrário, gostam de bom senso e percebem bem que uma coisa fundamental nos momentos de crise é ser capaz de manter sangue frio e ter bom senso. Porque o bom senso é condição essencial para que as pessoas percebam as decisões que se tomam, mesmo as mais difíceis de serem assumidas pelas pessoas. E é a forma extraordinária que as pessoas aceitaram ter de se fechar em casa, não visitar os seus familiares que estão nos lares, muitos empresários que se veem aflitos com o risco de destruição do trabalho de toda a sua vida, trabalhadores de repente ter um terço do seu vencimento cortado porque tiveram que passar a estar em casa a tomar conta dos filhos porque as escolas estavam fechadas. O esforço no país tem sido absolutamente extraordinário. Se as pessoas gostaram disto? Ninguém podia gostar. As pessoas perceberam que isto era necessário que as pessoas têm um enorme bom senso.

"Se as eleições fossem hoje ninguém tem dúvidas quem ganhava e com uma expressão muitíssimo grande"

Não sei se já respondeu alguma vez alguma sondagem, mas faço-lhe a pergunta em jeito de sondagem: se as eleições presidenciais fossem hoje votava em Marcelo Rebelo de Sousa?

(Risos) O voto é secreto. O primeiro-ministro acha que deve manter uma regra que é a regra de ter a consciência que terá que trabalhar com qualquer que seja o Presidente da República escolhido pelos portugueses. E, portanto, deve procurar nas eleições presidenciais ter um particular recato. Ainda que como líder partidário possa e deva tomar uma posição quando o partido puder definir, ou entender definir, e se entender definir. Enquanto o primeiro-ministro acho que tem de ter um particular recato para trabalhar com o Presidente que os portugueses elegerem quando forem as eleições.

Quem estava na Autoeuropa na semana passada? Era o primeiro-ministro ou o secretário-geral do PS?

Estava o primeiro-ministro. Ora aí está como uma expressão cria tanta agitação. Uma coisa aliás de elementar bom senso. Porque independentemente de qual fosse o meu sentido de voto há uma coisa que eu creio que é mais ou menos pacífico, e não é preciso ser vidente, nem ser comentador nem sequer necessário ler muitas sondagens para antever o que é o desejo profundo dos portugueses também em matéria de estabilidade quanto ao exercício da função da função presidencial. E, portanto, o antecipar que daqui a um ano se houver candidatura do professor Marcelo Rebelo de Sousa ele será o Presidente da República eleito pelos portugueses, desculpará não é preciso ter uma grande finura de análise política ou ser vidente para antever que esse é o resultado óbvio. Não conheço nenhuma sondagem que diga o contrário. Basta ouvir o que as pessoas me dizem na rua para saber bem o que é que as pessoas desejam relativamente ao futuro.

Mas isto significa que o PS pode não apoiar oficialmente nenhum candidato, como fez, por exemplo, há quatro anos?

O PS tomará no devido momento uma posição. Se assim o entender. O PS tem uma tradição que é: nunca lançou um candidato. Apoiou e pronunciou-se perante candidatos que existiam. Foi sempre esta a regra do Partido Socialista, habitualmente apoiando um candidato. Nas últimas eleições, porque havia dois candidatos da área política do Partido Socialista, não tendo tomado uma posição oficial no apoio nem ao professor Sampaio da Nóvoa, nem à dra. Maria de Belém. Nas eleições anteriores, tomou sempre posições, algumas vencedoras como no caso do dr. Mário Soares ou do dr. Jorge Sampaio. Outras vezes não.

Ouvimos Ana Gomes dizer que vai refletir, na sequência daquilo que o senhor primeiro-ministro disse na semana passada. Se aparecer um candidato da família do Partido Socialista, admite apoiá-lo?

O partido tomará posição no momento próprio.

Já agora quando é que esse momento, não havendo Congresso?

Não vai ser, seguramente, anterior a estar definido qual é o quadro de candidatos. Antes disso não tomará, seguramente, nenhuma posição porque, como disse, essa é a tradição do PS, nunca apresentou candidatos, apoiou candidatos.

Em função dos candidatos que avançarem, o PS tomará uma decisão? E todas podem ser possíveis?

Sim. Todas, quer dizer, haverá candidatos que seguramente nunca terão o apoio do PS. Há um candidato já anunciado, que é o André Ventura. Seguramente nunca terá o apoio do PS.

Mas Marcelo pode ter?

Ainda não anunciou a sua a sua candidatura.

Tendo em conta o atual contexto mas também aquilo que aconteceu há quatro anos, passa muitas vezes a ideia de que o Partido Socialista não valoriza muito as eleições presidenciais. As presidenciais são importantes para o Partido Socialista?

As eleições presidenciais são importantes para o país e, naturalmente, também para o Partido Socialista. Como é sabido as eleições presidenciais quando está em causa a reeleição dos presidentes em exercício suscitam sempre menor motivação política porque se tem verificado uma tradição - nunca quebrada até hoje - da reeleição do Presidente da República. Foi assim com o general Eanes, foi assim com o dr. Mário Soares, foi assim com o dr. Jorge Sampaio, foi assim com o professor Cavaco Silva. No caso concreto, independentemente de qual seja o sentido da posição do Partido Socialista ou o meu sentido de voto, eu acho que é claro pacífico que se as eleições fossem hoje ninguém tem dúvidas quem ganhava as eleições e, seguramente, com uma expressão muitíssimo grande.

Ana Gomes dizia aqui numa entrevista à TSF que Mário Soares daria voltas no túmulo se Marcelo tivesse mais de 70% dos votos...

É manifesto qual é o sentimento popular. As pessoas apreciaram a forma como o Presidente da República tem exercido as suas funções, estão satisfeitas, as pessoas não estão propriamente ansiosas por mudanças estão pouco ansiosas de tranquilidade institucional, de paz institucional, estão muito preocupadas é com a resposta à crise, querem reforçar o sentimento de unidade nacional. Têm sentido e têm interpretado esta coabitação entre um governo de esquerda e um presidente do centro-direita como uma forma de unidade nacional. Eu acho que quer o governo quer o Presidente da República têm ajudado a reforçar este sentimento de confiança dos cidadãos nas instituições sobre a forma como se tem articulado. Se me pergunta se estivemos sempre 100% de acordo, é evidente que não estamos sempre de acordo, mas soubemos sempre conviver com as nossas divergências e criar as convergências sempre que elas foram necessárias. Portanto eu acho que esse é o sentimento geral do país e portanto aquilo que eu disse não creio que tenha outra leitura ou tenha um particular um particular significado. É verdade que estivemos na Autoeuropa juntos no primeiro ano de mandato do Presidente da República, estivemos agora na Autoeuropa juntos no último ano de mandato do Presidente da República e portanto quando se perguntava qual é a terceira vez que virão cá? Eu acho que é óbvio que, para manter esta tradição, no primeiro ano do mandato. Não vale a pena especular muito sobre sobre essa matéria e é saudável que o país saiba conviver bem, desta forma harmoniosa, com a articulação entre os diferentes órgãos de soberania. E quem escolhe os presidentes são os portugueses, quem escolhe os governos são os portugueses e acho que temos de respeitar a escolha.

Não dispa o facto do secretário-geral do Partido Socialista. Estamos no mês em que era suposto existir um congresso do Partido Socialista foi adiado, salvo erro para o próximo ano?

Seguramente para o próximo ano e desejavelmente no primeiro trimestre do próximo ano para preparar a tempo as eleições autárquicas.

As presidenciais vai debatê-las nos outros órgãos do partido?

Sim, terão que ser debatidas nos outros órgãos do partido. Aliás esta semana vamos retomar a atividade dos órgãos do PS com uma reunião do Secretariado Nacional e da Comissão Política. Vamos ter a Comissão Nacional assim que possível. Temos que completar o círculo de eleição dos presidentes das federações, porventura sem os congressos federativos e depois ir retomando a atividade conforme as condições sanitárias o permitam.

"Não é seguramente este o momento para virar as costas ao país"

No último congresso disse alto e bom som que ainda não tinha chegado o momento de meter os papéis para a reforma. Poderia repetir isso neste Congresso deste ano se ele existisse?

Seguramente, vou fazer 59 anos não tenho sequer idade para me poder reformar. Estou de boa saúde, com uma vontade acrescida e um sentido de responsabilidade muito grande de que não é seguramente este o momento para virar as costas ao país, ao governo e, pelo contrário, é o momento para me concentrar ativamente nestas nestas funções porque é aqui que nestes momentos de crise que mais necessários somos.

Os que possam estar no partido à espera de lhe suceder vão ter de esperar mais um pouco?

Isso é uma opção dos próprios. A minha disponibilidade não inviabiliza a vontade de quem quer que seja, que sinta tem boas condições para o poder fazer e o que queira fazer. O PS é um partido que honra muito de ter na sua matriz fundadora uma enorme liberdade interna e nunca alguém restringiu a possibilidade de quem quer que seja se candidatar à liderança do PS. Só falo da minha disponibilidade. A minha disponibilidade não condiciona em nada a disponibilidade de outros.

Já deu a entender que poderia até estar disponível para um terceiro mandato como primeiro-ministro. Tendo em conta o quadro em que o país está e que muito daquilo que era o seu programa de governo para estes quatro anos pode ter ficado suspenso ou adiado, isso reforça-lhe a ideia de fazer um terceiro mandato?

Não tenho um calendário na minha cabeça. Não só não me vou reformar no exercício das funções de primeiro-ministro, como espero que a saúde me permita também não terminar a minha vida nestas funções e que haja mais vida para além das funções que estou a desempenhar. Mas não tenho neste momento nenhum calendário definido na minha cabeça. Acho que ao longo da minha vida consegui sempre perceber quando era o momento de sair e quando é que era o momento de chegar nas diferentes funções que exerci. Espero, desta vez, manter essa lucidez de não ficar tempo a mais do que aquilo que devo, nem sair mais cedo do que aquilo que devo. Para já, não tenho a menor dúvida de qual é o meu dever e onde é que tenho que concentrar 100% a minha atenção, 100% a minha energia, 100% a minha vontade, que é no exercício das minhas funções e que seguramente não deixarei de exercer enquanto for essa a vontade dos portugueses e eu me sentir em condições e sentir ser meu dever continuar a liderar o país neste processo não só de combate à pandemia como de recuperação económica e social. Já o fiz uma vez, tem que se fazer de novo, vamos a isso. A vida política é mesmo assim e temos que encarar isso com a mesma energia e não dizer "que injustiça que foi quando tudo ia tão bem". A vida é como é e temos que estar cá para para as ocasiões. Nós não escolhemos ocasiões, as ocasiões escolhem-nos e cá estamos.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de