O país da corrupção, amnésico e de jogo viciado segundo João Miguel Tavares.

O presidente das cerimónias do 10 de junho deste ano fez o retrato de um país onde não é fácil "saber porque estamos a lutar." Falou de um Portugal que já pediu três vezes ajuda externa e onde a amnésia e a justiça lenta tornam o jogo viciado.

Discursou a 100 metros do local onde viveu e cresceu até ir para a faculdade. O jornalista João Miguel Tavares, escolhido pelo Presidente da República para presidir às celebrações do 10 de junho deste ano, desenhou a caneta um Portugal "a quem devo boa parte daquilo que sou, que não falhou comigo" e que "permitiu que um simples estudante do interior fosse subindo na vida". Mas, a lápis, traçou um "outro" Portugal que coabita com o primeiro e onde "não é fácil saber por que estamos a lutar hoje em dia."

O jornalista lembrou a geração dos pais "que se sacrificou para que os filhos tivessem o que eles nunca tiveram", mas admite a possibilidade de lhes ter faltado "o que nos tem faltado nos últimos 20 anos: um objetivo claro." Para "boa parte de nós", prosseguiu, "a política é um cenário longínquo, distante da vida que nos importa." É a isto que chama "o desinteresse pela política", um sentimento que para João Miguel Tavares não é mais do que "uma consequência do nosso próprio fracasso."

O presidente das cerimónias lembra um Portugal que "construiu autoestradas onde não passam carros" e que "por três vezes" teve de pedir ajuda externa. "É demasiado", avisa, sobretudo quando as perguntas feitas de seguida não obtiveram resposta satisfatória.

Será que o elevador social funciona mesmo?

No seu discurso, de cerca de 15 minutos, o jornalista avisa ainda "que a corrupção é um problema real, grave, disseminado", que "a justiça é lenta a responder-lhe" e que "a classe política não se tem empenhado o suficiente em enfrentá-la." As consequências da corrupção, para João Miguel Tavares, não se resumem a um "assalto ao dinheiro que é de todos nós", vão muito para além disso: "É colocar cada jovem de Portalegre, de Viseu, de Bragança mais longe do seu sonho", alerta, lembrando que se "o sonho de amanhã" se desvanecer "cada família, cada pai, cada adolescente convence-se de que o jogo está viciado e que não é pelo talento e pelo trabalho que se ascende na vida, que o mérito não chega, que é preciso conhecer as pessoas certas, que é preciso ter os amigos certos, que é preciso nascer na família certa."

A conclusão surge em forma de pergunta retórica: "se os miúdos que não nasceram na família certa tem o direito aos mesmo sonhos que os que nasceram nas elites portuguesas" e "todos concordamos com isto, será que estamos a fazer alguma coisa para que aquilo com concordamos se torne realidade? Será que podemos garantir que o talento conta mais do que a família em que cada um nasceu?

João Miguel Tavares fala num Portugal onde se instalou uma convicção perigosa de que "um jovem que queira singrar na carreira exclusivamente através do seu mérito, a melhor solução que tem é emigrar". Uma "tragédia portuguesa", avisa, pelo risco que corremos em estar a "condenar os nossos filhos a um discurso fatalista de um Portugal que é assim porque nunca foi de outra maneira." O jornalista alerta ainda para o risco de, "com a falta de esperança e a desigualdade de oportunidades", Portugal estar a "criar uma geração de adultos desencantados, incapazes de acreditar num país meritocrático."

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de