"Não há desastre nenhum!" Rio, o perdedor sereno que culpa um "enquadramento difícil"

Rui Rio defende que PSD não teve uma "grande derrota" e diz que vai ponderar com "serenidade" se continua a liderar o partido.

Para bom perdedor, meia palavra basta. Rui Rio sempre disse que a derrota não lhe provocaria mágoa. Com apenas cinco freguesias por apurar, o presidente do PSD fez um discurso curto para assumir a vitória dos socialistas e apontou um dedo acusador às sondagens, aos comentadores e à comunicação social.

Rui Rio felicitou o PS e assumiu que o seu partido não conseguiu o seu objetivo, vencer as eleições, mas considerou que o resultado não foi uma "grande derrota". Agora vai ponderar "com serenidade" se continua na liderança.

Serenidade é a palavra que descreve a noite eleitoral do PSD no hotel Marriott, em Lisboa. A sala com cem cadeiras manteve-se quase vazia até perto das 23h00 e só as palavras do líder social-democrata mereceram aplausos. Bandeiras laranja, nem vê-las.

Questionado se vai abandonar a liderança do PSD - pergunta que motivou risos e protestos da assistência -, Rui Rio começou por dizer que a pergunta partia do pressuposto errado, de que o PSD tinha tido a "grande derrota que muitos profetizavam e até desejavam".

"Essa grande derrota não existiu", ressalvou, referido que antes de responder será necessário "serenidade, ponderação e ouvir as pessoas".

Rui Rio não tem de ouvir todos. Ao longo da noite vários foram os sociais-democratas que se manifestaram a favor da sua continuação liderança do PSD, incluindo o vice-presidente do PSD Nuno Morais Sarmento, o presidente do Conselho Nacional do PSD, Paulo Mota Pinto, e antiga líder do PSD Manuela Ferreira Leite.

Questionado se a prioridade serão as autárquicas de 2021, Rio voltou a fugir à pergunta, apontando que "a próxima direção nacional tem a obrigação" de considerar essas eleições como "nucleares".

"Espero que não faça agora uma crónica muito grande sobre o tabu de Rui Rio, que não disse hoje se continua ou não. O Rui Rio pondera, não há tabus só porque não responde ali ao fim de um minuto ou dois. Calma... Calma..."

Quem é o culpado pela derrota? "A responsabilidade não é exclusiva de uma pessoa em circunstância nenhuma, há que ter em conta as envolventes", começa por dizer Rui Rio. "Mas o primeiro responsável, para o bem e para o mal, sou eu".

Dizia o filósofo espanhol José Ortega y Gasset: "o homem é o homem e a sua circunstância". E as circunstâncias de Rio, ressalva o próprio, não eram as melhores.

O presidente do PSD lamentou "a prolongada projeção de sondagens dando o resultado eleitoral como fechado" " que "desmotivaram o voto no PSD" e que atiraram o partido para a zona dos 20%, apontando ainda o dedo às televisões que deram tempo de antena a comentadores políticos com "interesses" e "agenda". Houve, quem falasse em desastre, mas "não houve desastre nenhum!", destaca, provocando uma chuva de aplausos.

Também "por razões internas e externas, o PSD disputou estas eleições num enquadramento muito difícil", defendeu, apontando, a nível externo, a conjuntura internacional favorável que permitiu o crescimento económico "sem que o Governo precisasse de fazer muito".

E até os críticos da direção tiveram culpa. "Do lado interno, tivemos uma permanente instabilidade dentro do partido, com a conivência de alguma comunicação social, designadamente através da intervenção de comentadores com agenda política, marcadamente ao PSD e à sua liderança", afirmou. Instabilidade essa "de uma dimensão nunca antes vista na história do PSD e exclusivamente motivada por ambições pessoais".

Por oposição, diz, o PSD "não baixou o nível", como fizeram os seus adversários. "Mantivemos sempre sentido de Estado, serenidade, elevação e até boa disposição."

Com todas as freguesias apuradas, o PSD conquista 27,90% dos votos e 77 deputados. Um deles será, garantidamente, Rui Rio. Mais promessas não há. Apenas o futuro ditará o rumo do PSD.

Cabe ao PS tomar a iniciativa de formação de Governo, por isso Rui Rio vai aguardar pelas audiências em Belém e pela reunião dos órgãos do partido antes de se pronunciar sobre os próximos quatro anos. "Eu não sei, nem nenhum de nós sabe exatamente o que o PS quer fazer", nota.

"O senhor Presidente da República irá seguramente chamar os partidos e nós lá iremos. Em função daquilo que o PS quiser fazer, nós vamos analisar a envolvente política, sempre num ato de coerência com o nosso próprio programa e com tudo aquilo que dissemos. (...) Logo veremos a posição que tomamos, sendo que ela estará seguramente em consonância com tudo aquilo que eu sempre disse. Não vai sair daqui nada de diferente daquilo que eu sempre disse, isso pode ter a certeza absoluta", vincou.

Faltam minutos para a uma da manhã. Os militantes dispersaram, o palco está a ser desmontado, apenas os jornalistas permanecem na sala. E Rui Rio? Está no bar do hotel, acompanhado por José Silvano e outros elementos da sua comitiva. Serenamente, a beber um copo.

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