O autor do hino do PPD achava que era para um partido de esquerda

O Hino do PPD, o primeiro hino do atual PSD, tem uma originalidade - na altura em que foi feito, logo a seguir à Revolução dos Cravos, seguiu o habitual formato de marcha com ritmo militar com que os partidos de esquerda procuravam mobilizar o coletivo, as massas, mas, anos mais tarde, escolheu antes um estilo que vagueia entre a folk e a country norte-americanas.

Há uma gaita-de-beiços a lembrar Bob Dylan e há um balanço meio cavalgado, típico dos músicos de Nashville, a capital do country.

Mas a marcha original, com uma grande orquestra e um coro vibrante, foi, em 1974, certamente eficaz como instrumento de propaganda.

Sá Carneiro, o fundador e líder do partido, convidou em 1974 o cantor Paulo de Carvalho e o maestro José Calvário a fazerem esta composição.

Calvário, já falecido, foi sempre militante do PPD/PSD mas Paulo de Carvalho causou algum escândalo ao aceitar o convite para escrever a letra.

Esta voz de uma das senhas que lançou o golpe militar do 25 de Abril - a canção "E Depois do Adeus" - era geralmente dada como simpatizante do PCP.

Na verdade, Paulo de Carvalho só foi militante do PCP de 1980 a 1987. Em 1974 não era militante de nenhum partido e chegou a lançar um álbum, em 1976, com a sigla MPCC - as iniciais do seu nome completo - para demonstrar, então, a sua independência partidária.

O próprio Paulo de Carvalho explicou numa entrevista ao jornal Público que, quando escreveu a letra do hino do PPD, achava que estava a fazê-lo para um partido de esquerda. Eis o que ele diz:

"O PPD era um partido de esquerda. Eu fiz um hino cuja letra é "Paz, pão, povo e liberdade; todos sempre unidos no caminho da verdade". Era o que eu pensava na altura e é o que penso hoje. Era a forma como eu achava que devia ser reconstruído o país - provavelmente de forma ingénua e utópica. Era naquilo que eu acreditava e foi aquilo que fiz. O que é facto é que o PPD tinha na sua linha programática a "via para o socialismo".

A verdade é que a canção não é saudada pelos militantes do PPD ou do atual PSD com punhos erguidos, como acontece com o PS e o PCP, mas de braço estendido com a mão a esticar dois dedos, para fazer o sinal V de Vitória - uma simbologia celebrizada por Winston Churchill, primeiro-ministro inglês que nada tinha de socialista, que adotou esse gesto tradicional dos militares para comemorar a vitória dos aliados na II Guerra Mundial e que os militares do golpe do 25 de abril também usaram profusamente.

E também é verdade que apesar do PSD ser profícuo na criação de vários hinos - geralmente compõe um hino especial para cada campanha eleitoral - o hino original do PPD mantêm-se no coração dos seus militantes e continua a ser muito usado.

Não vamos ouvir a versão que o sítio na internet do PSD disponibiliza ao público, a tal com gaita-de-beiços e ritmo country, mas a original, com coro, orquestra e em marcha marcial.

Outros Hinos:

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de