Rui Rio
Eleições PSD

"Se não chegar a primeiro-ministro, tenho que fazer emergir o meu sucessor"

Rui Rio promete que, se vencer as diretas do PSD e não conseguir levar o partido ao poder, terá sucessão garantida. Em entrevista à TSF, o atual presidente social-democrata fala ainda da polémica com a votação dos militantes da Madeira e responde às críticas dos adversários que o acusam de ser "a muleta do PS".

Com uma agenda apertada, entre a campanha interna e a discussão do Orçamento do Estado, Rui Rio recebe a TSF no seu gabinete da Assembleia da República para a última das três entrevistas aos candidatos à liderança do PSD. Lamenta que os críticos internos não lhe tenham permitido fazer a oposição que gostava de ter feito, acredita que só ele pode devolver o poder ao Partido Social Democrata e promete que, se vencer esta eleição mas não ganhar o país, terá um sucessor preparado para ser um dia primeiro-ministro.

Nos últimos dois anos fez a oposição que quis ou a oposição que o deixaram fazer?

É mais ou menos um misto das duas coisas. Não fiz, seguramente, a oposição que quis, porque para fazer a oposição que eu gostaria de ter feito - e agora estou a dizer oposição porque foi assim que o Anselmo colocou a questão -, para pôr o partido a funcionar como eu entendia que devia ser, teria de ter tido uma paz interna que não tive. E, portanto, como era a coisa sempre cheia de sobressaltos, cheia de obstáculos internos, de boicotes internos, de todas essas dificuldades, é lógico que quando assim é, o partido, a equipa, a empresa, a instituição, naturalmente que não pode atingir aquilo que são os máximos que tem à sua disposição. Portanto, é evidente que eu, em parte, fiz o que me deixaram fazer, naturalmente. Tem uma marca minha, como é evidente.

Foi isso que o impediu de ganhar as eleições? Essa falta de paz interna?

Não sei, não sei responder a isso. Sei responder parcialmente. Sei dizer assim: é óbvio que, se tem havido paz interna, se têm dado condições à direção para trabalhar, o resultado era melhor. Disso eu não tenho dúvidas nenhumas, é uma dedução lógica. Se dava para ganhar eleições, não sei responder.

O facto de se colocar outra vez sujeito ao voto dos militantes quer dizer que acredita que, depois destas eleições, esses focos de tensão interna podem desaparecer ou que os pode ultrapassar?

Quem me fez isso desgastou-me, desgastou o partido, mas também se desgastou a si próprio. Se eu não ganhar, naturalmente que não é assim. Mas eu estou convencido de que, se ganhar, o partido já está mais apto, digamos assim, mais consciente para censurar aqueles que ainda assim possam continuar a boicotar a atividade da direção legitimamente eleita através do ato eleitoral que vamos ter agora. Se vai ser, não está na minha mão; agora, eu acredito que vão estar mais condicionados para fazer isso. Também se continuarem por esse caminho, não sei qual é que pode ser o futuro do PSD, se enveredar por um caminho em que uma parte, ainda assim não tão pequenina quanto isso do partido, sistematicamente começa a não respeitar os atos eleitorais internos, desrespeitando a vontade dos militantes e boicotando permanentemente as diversas direções eleitas. Se for esse o caminho do partido, não prevejo grande futuro para o partido, ou seja, para a instituição, seja lá qual for.

Luís Montenegro dizia esta semana na TSF que não só nunca foi a oposição interna, como o acusou de ser o único responsável pelas divisões internas. Enfia de alguma forma essa carapuça? Assume uma quota-parte de responsabilidade nessas divisões?

Não. Repare bem, o primeiro ato que eu tive - enfim, não posso e não devo contar conversas que tive com pessoas - foi convidar o meu adversário para líder da minha lista ao conselho nacional: o Pedro Santana Lopes. O cabeça de lista que eu tinha em mente era o Paulo Rangel, que passou para número dois, e o Pedro Santana Lopes foi o cabeça de lista do conselho nacional. E não foi só o Santana Lopes, depois toda a lista do conselho nacional foi composta em função dos resultados eleitorais. O Pedro Santana Lopes indicava uma pessoa ou duas, eu indicava uma pessoa ou duas e foi assim que a lista foi construída com muita gente do meu lado a ficar desencantada porque queria ir e não tinha lugar pelo acordo que eu fiz com o adversário. Portanto, o primeiro passo para a pacificação. Antes disso - e é o que eu não posso contar - há pessoas que sempre se me opuseram, que eu convidei para os órgãos nacionais. Não há muitas, mas há algumas de relevo que eu convidei e não quiseram.

Incluindo Luís Montenegro?

Não, eu não vou falar em ninguém, ninguém, ninguém. Por isso é que eu lhe dizia há bocado que não posso contar quais as pessoas. A conversa é a dois. Disse que não, podia ter dito que sim, se fosse sim era público. É não, fica aqui entre nós. Mas estou-lhe a dizer que fiz isso e depois a seguir foi com o Pedro Santana Lopes. Depois, era preciso indicar, digamos assim, aquele que gostaria que fosse o líder parlamentar para ser sufragado pelo grupo parlamentar e pelos deputados. A pessoa que eu indiquei foi o Dr. Fernando Negrão - que não tinha sido meu apoiante, tinha sido um apoiante destacado do Dr. Santana Lopes - para um cargo muito importante que é o cargo de líder da bancada, principalmente quando eu não era deputado. E assim foi. Quando foi para eleger, para escolher o cabeça de lista à Europa, eu escolhi o Dr. Paulo Rangel, que não me apoiou nas diretas. Também não apoiou o Dr. Santana Lopes, ficou equidistante, mas não era um apoiante meu. Hoje apoia-me, mas naquela altura não era um apoiante meu, tinha sido até um potencial candidato à liderança, se bem se recordam.

Depois quando fiz as listas de deputados - é evidente que as listas não são as minhas listas, não são as listas do presidente do partido - há uma série de equilíbrios a fazer, mas nos cabeças de lista já não é assim. Aí a minha responsabilidade é quase 100%. E a escolha que eu faço dos cabeças de lista - poucos, muito poucos - são pessoas que me apoiaram desde o início. Dir-lhe-ei que são quatro ou cinco cabeças de lista que me apoiaram nisto. Depois há alguns que estiveram contra mim, e há outros que eu não faço a mínima ideia se estiveram a favor ou contra mim, e há outros que... Sei lá, o caso do Coimbra, nem esteve a favor nem esteve contra porque nem sequer era do partido, era um independente - ainda hoje continua independente. Tem todo o gosto que eu agora ganhe as eleições, mas, naquela altura, nem me conhecia. Portanto, quer uma maior atitude de boa vontade e de boa-fé para unir o partido que esta? Não há.

Só se consegue unir quem quer ser unido. É como se costuma dizer, para dançar o tango é preciso dois. Se eu fico a dançar o tango, pareço tolinho, não é? Pronto. E portanto, não posso, na sua pergunta, enfiar a carapuça. Não posso de forma nenhuma, não é?

"Devo reconhecer que acordo com o PS para a descentralização não teve um resultado fantástico"

Nesta altura, uma das críticas que ainda subsiste, depois destes dois anos a liderar o PSD, é que o Rui Rio é uma muleta do PS para a governação. Aceita esta crítica?

Quando não há discurso tem de se inventar qualquer coisa.

Mas chegou a fazer acordos com o Governo do Partido Socialista...

Sim. Aqueles que me foram criticando ao longo dos dois anos e criando os obstáculos - nem estou agora a referir sobre os dois adversários concretos. Não havendo discurso sustentado, as pessoas têm de dizer qualquer coisa, então dizem o que lhes apetece, não é? Mesmo quando não estamos no carnaval, podem dizer coisas, o que lhes apetece. E, portanto, essa é uma delas. O entendimento quando dizem isso é que a oposição, seja ela qual for, neste momento é do PSD ao PS, podia ser ao contrário, é algo que tem de estar sempre a dizer mal de tudo do Governo. E não pode colaborar com o Governo em rigorosamente nada. Este princípio, que foi evoluindo no regime português, não era assim há 40 anos, mas foi evoluindo e foi criada uma cultura - que tem muito a ver até aqui com a componente parlamentar -, foi criada uma cultura de que estar na oposição é estar contra tudo.

Isso não faz parte desse equilíbrio?

Não. Num país civilizado - e numa democracia civilizada - há diferenças entre a oposição e o Governo. E essas diferenças não só são marcadas como são evidenciadas nos diversos diplomas que estão em votação. Mas isto não quer dizer que não possa haver outros diplomas com os quais nós possamos estar de acordo. E digo mais: isto não quer dizer que a oposição e o Governo não devam colaborar naquilo em que o país precisa que colaborem. Imagine, se assim fosse, nem uma revisão constitucional se consegue fazer. Não se conseguia aprovar lei nenhuma que requeresse, por exemplo, uma maioria qualificada de dois terços, não é? É um absurdo o que dizem, é uma irracionalidade. Às vezes as pessoas nem param para pensar. Alguém que participa numa revisão constitucional é a muleta do Governo, portanto, se o PS estiver na oposição, será a muleta do PSD e vice-versa, se calhar. Não faz sentido nenhum.

O senhor fez um acordo para a descentralização.

Fiz dois acordos.

Fez dois acordos, um para fundos comunitários e outro para a descentralização.

Exatamente.

Arrepende-se de ter feito o da descentralização?

Não...

Tendo em conta o resultado concreto que aquilo teve...

Pronto, o resultado concreto não é um resultado fantástico, isso aí eu devo reconhecer. Agora, vamos lá ver uma coisa: eu entendo que o país se deve desconcentrar e descentralizar, portanto, desconcentrar é não ficar tudo tudo na área metropolitana de Lisboa, mais qualquer coisinha na área metropolitana do Porto e depois o resto do País não tem nada. Portanto, desconcentrar é tirar os serviços públicos e as direções gerais e os serviços, os institutos... É não estar tudo no mesmo sítio. Isso é desconcentrar. Descentralizar é ter competências e poder decidir. Eu acho que o país tem de descentralizar e desconcentrar. É uma reforma de fundo. Então o país não terá essa reforma de fundo porque se eu assinar alguma coisa com o Governo sou um muleta do Governo?

Mas o senhor assinou um acordo com o Governo e, na verdade, a descentralização ficou muito aquém daquilo a que chama uma reforma de fundo...

Sim, sim. A lógica de fazer um acordo está intacta. O resultado do acordo, a produtividade do trabalho que ali colocámos não foi a melhor? Não. Ainda assim, há diversas competências que foram transferidas para os municípios e há um estudo produzido por uma equipa de técnicos qualificados, pluripartidária, que produziram um documento que ainda não foi devidamente debatido por circunstâncias óbvias. Tivemos eleições, depois tivemos a instalação do Governo, agora o maior partido da oposição está em eleições internas e o CDS também, entrou o Orçamento do Estado, portanto eu penso que a partir de março teremos de começar a olhar para isso. Eu gostaria que o resultado fosse melhor, a articulação com as autarquias tivesse sido melhor, tivesse havido já uma nova lei das finanças locais que permitisse fazer o matching entre competências e nova...

Também financiar, não basta descentralizar, convém também financiar.

Claro, claro. E portanto, que isso tivesse sido feito de uma forma mais eficaz. Pode-me perguntar assim: bom, mas para o que eles fizeram, também não fariam sem acordo? Talvez fizessem sem acordo, talvez, mas a minha responsabilidade é fomentar que isso aconteça. O resultado está aquém, mas ainda tem um caminho para andar. E depois há esse estudo que tem a ver com a descentralização para o que chamamos o setor subnacional que está por fazer.

Já disse que está preparado para governar a partir de 2021. Está mesmo convencido de que este Governo não vai chegar ao fim da legislatura?

Aquilo que está na moção não é exatamente assim. O que está na moção pressupõe que a legislatura pode não chegar ao fim, mas o normal é que chegue ao fim. E como eu estou a ser eleito para dois anos, o que é que eu vou fazer nestes dois anos? Vou preparar as autárquicas, é certo, fazer oposição ao Governo, mas devo também preparar melhor o partido para governar ao longo destes dois anos, por isso é que não foi em três nem quatro anos, o mandato é de dois anos e portanto...

Isso pressupõe o quê? Preparar melhor o partido é o quê?

Pressupõe fundamentalmente pôr o conselho estratégico nacional a funcionar cada vez melhor. O conselho estratégico nacional, o que é? Tem 16 áreas setoriais - vamos lá ver se agora na reforma pode ter 17 ou 18, 14 ou 15, vamos ver, a experiência ensina-nos qualquer coisa, vamos ver. E portanto isso é onde nós temos os políticos tecnicamente mais qualificados nas diversas áreas, e é esse funcionamento do CEN, que funcionou bem mas que pode funcionar melhor, como é lógico, a este nível é fundamentalmente.

Mas para ao fim de dois anos ter um programa de Governo, por exemplo?

O programa de Governo já temos. Foi o nosso programa eleitoral para 6 de outubro.

Mas terá de ser alterado, ou não?

Há que alterar duas coisas: uma em função daquilo que é a evolução da própria sociedade como é evidente. Por outro lado, se nós continuarmos a trabalhar e a pensar, há uma outra ideia que pode ser ajustada e substituída, como é evidente, não é?

"Acho um bocadinho exagerado classificarmos o Chega de fascista ou de extrema-direita"

Sabendo que o PSD só volta a ser Governo se tiver maioria no Parlamento, admite acordos com o Chega, de qualquer tipo de incidência ou rejeita liminarmente esse partido?

Aí coloco-me um bocadinho ao meio. Relativamente ao Chega, porque relativamente aos outros, é pacífico. O que lhe digo é o seguinte: vai depender daquilo que for a evolução do Chega até à data em que isso possa eventualmente ser necessário. O Chega é muito jovem, está a começar, só tem um deputado, portanto é muito difícil perceber o que é que o Chega vai ser daqui por um ano ou daqui por dois anos. Vai haver as eleições presidenciais, que vão ser muito relevantes para o Chega, como todos nós já percebemos. Entretanto também há a evolução do CDS na sequência do seu congresso, que também é importante para o Chega. Portanto, nós não sabemos hoje exatamente qual vai ser o panorama, por exemplo, daqui por um ano ou um ano e meio.

Mas hoje, qual é a avaliação que faz do Chega?

Hoje não. Hoje a resposta não tem utilidade nenhuma porque hoje isso não existe, o Chega tem um deputado...

Já houve governos que dependeram de um deputado...

Sim, mas o Chega tem um deputado, o PSD tem 79, e, portanto, 79 também está longe de conseguir fazer isso. Quando isso se colocar, o Chega ou não tem deputado nenhum ou vai ter mais deputados.

Mas que avaliação é que faz do Chega? Paulo Rangel dizia no outro dia na TSF que não concordava com o selo de populista ou de fascista que se coloca frequentemente ao Chega.

Sim, eu também acho...

Onde é que se posiciona?

Concordo com ele. Acho que é um bocadinho exagerado, não é? Classificarmos o Chega de fascista ou de extrema-direita. Agora, que tem efetivamente algumas posições extremistas e algumas posições de perfil populista é verdade. Se elas forem ganhando força no Chega, nunca mais será possível haver um entendimento com o PSD. Se, por outro lado, elas forem atenuando e ele se for moderando um pouco mais, eu penso que sim. Por isso é que eu lhe digo: neste momento é muito difícil dizer, mas também não é útil porque neste momento isso nem sequer se coloca. Quando se vier a colocar - e se se vier a colocar -, vamos ter de ver o que é o Chega nessa altura. Mas no fundo é isto: radicaliza-se, não é possível. Fica um pouco mais moderado, embora à direita com certeza, ali naquele espaço dele, temos de ver.

"É muitíssimo mais fácil o PSD chegar ao poder se eu ganhar as eleições"

Ganhar as eleições, as diretas do PSD, é a única forma de levar o partido ao poder?

O partido só chega ao poder se eu ganhar? Eu diria assim: eu acho que é muitíssimo mais fácil o PSD chegar ao poder se eu ganhar as eleições de sábado do que se eu não ganhar. Isso para mim parece-me evidente. Também se não fosse para mim evidente, se calhar eu também não me estava a candidatar porque não era para mim evidente, nem era evidente para as pessoas que me pediram para eu candidatar. Bom, dito isto, eu dir-lhe-ia assim, que não quero ser deselegante: se eu ganhar as eleições e se eu não conseguir chegar ao poder, mesmo ganhando as eleições, compete-me a mim procurar trabalhar o partido de uma tal forma que, nessa altura, quando eu tiver que sair, eu tenha sido capaz de criar uma, duas ou três figuras que tenham peso institucional, forma e competência, para poderem ser primeiro-ministro de Portugal.

Um sucessor?

Sim. O que estou a dizer é que, se eu ganhar as eleições e ainda não conseguir chegar a primeiro-ministro, eu tenho que fazer em paralelo - o partido tem de fazer em paralelo - um trajeto em que faça emergir aquele que deve ser o meu sucessor, que para chegar ao poder - coisa que no cenário que eu estou a dizer, não terei conseguido, não é - se eu conseguir chegar ao poder, o problema está resolvido. Percebe? Fui claro?

Foi claro. É mais difícil essa parte ou a parte de chegar ao poder? Criar o sucessor ou chegar ao poder? O que é que acha mais difícil?

Estou a pensar alto e se calhar, eles andam mais ou menos em paralelo.

Já tem alguém em mente?

Eu não tenho ninguém em mente, mas olhando para o partido vejo aqueles que são um pouco mais consagrados, que infelizmente hoje são muito poucos face àquilo que era há 20 anos. Lembre-se, por exemplo, do congresso do coliseu, quando o professor Cavaco Silva saiu e tivemos aquela disputa entre o Fernando Nogueira, Durão Barroso e Santana Lopes. A quantidade de figuras de capacidade, figuras notáveis, no bom sentido do termo - não é notáveis na comunicação social, notáveis porque desempenharam cargos importantes, porque tinham capacidade, porque tinham estatuto na sociedade -, a quantidade imensa de pessoas que o PSD tinha. Olhe a situação em que estamos agora. Portanto, não há um leque de escolha brutal, mas há obviamente alguns e depois há outros que estão numa segunda linha, na qual é preciso reparar, e é preciso dar oportunidade para ver se chegam a esse patamar de primeira linha. Disso não tenha dúvidas, que eu tenho essa preocupação, isso tenho.

"Vencer a Associação Nacional de Municípios é muito difícil"

O senhor tem sublinhado muito a importância de preparar bem as eleições autárquicas, é aliás um elemento comum com os seus adversários nesta campanha. Já tem na cabeça o candidato a Lisboa e ao Porto?

Não. Agora tenho naturalmente na cabeça como é que as coisas devem ser conduzidas, para nós chegarmos a uma situação em que vamos para as eleições autárquicas com trabalho produzido, e depois o candidato é, digamos, o complemento óbvio do trabalho produzido. Normalmente faz-se ao contrário, não é? Não fizemos nenhum, estamos a seis meses das eleições, arranja-se o candidato melhor possível: "Olha este tem muitos votos, este é conhecido, outro não é, não sei quê..." Eu acho que isso é fazer ao contrário, é normalmente como se faz, mas é fazer ao contrário, e já vamos tarde para fazer o que eu estou a dizer.

Mas o perfil e a visibilidade do candidato também é importante, ou não?

Sim, com certeza.

Não foi irrelevante ser o Rui Rio o candidato à câmara do Porto ou ser outra pessoa menos conhecida?

O Rui Rio quando foi candidato à câmara do Porto em 2001 - aliás fez esta semana 18 anos que tomei posse pela 1.ª vez na câmara do Porto -, na altura, era apenas um deputado conhecido. Talvez o deputado do Porto mais conhecido fosse um deputado conhecido. Mas nem sequer era um dos deputados de referência que completa a Assembleia da República, era um deputado conhecido. O PSD não tirou ali um coelho da cartola com uma grande individualidade do Porto. Também não é preciso ser assim, não é? Temos é de escolher alguém com dinâmica, com algum grau de notoriedade, com capacidade e com uma aceitação, digamos assim, razoável dentro do partido, que não divida, que não ponha tudo à guerra uns com os outros.

Do PSD ou não necessariamente?

Ou do PSD ou independente. Mas, se for independente, tem de ser um independente muito próximo do PSD, como é evidente.

Luís Montenegro dizia que se ganhasse estas diretas seria ele próprio a coordenar o processo autárquico. Também assumiria essa função se ganhasse estas diretas?

O processo autárquico é algo que me diz muito respeito, na exata medida em que fui durante 12 anos presidente da segunda câmara do país, oito anos presidente da junta metropolitana do Porto - penso que não há ninguém que tenha sido 12 anos presidente da câmara do Porto na história da cidade e penso que também não há ninguém que tenha sido oito anos presidente de uma junta metropolitana em Portugal. Portanto, com esta experiência autárquica que eu tenho, é obvio que é impossível, sendo eu presidente do partido, não acompanhar o processo. Se eu tenho um particular know-how sobre esta matéria, o partido deve aproveitar essa minha experiência, esse know-how sobre a matéria. Agora, não tenho que ser eu diretamente a fazer a gestão, a gestão deve ser feita, em princípio, pelo secretário-geral, que tem naturalmente de fazer esse trabalho. Podemos ter com o secretário-geral uma comissão que acompanha, e teremos com certeza. Eu funcionarei como um presidente no partido muito ativo nesse processo, mas não o executivo desse processo. Aliás, a minha experiência diz-me que não é necessário fazer isso.

Atreve-se a colocar uma fasquia para as autárquicas? Vencer a Associação Nacional de Municípios, por exemplo?

Vencer a Associação Nacional de Municípios é muito difícil. Se fizer as contas - eu já as fiz, agora não tenho os valores de cor, mas não se consegue fazer as contas porque não sabemos quantas câmaras também podemos perder, nem sabemos a distância que temos, depois há câmaras com independentes, há câmaras com o PS e tal - diria que temos de ganhar aí umas 40 câmaras e perder muito poucas para poder eventualmente aspirar a ser o partido com maior número de câmaras municipais e, portanto, ganhar a associação municipal de municípios. É bastante difícil. Não se consegue recuperar aquilo que se foi perdendo em três anos. Nós temos as primeiras perdas em 2009, grandes em 2013 e muito grandes em 2017. É muito difícil, o que se foi perdendo em três anos ou pelo menos nos últimos dois, recuperar num ato eleitoral só. Temos de ter essa consciência.

Agora, é evidente que o partido tem de virar, não pode ir sempre a perder como foi até agora, tem de começar a ganhar e o ganhar aqui tem dois objetivos importantes: ganhar mais presidentes de câmara, mais presidentes de junta de freguesia, sim. Mas há um outro ponto que não se tem falado que é muito importante : eleger mais vereadores, está a ver? Isto é um objetivo muito relevante, porque eleger muitos mais vereadores quer dizer que vamos ganhar câmaras e nas câmaras que não vamos ganhar vamos reforçar o nosso peso. É diferente em 13 vereadores ter seis ou ter um, ou em 17 vereadores ter dois ou ter cinco ou seis, está a ver? Portanto, o objetivo, para lá de ganhar as câmaras, eu diria que é acima de tudo ganhar vereadores, porque, ganhando muitos, ganho câmaras e naquelas que não ganho reforço o peso, está a ver. Há câmaras onde já tivemos a câmara durante algum tempo e hoje não temos nenhum vereador enquanto o CDS até tem um, por exemplo. Temos de inverter isto.

Calculo que defenda para as câmaras municipais aquilo que defende para o país, ou seja, uma governação cooperativa mesmo quando o PSD está na oposição.

Mas isso é mais ou menos o que acontece nas câmaras todas. Há pessoas do partido que me criticam dizendo que eu sou a muleta do PS e que na sua câmara são vereadores, por exemplo, em acordo com o Partido Socialista ou em acordo até com o Partido Comunista. Depois vêm dizer que eu sou muleta do Partido Socialista não é? (risos) Cada autarquia é uma realidade e, portanto, eu não excluo isso agora.

Deixe-me dizer-lhe que quando eu ganhei pela primeira vez a câmara do Porto não tinha maioria absoluta. Em 13 vereadores eu tinha seis, o PS tinha seis e havia um que fazia o desempate, que era o do Partido Comunista. Eu optei por fazer o acordo com o vereador do Partido Comunista e não com o Partido Socialista, que até seria mais próximo do ponto de vista ideológico. Porque eu acho que não era democraticamente saudável, pura e simplesmente, aniquilar a oposição. Eu fazia um acordo com o PS, em 13 tínhamos 12, e ficava o do PCP sozinho, não é? No entanto, entendo que posso olhar para uma câmara especificamente e ver alguma coisa que aconselhe diferente, mas isso é o que fazem todos desde o 25 de Abril (risos). Aliás, até demais às vezes, e é por isso que eu gostava também de ajustar a lei autárquica.

Se os 2500 votos da Madeira entrarem na urna? "No limite seria o Tribunal Constitucional a ter de pôr ordem nisso"

Miguel Albuquerque insiste que há 2.500 militantes aptos para votar nestas diretas e não 104 como ficou aprovado no conselho nacional. Não é uma diferença muito grande?

É evidente, agora eu vou dar a minha opinião como militante do PSD e como candidato, mas não sou eu que decido. Embora depois possa aceitar melhor ou pior as decisões. As regras têm de ser iguais para todos os militantes. Não podemos aceitar que um partido com a dimensão do PSD faça uma eleição nacional e os militantes de Bragança, de Viseu ou da Guarda tenham de preencher determinados requisitos e outros não. Existem regulamentos que têm de ser aplicados igualzinho para todos os militantes, independentemente do sítio onde residem. Isto não faz sentido de outra forma. Se o processo chegar ao Tribunal Constitucional (TC), não tenho dúvida nenhuma do que o TC vai dizer que as regras têm de ser iguais para todos e que os regulamentos têm de ser aplicados igualmente para todos. Os nossos regulamentos e grande parte deles foram agora ajustados no meu tempo - e de propósito -, têm de se conformar com a lei nacional, por exemplo. A lei nacional de financiamento dos partidos políticos - e isto, por ação também minha já de há muitos anos -, proíbe o financiamento dos partidos, dizia-se na altura em notas do Banco de Portugal, agora é em notas do Banco de Central, em numerário, porque longe vai o tempo em que o financiamento dos partidos andava com sacos de plásticos, com sacos ou caixas de sapatos com dinheiro lá dentro. Isto é absolutamente inadmissível e portanto a lei nacional acabou com isso. Em conformidade com isso, se os partidos não podem ser financiados por dinheiro vivo, ou seja, temos de conhecer sempre a procedência do dinheiro, obviamente que as quotas também não podem ser pagas em dinheiro vivo, porque, senão, estamos a fugir à própria lei nacional que, muito bem, proíbe que os partidos sejam financiados em notas, não é?

O PSD Madeira está na pré-história a esse nível?

O que nós fizemos foi um apuramento dessas situações com mais hipóteses de pagamento. Não fica só o multibanco, nalguns casos pode ser o vale postal quando as pessoas são mais idosas, o MB Way, uma data de situações possíveis, mas aquela que é mais lógica é o multibanco, absolutamente a mais comum. E assim percebe-se a identificação, ou seja, foi o militante "António Silva" que pagou a sua quota. Isto é uma regra para o país todo. É possível que não seja o "António Silva" a pagar a sua quota? É possível que seja o "Zé Monteiro" a pagar o "António Silva?" É. Mas pelas novas regras só é possível se aquele a quem pagam a quota o permitir, porque tem de fornecer ao outro o código necessário para lhe pagar a quota. Não é que eu ache muito bonito pedir a alguém para pagar a minha quota ou deixar que alguém pague a minha quota, mas de qualquer maneira já há uma diferença entre aquilo que havia há um ano ou há dois anos, em que todos podiam pagar de todos e agora em que cada um, para lhe pagarem a quota, tem de dar a permissão. Para que haja uma identificação da proveniência do dinheiro, estas regras têm de ser cumpridas por todos, portanto, se me pergunta se são 104 para 2 mil, gostaria que não fosse assim com certeza, mas não passa pelo meu espírito que as regras não sejam iguais para todos os militantes.

Portanto, enquanto candidato vai querer garantir que se surgirem 2.500 votos de militantes da Madeira só 104 sejam contabilizados?

Não, não. Repare que isso ainda é pior. Há um caderno oficial que só tem 104, que são aqueles que cumpriram as regras, pagaram a quota de forma direitinha, está tudo identificado. Se o caderno não for o dos 104, for o dos 2.500, os 104 estão lá metidos dentro. Na prática quem fizer isso está a usurpar o direito a esses 104 militantes, porque depois não pode contabilizá-los. Eles estão lá metidos no meio, não sabe, nos votos todos que estão dentro da urna, quais são os daqueles 104 militantes...

Qual é a consequência disso? É a Madeira ficar de fora?

Sim, a consequência que me parece mais evidente é não poder contar os 104. Não pode contar nada, como é lógico. Portanto, é preciso também pensar que quem vai fazer isso vai retirar o direito àqueles 104. E esses sim têm o mesmo direito que qualquer outro militante do PSD do continente ou fora dele.

Acha que, no limite, todo o ato eleitoral pode ficar em causa? Pode-se questionar a legalidade de todo o ato eleitoral?

Neste momento - o conselho de jurisdição produziu uma deliberação, mas não sei se essa já é a final -, se contassem mesmo para o resultado os dois mil e tal votos à margem do regulamento, se o conselho de jurisdição nacional não eliminasse isso, no limite era o Tribunal Constitucional. Era uma vergonha, mas no limite seria o Tribunal Constitucional a ter de pôr ordem numa coisa destas. Eu tenho alguma dificuldade em entender isto, sinceramente, pelo seguinte: isto não é de vida ou de morte. Isto é uma eleição onde há três; um ganha e dois perdem. Se não for eu a ganhar, isto não é de vida ou de morte, não morre ninguém. E os outros acho que devem pensar da mesma maneira. Se não forem eles a ganhar, isto não é de vida ou de morte, não pode valer tudo. As pessoas agarram nisto como se isto fosse tudo. Não, há mais vida para lá disto. Isto é um ato democrático, é uma eleição, um ganha, os outros não ganham, se não for eu, não morre ninguém, está a ver. E portanto, esta coisa que eu tenho dificuldade em entender, esta postura perante estas coisas...

É um adepto dos carros e das corridas de carros. Isto dos carros elétricos que nem sequer fazem barulho agrada-lhe ou também acha que vai matar as corridas de carros?

Nesse ponto de vista, tenho muita dificuldade em responder a isto porque, por um lado, tenho consciência, eu quando recriei o histórico circuito da Boavista fi-lo por dever de presidente de câmara. Também foi uma coisa de que eu gostava, também é verdade, mas não foi isso que mais me moveu. Tenho, portanto, consciência de que o espetáculo que atraía aquelas pessoas todas era o barulho dos carros. A aceleração, a desaceleração, a redução... Com os carros elétricos aquilo fica sem barulho nenhum e perde muita da atração. Não sei tanto assim, mas já ouvi dizer que há carros elétricos onde é produzido um barulho de propósito para...

Só para animar a malta...

Para animar a malta. Mas também não lhe sei dizer se isso depois é muito sustentável no tempo e se faz algum sentido ali o barulho artificial. Não sei fazer a profecia de como é que serão as corridas de automóveis daqui por dez anos face a uma evolução natural por causa das questões ambientais de maior projeção dos carros elétricos.

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