Trabalhadores do Alfeite preocupados viram-se para Marcelo

Quase sem trabalho no estaleiro, trabalhadores estão preocupados com os próximos salários e querem justificações sobre demissão do presidente da administração. Carta para Presidente da República segue ainda esta semana. PSD quis ouvir ex-administrador no parlamento, PS (com ajuda do PCP) não deixou.

Na cabeça de Rui Ferreirinho ainda ecoam as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa: "Se estou aqui é porque existe futuro". A frase data de 2017 e, de acordo com este responsável pela Comissão de Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, desde então foi "sempre a cair". E é por isso - por esse futuro - que vão pedir ajuda ao Presidente da República.

O trabalho é pouco ou nenhum, a retribuição pelo trabalho não está segura, o administrador demitiu-se e apenas alegou "motivos pessoais". Todas estas circunstâncias levam Rui Ferreirinho a dizer à TSF que há inquietação e apreensão entre os trabalhadores do estaleiro que soma, ao dia de hoje, 448 trabalhadores.

No parlamento, no final do ano passado, a Comissão de Trabalhadores já tinha admitido que pouco ou nenhum trabalho tinham em mãos, algo que passado mais de um mês se mantém. "Temos o submarino, de resto não há assim nada de relevante", nota Rui Ferreirinho complementando ainda com os serviços de reparação urgentes da Marinha.

A história adensa-se com os problemas financeiros da empresa: o subsídio de natal chegou tarde e o ex-presidente do Alfeite também admitiu no parlamento, no fim do ano passado, que mais do que a preocupação com o subsídio, estava preocupado com o pagamento de salários no primeiro trimestre do ano.

"Os meus colegas estão apreensivos e com receio porque estão a ver que o emprego deles pode estar por meses ou por dias. Vendo a situação como está, não havendo dinheiro, não vemos investimento, não vemos admissão de pessoal, não vemos trabalho... Depois, sempre com a mesma coisa de que 'não há dinheiro, não há dinheiro'. Neste preciso momento até aos fornecedores não estão a pagar...", vinca este representante dos trabalhadores.

E apesar de alguma expectativa com o novo presidente da empresa, as primeiras palavras relativas aos salários também não os descansou, uma vez que foram avisados de que o pagamento podia falhar, apesar de neste mês ter sido cumprido o pagamento dos honorários.

No entanto, há ainda uma outra grande dúvida na cabeça do pessoal do estaleiro de Almada: porque é que se demitiu José Antunes Fernandes? A 18 de janeiro, Rui Ferreirinho foi informado de que o até então presidente do conselho de administração se tinha demitido por "razões pessoais". Na reunião que tinham tido 10 dias antes nada indicava que assim fosse. "Nada disso estava em cima da mesa, nunca falou nem nunca ponderou em se demitir", recorda.

Perante falta de justificação menos vaga, os rumores vão se espalhando: "corre o boato de que foi pressão da Marinha, pressão da iDD, pressão da tutela". "Depois há outro boato que corre de que ele é que pediu a demissão porque via que não ia ter dinheiro para aquilo que pretendia... Agora correm vários boatos, mas nós só temos conhecimento de que foi por motivos pessoais", explica Rui Ferreirinho.

Dito isto, este responsável da Comissão de Trabalhadores diz que o próximo passo é apelar a Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro Presidente da República a visitar as instalações do Arsenal do Alfeite em democracia. A Belém vai chegar uma carta a lembrar o Chefe de Estado das suas palavras, em 2017, e com a esperança de que a magistratura de influência corra bem. "Gostaríamos que tivesse em atenção aquilo que nos disse e que, pelo menos, falasse com alguém de direito", desabafa.

PSD quis explicações, PS travou-as com a ajuda do PCP

No plano parlamentar, o PSD deu entretanto entrada a um requerimento para ouvir novamente, na Comissão de Defesa Nacional, o agora ex-presidente José Antunes Fernandes. No entanto, o PS vetou e o PCP contribuiu para inviabilizar essa audição ao abster-se na votação.

À TSF, o deputado Carlos Reis explica que o partido queria perceber "qual foi a razão que levou Antunes Fernandes a demitir-se, para lá das dificuldades que ele já tinha invocado na última audição".

Carlos Reis diz que o PSD "não quer fazer politiquice com isto", caso contrário chamaria o ministro da Defesa ou o responsável da iDD, e que o objetivo era tratar do caso junto do Conselho de Administração "pela positiva e com vista a tentar perceber qual é o problema e, até num tom de alguma unidade, fazer um apelo para que fossem disponibilizadas as verbas para que se resolvesse a situação".

No entanto, porque também é de política que se trata, um lamento e uma surpresa. "É de lamentar o posicionamento do PS que acha que é mais importante ouvirmos a pessoa que vai substituir o presidente demissionário do que aquele que se demitiu, simplesmente porque já o ouvimos em novembro", nota Carlos Reis lembrando que, "em novembro, ele não era demissionário".

Mas não é apenas o PS que merece um reparo, também o Partido Comunista. "Posso confessar que fico surpreso com a abstenção do PCP que pensei que seria mais sensível a este tipo de temas e de problemas, até porque, em 2014, com os Estaleiros de Viana mostraram sempre grande preocupação em perceber qual era o futuro da empresa", sublinha.

"Não se augura nada de bom para o Arsenal do Alfeite se passarmos por cima destes problemas se fingirmos que nada acontece", conclui.

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