Ribeirinha, uma aldeia da freguesia de Tresminas
Covid-19

A esta aldeia a pandemia não chega. Nem a internet ou o ensino

Há duas antenas para rede móvel em Tresminas, mas o sinal de internet não chega até Fábio Fernandes, o único adolescente de uma aldeia com 15 habitantes. O isolamento ganha um novo significado quando até o ensino tem de ficar para trás.

Onde Fábio Fernandes vive a internet não chega. Em tempos de pandemia, o ensino, um direito alienável, também não. Ribeirinha, uma aldeia com 15 habitantes - na freguesia de Tresminas, concelho de Vila Pouca de Aguiar -, tem rugas: além de Fábio Fernandes, há apenas um outro menor, uma criança de quatro anos. O avanço tecnológico também não tem lugar. "É uma aldeia pacífica, não há muitos habitantes. Passamos os dias no campo. Aqui não há rede, e é normal."

Se a fase de confinamento nacional veio acentuar o isolamento, os dias sem internet, esses, já são normais, até porque nunca conheceu outros. O adolescente de 16 anos já não pode ir à escola, e, ao contrário de muitas pessoas da sua idade, não tem como contactar os colegas, nem mesmo para saber se têm recebido aulas à distância. "Não tenho internet, não lhes posso perguntar. Nunca tive, não me faz grande diferença, já estou habituado."

Milhares de alunos por todo o país têm tido aulas online desde que as escolas foram encerradas, a 16 de março. Para Fábio Fernandes, essa não é uma opção. "Os outros têm mais vantagens do que eu. Eu só posso estudar o que já tinha dado." E nem mesmo a possibilidade prevista pelo Governo de receber o material por correio faz sentido neste pedaço de terra pacato do interior. A carteira passa com pouca frequência, "a aldeia tem poucas pessoas e não há praticamente cartas para distribuir".

A mãe, Maria João Fernandes, confirma. "Hoje é quinta-feira e esta semana ainda não passou aqui a carteira. Não sei se não há correio ou se juntará para depois distribuir..."

Contas que deixam um amargo de boca

Nesta fotografia aparentemente estática do Portugal rural, aparecem, como extraterrestres, duas antenas de rede móvel, que foram instaladas há um ano e meio, mas só emitem sinal para dois terços do território da freguesia. É António Teixeira, presidente da Junta, que o conta à TSF. "Há um ano e meio, a ANACOM conseguiu que se colocassem lá duas antenas que cobrem dois terços do território. Fizeram isso sem me consultar e ficou assim. A rede funciona bem para números 91."

O sinal funciona com limitações e só para alguns dos 400 habitantes de Tresminas, a freguesia de que Ribeirinha e outras oito aldeias fazem parte. "Se tivessem escolhido outro sítio, talvez o sinal funcionasse para todos. Estamos a falar de uma minoria da população, mas vivem lá pessoas."

É uma luta que tem seis anos. António Teixeira defende que o Governo deveria assegurar a instalação de rede móvel e lá atira com alguma amargura: "É natural que se faça este tipo de contas. Não há população, não há investimento."

"Nós já estávamos de quarentena"

Fábio Fernandes está mais conformado. A mãe, do outro lado da linha de um telefone fixo, diz à TSF que isto para ele "são férias, sem ser". Todos os dias Maria João Fernandes aponta o caminho dos livros ao filho, e é a custo que o adolescente se vai perdendo num rasto de saber. A PlayStation ganha sempre a batalha por protagonismo.

"Lá vou passando com os meus pais, e, às vezes, com os meus primos, ou a jogar. Não vou para a internet porque não tenho." Só que Fábio Fernandes está no 11.º ano e sabe navegar online; foi algo que aprendeu no agrupamento de escolas de Vila Pouca de Aguiar e aproveita para fazer nos intervalos. Sem atividades letivas, também a vida social fica para trás, mas tem dificuldade em expressar uma solidão que lhe é tão familiar. Há em Ribeirinha mais vacas, burros e galinhas do que pessoas, e há também o peso do abandono.

Miguel Torga, que não ignorava a beleza da terra e de florirem "em redor todos os campos de pousio", também escreveu: "Mais um palmo a separar-me dos outros, já que a vida não passa de um progressivo distanciamento de tudo e de todos, que a morte remata." Quando o isolamento social foi aconselhado a todo o território nacional, a notícia, recebida apenas através das televisões das famílias, não causou particular espanto, conta António Teixeira. "Até já brincamos com o assunto. Nós já estávamos de quarentena, agora puseram-lhe um nome. Nas aldeias, já estávamos isolados."

O presidente da Junta brinca, mas as palavras traem-no e denunciam preocupação. António Teixeira quer trazer os jovens à sociedade, mundializá-los, "para que não fiquem estagnados na ruralidade dos progenitores". Agora estão parados a escola, o centro de apoio ao estudo, a catequese, ou seja, "todos os espaços em que eles socializavam", e não há um lugar virtual que acolha as conversas.

Maria João Fernandes não atira os receios para tão longe, quer ver o ano cumprido. "Tenho a certeza absoluta de que isto atrasa aprendizagem do meu filho", lamenta a mãe, que diz não ter sido avisada de qualquer iniciativa de ensino à distância. "Eu perguntei: 'Ó filho, quando a escola terminou, o que te disseram?' E ele disse-me que os professores não lhe disseram nada..."

Fazer chegar um sinal

António Teixeira leva 40 minutos a percorrer as nove aldeias remotas de Tresminas, onde vivem apenas 20 estudantes do ensino primário e secundário. É por este número tão curto que António Teixeira, o presidente da Junta, tem tentado distribuir o esforço, agora que o encerramento de escolas veio encetar um novo golpe à socialização e à aprendizagem. Ainda não chegou a todos, mas está a ajustar-se para conseguir oferecer sopros de vida em formato de folhas escritas. "Alguns professores enviam-me por e-mail os trabalhos de casa e eu faço chegar os conteúdos a alguns em suporte de papel. O estudante faz o trabalho de casa e depois envia-o."

"Espero que haja bom senso para que não deixem os miúdos perder o ano", apela o presidente da Junta. No dia 9 de abril, o Governo voltará a avaliar a decisão do fecho de escolas, e os transmontanos estarão de olhos postos em António Costa. "O primeiro-ministro diz que agora no dia 9 decidirá se vai haver abertura das escolas, mas eu não sei o que deve ser feito", reconhece Maria João Fernandes.

O filho gostava que a reabertura fosse anunciada, mas acredita que a decisão deve depender de "como estiver a situação". O novo coronavírus nunca está presente no seu discurso, e acredita mesmo que até a Covid-19 perdeu as coordenadas de Ribeirinha.

"A gente não pensa nisso. Nós aqui na aldeia cuidamos dos animais, temos de cuidar todos os dias. Às vezes, temos de ir a Vila Pouca de Aguiar buscar cereais para os animais e medicamentos para os meus pais." O alheamento que Maria João Fernandes demonstra em relação à pandemia é, curiosamente, proporcional ao que revela pelo mundo digital. "Temos telemóvel, mas só para quando saímos. A internet...nem sabemos o que é, porque não estamos habituados."

Mas Fábio Fernandes já conhece esse mundo para lá do que os seus olhos agora conseguem ver, e não hesita quando a pergunta é se o Governo deveria garantir que a internet chegasse à sua porta. O adolescente não quer ser especial, quer que a rede de partilha de informação seja uma regra: "Neste sítio e noutros lados. Não deve ser só aqui que não há internet, e devia haver para todos."

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