dia da saúde mental

A síndrome do palhaço triste existe mesmo? O outro lado de quem nos faz rir

Quando sobem a palco, ou nos entram casa adentro pela rádio ou pela televisão, os humoristas fazem-nos esquecer, ainda que por breves instantes, os problemas que nos consomem os dias. A cada gargalhada ficamos mais longe do trabalho que ficou por fazer, da conversa que ficou por acabar, mais longe da morte. Mas estarão também os humoristas a fugir de si mesmos? Será que há, da parte de quem produz humor, uma necessidade de compensação e um lado negro e depressivo? A chamada síndrome do palhaço triste será um mito ou uma realidade?

Joana Gama é perentória. Para a comediante, os humoristas têm "uma tendência maior para ter um maior diálogo interior e mais depressivo". Ela mesma vê no humor uma forma de validar a sua existência: "Acho que as pessoas são encaminhadas para papéis que querem desempenhar consoante as necessidades que sintam, as carências que tenham. No meu caso, eu sinto uma enorme necessidade de validação e, portanto, nada mais objetivo e concreto do que a gargalhada... é um efeito muito repentino e imediato do meu trabalho e da minha existência", começa por contar à TSF.

A coautora do videocast Banana Papaia e do blogue A Mãe É Que Sabe vai mais longe e acredita que "quanto mais estilhaçados os humoristas estejam por dentro melhor a qualidade da comédia, melhor a autenticidade". Joana Gama admite, contudo, que procura provas de que todos os humoristas são assim para se "sentir melhor".

Visão diferente tem Guilherme Fonseca. O stand up comedian e guionista de programas de humor como o Gente Que Não Sabe Estar já chegou a pensar que "uma pessoa para ter necessidade de fazer rir era porque tinha alguma tristeza na vida".

"Eu próprio relacionei-me um bocado com isso, porque só comecei a ter vontade de fazer rir as pessoas quando na minha vida comecei a ficar desconfortável fosse com a separação dos meus pais, fosse por ter saído de Lisboa onde deixei os meus amigos. Há alguns pontos em que noto que as pessoas mais tristes ou mais depressivas são as que têm necessidade de fazer rir", conta.

Hoje, a perspetiva de Guilherme Fonseca é menos radical. Apesar de considerar que os comediantes que sobem a palco para entregarem piadas - os stand up comedians - têm "um defeito de personalidade", e de sentir que é mais difícil produzir quando a vida "está 100% na boa", vê a comédia como "um trabalho" que tem de ser feito "quando as coisas estão a correr bem ou a correr mal".

Os óculos mágicos do humorista

O ponto de vista de Guilherme Fonseca é partilhado pelo professor de Psicologia Social e de Gestão de Recursos Humanos no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Luís Miguel Neto. O especialista em psicologia positiva defende que os humoristas são uns "autênticos trabalhadores" com a capacidade de desconstruir a realidade e criar um universo alternativo.

"Esta ideia de que a pessoa que faz humor, o palhaço, é necessariamente um ser humano triste está a ser progressivamente cada vez mais desmentida (...) O humorista é a pessoa que tem a capacidade de ver alternativas nas circunstâncias, de ver uma alternativa humorística e depois tem uma grande capacidade de trabalho, porque não é só ver as circunstâncias risíveis com que se deparam, é também trabalhar sobre elas", explica o psicólogo.

Guilherme Fonseca - que é também coautor do podcast Terapia de Casal - descreve os humoristas como seres obcecados por distorcer o mundo, como se tivessem óculos mágicos: "Quando põem os óculos as outras pessoas continuam na vida normal delas e nós vemos coisas que elas não veem e precisamos de lidar com isso. E o precisar de lidar com isso é uma mistura de eu preciso de falar destas coisas para ficar bem com elas. Eu preciso de tratá-las comicamente para elas fazerem sentido e eu conseguir dormir um bocadinho à noite."

O psicólogo Luís Miguel Neto sublinha que a síndrome do palhaço triste não é um distúrbio reconhecido pela ciência, mas sim uma ideia com raízes profundas na psicanálise que tem perdido força nos últimos tempos. As emoções de um humorista são, portanto, como as emoções de qualquer pessoa: uma montanha russa.

"A ideia de ciclos, de altos e baixos, de estados ou fases positivos e de estados ou fases negativos é uma característica de toda e qualquer pessoa. Habitualmente, a nossa consciência só marca uma das fases do ciclo que estamos a atravessar e, portanto, é natural que grandes humoristas e grandes palhaços também passem por fases de grande depressão", defende.

Fazer piadas é uma forma de fugir dos problemas?

Em 2014, Guilherme Fonseca decidiu rir do impossível e escreveu um solo de comédia sobre a morte do pai. O espetáculo "Pessoa" não foi, contudo, o seu luto: "Quando as pessoas me perguntam por que raio é que eu fiz um espetáculo sobre isso, eu costumo dizer que se eu fosse padeiro e me morresse um pai, se calhar, eu fazia um bolo em homenagem. Sendo eu humorista, a maneira que eu tenho de lidar com uma notícia horrível na minha vida é essa. É escrever piadas sobre isso. É a maneira que eu tenho de encontrar sentido nas coisas que me magoam ou me afetam."

Joana Gama também não vê a criação de humor como uma forma de fugir aos problemas, vê a piada como uma inevitabilidade: "Não é ponderado. É como se fosse uma tensão que tem de sair. Se repararmos, os primeiros textos dos comediantes estreantes são, geralmente, sobre os seus piores preconceitos e os seus piores medos e inseguranças, porque é o que está mais próximo, mais à superfície."

Já o psicólogo Luís Miguel Neto acredita que a comédia pode ser um desafio dos limites e uma forma de tornar a vida e as relações humanas mais leves: "Sempre que o humor está implicado nos negócios humanos isto quer dizer que há uma alternativa que é possível. A realidade é o que é, mas pode ser diferente. O humor diz-me, basicamente, 'podes rir-te de tudo'."

Por isso, remata, "podes rir-te da morte, podes rir-te do sofrimento, podes rir-te de tudo e eu não conheço nada mais libertador do que o humor". Palavra de especialista.

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