Abandono escolar no ensino superior é maior entre alunos mais desfavorecidos

Para muitas famílias o ensino superior continua a ser visto como um investimento com retornos incertos no longo prazo e por isso muitos alunos são forçados a entrar mais cedo no mercado de trabalho para aumentar o rendimento familiar.

O abandono escolar no ensino superior é mais elevado entre os alunos mais desfavorecidos, segundo um estudo que alerta para o facto de as famílias portuguesas fazerem um esforço financeiro acima da média europeia.

Num país onde cada vez mais alunos frequentam o ensino superior, os investigadores do Edulog quiseram perceber se essa massificação do acesso tinha conseguido combater as desigualdades na permanência ou abandono dos estudos.

Os resultados divulgados esta segunda-feira mostram que não: "Quanto menos favorecido é o contexto socioeconómico do estudante, maior é a taxa de abandono", revela o estudo do Edulog 'Estudantes nacionais e internacionais no acesso ao ensino superior'.

O estudo da iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo aponta vários motivos para o problema, entre os quais o custo que representa para uma família ter um filho a estudar no ensino superior: em Portugal, "alguns dos fatores responsáveis pelo abandono prendem-se com as condições socioeconómicas do país", lê-se no documento.

Alberto Amaral, membro do Conselho Consultivo do Edulog e porta-voz do estudo, contou à Lusa que "para as famílias portuguesas a frequência no ensino superior representa um peso no seu orçamento superior à média da União Europeia, uma situação que é ainda mais agravada porque os portugueses têm rendimentos inferiores".

Para Alberto Amaral o problema poderia ser minimizado com a atribuição de mais bolsas de estudo: "As bolsas de estudo são atribuídas apenas a famílias claramente desfavorecidas, que têm rendimentos extremamente baixos. Os alunos de famílias de classe média não têm acesso", disse à Lusa Alberto Amaral.

O ex-reitor da Universidade do Porto nas décadas de 1980 e 1990 referiu que nos países nórdicos, "todos os alunos têm um salário que os tornam independentes da família".

No entanto, esta não é a solução defendida por Alberto Amaral para Portugal - "porque seria uma despesa incomportável" - mas sim o alargamento de acesso às bolsas a mais alunos e "o aumento substancial do seu valor".

No ano passado, o Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior valor a subir o valor da bolsa mínima (ficou em 871 euros), alargou o universo de bolseiros e reforçou o complemento de alojamento para quem estava a estudar fora da sua residência. Mas para Alberto Amaral é preciso fazer mais.

O estudo divulgado esta segunda-feira explica que para muitas famílias o ensino superior continua a ser visto como um investimento com retornos incertos no longo prazo e por isso muitos alunos são forçados a entrar mais cedo no mercado de trabalho para aumentar o rendimento familiar.

Mas existem outras razões por detrás do abandono escolar precoce. O estudo alerta para o facto de o acesso ao ensino superior ainda não ser igual para todos: os jovens de meios mais favorecidos têm mais hipóteses de conseguir um lugar num curso superior mais procurado e por isso com médias de acesso mais elevadas.

Os investigadores do Edulog concluíram que os alunos que conseguem entrar no curso que escolhem como primeira opção no momento da candidatura ao ensino superior são os que menos abandonam os estudos.

Assim como a satisfação do estudante é um fator favorável à sua decisão de se manter na escola.

O estudo indica ainda que também os subsistemas, tipos de curso e áreas de formação influenciam a taxa de abandono no ensino superior, sendo, em média, menor no sistema universitário do que no ensino politécnico.

A taxa de abandono é mais baixa nos cursos de mestrado integrado (3,5%) e de licenciatura de 1º ciclo (8,8%), e mais elevada nos cursos técnicos superiores profissionais (CTeSP) e mestrados de 2º ciclo, com 18% e 15,8%, respetivamente.

Já as áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática apresentam taxas de abandono inferiores (5,7%), quando comparadas com as restantes (9,7%).

Alberto Amaral recorda que há cada vez mais alunos no ensino superior que são oriundos de famílias socioeconómicas desfavorecidas, mas, regra geral, não entram "para os melhores cursos nem para as melhores instituições".

Além da alteração das condições de atribuição de bolsas de ação social e do seu valor, o estudo defende outras recomendações como o reforço da oferta formativa.

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