Antigo povoado galego à vista no leito seco do rio Lima

Aldeia de Aceredo, no município de Lóbios (Galiza), ficou submersa em 1992, após construção da barragem do Alto Lindoso. Nos últimos meses tornou-se ponto de visitação e trouxe de volta a saudade de antigos moradores.

A palavra saudade é uma constante na boca de Mariana Alonso de 84 anos de idade, desde que há 30 anos a sua velha aldeia de Aceredo, no município de Lóbios (Galiza), foi submergida contra a vontade da população por causa da construção da Central Hidroelétrica do Alto Lindoso, em Ponte da Barca. A barragem começou a operar em janeiro de 1992 e o povoado desapareceu sob as águas. Mas não para sempre. Nos últimos meses, os caudal do rio Lima secou a níveis nunca vistos e deixou à vista o que Mariana quer esquecer.

"Lembro-me de muitas coisas e tenho muita mágoa. Não posso suportar a mágoa que tenho no coração. Todos ficamos muito tristes e com muitas saudades", recorda a antiga moradora, que trinta anos depois tem bem presentes as memórias da casa da mãe Maria e as brincadeiras de criança pelos caminhos que agora são leito de rio seco.

Em janeiro de 1992, o Lima submergiu a sua velha casa de família.

"Era da minha mãe. Tínhamos uma habitação com 10 ou 11 quartos, porque éramos muitos. A minha mãe Maria Alonso teve seis filhos. Eu vivi ali até aos 27 anos de idade", recorda, lembrando ainda que, na época em que esta desapareceu sob as águas, vivia com o marido Cândido Rodriguez em Vigo, mas passava férias e fins de semana com os familiares na velha Aceredo.

Fala da antiga igreja de Aceredo que "desmontaram pedra por pedra e levaram para Compostela" e do cemitério que viu ser esvaziado antes de a aldeia ser submergida. "Vieram homens com ambulâncias e tiraram os mortos todos, os caixões e os ossos e viemos os familiares vigiar para que não nos levassem os nossos", recorda.

Mariana e o marido construíram casa e ficaram a viver numa zona alta daquela região galega que ficou batizada por Nova Aceredo. Fica situada a escassos quilómetros do velho povoado. Por isso, a octogenária assiste à distância o seu reaparecimento com a seca.

"É a primeira vez que está assim. Baixou muitos anos, mas nunca se viu tanto como se vê agora. Há uns dias, os meus filhos entraram na nossa casa, estiveram na adega e trouxeram uns 'cacharros (loiças)' para guardar de recordação", conta, acrescentando: "Está assim desde setembro, mas creio que agora é quando está a água mais baixa. Um dia tem um bocadinho de água, mas no outro dia já não tem nada. Penso que as máquinas [da barragem] estão a trabalhar a toda a marcha."

Situado no município de Lóbios, pertencente à província de Ourense, a cerca de 15 minutos (de carro) da fronteira de Lindoso, o fantasmagórico aglomerado de casas colocado a descoberto pela seca, tornou-se destino de curiosos. "Viemos de propósito. Ouvimos falar disto pela televisão e uns nossos amigos aqui de perto também nos disseram", contaram Justiniano e Alzira Rocha, um casal de ex-emigrantes, que se deslocou de Braga para conhecer a velha Aceredo. O extenso casario sem telhados, portas e janelas, e paredes escurecidas pela lama do fundo do rio, mexe-lhes com as emoções.

"É impressionante. É lindo, mas impressiona", comenta Alzira. E o marido, completa: "Está fantástico, mas é triste. Sei que é a evolução da vida, mas imagino as pessoas que viviam aqui, hoje voltarem a ver conforme está, deve ser uma tristeza enorme." Que o diga Mariana Alonso, que nunca mais voltou à aldeia.

"Vejo-a de longe e chega-me bem. Não tenho coração para ir ali. Traz-me muitas saudades", desabafa de olhos molhados.

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