Barragem de Santa Clara a menos de metade. Pequenos produtores sem água

A Associação de Beneficiários do Mira cortou a água aos pequenos agricultores que há décadas se abasteciam no canal de rega ligado à albufeira.

A ameaça já tinha sido feita no início do ano, mas, há algumas semanas, António Guerreiro viu-a concretizada. "Cortaram sem um aviso, tiraram o contador e os tubos de água e pronto", conta. "Há trinta e tal anos que vivo aqui e sempre tive água", lamenta. António vive em S. Miguel, no concelho de Odemira, e tem um pequeno quintal onde planta alguns hortícolas que lhe dão para o gasto da casa e ajudam na magra reforma.

A albufeira que abastece toda esta zona do sudoeste alentejano é a Barragem de Santa Clara, que, ainda antes do início do verão, já se encontra a 49% da sua capacidade. Devido à escassez de água que cada vez mais se faz sentir nesta zona, a Associação de Beneficiários do Mira (ABMira), o organismo que gere a albufeira, decidiu cortar a água a pequenos produtores. Agricultores a que chamam "precários" e que se encontram fora do perímetro de rega do Mira. No entanto, são agricultores que há décadas retiram e pagam a água para as suas hortas do canal que vem da barragem. É o caso de Manuel Rocha. "Sempre nos foi autorizado, metemos a tubagem e há 40 anos gastei 15 contos, que era muito dinheiro", explica. "Agora está tudo a secar, aí nos quintais."

Manuel e António consideram que o que lhes está a acontecer é consequência do consumo excessivo de água feito pela agricultura intensiva praticada na zona. "Não tem chovido, a barragem tem pouca água, mas para as estufas a água não pode faltar", diz António. "Os pequenos é que ficam sempre na mó de baixo", afirma com tristeza. "Já se devia ter parado de fazer estufas há muito tempo", sentencia Manuel. "Se há pouca água devíamos preservá-la!"

O dedo acusador de ambos os agricultores é apontado ao mar de estufas que tem crescido no litoral alentejano. Mário Encarnação vive junto ao Parque Natural e pertence ao Movimento Juntos pelo Sudoeste, que luta por políticas sustentáveis para a região.

Lembra que dantes eram estes pequenos proprietários os beneficiários da água. "Há 20 anos, eram estas pessoas que consumiam a água e agora deixaram de ser clientes importantes", conta.

Diogo Coutinho, que vive sobre a barragem de Santa Clara, vê o seu caudal diminuir de dia para dia. "Nota-se que cada vez sai mais água para irrigar as estufas do litoral e nós, que vamos lá abaixo à barragem quase diariamente, notamos essa descida", diz.

Com as alterações climáticas, anos cada vez mais secos e uma agricultura intensiva que consome grande parte da água da barragem, as críticas do Movimento Juntos pelo Sudoeste dirigem-se também para as perdas de água que se verificam entre a albufeira e os consumidores finais. E para os consumos impraticáveis face à quantidade armazenada. "Os dados de 2019 da ABM dizem que saíram da barragem 60 hectómetros cúbicos e só entraram 14, está a ver o que isto é?", lamenta Mário.

Laura Cunha, moradora no concelho de Odemira, considera que já é tempo de parar e pensar o modelo de desenvolvimento que está a ser levado a cabo nesta zona do país. "Nós não estamos contra a agricultura, mas ela deve ser feita de forma pensada", adverte.

O lamento de António Guerreiro é o de todos os pequenos agricultores da Costa Vicentina e sudoeste alentejano. "Melhoras não vamos ter nenhumas, cada vez chove menos e isto está tudo seco."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de