Brigadas rápidas criadas pelo Governo chegaram tarde a lar onde morreram 21 idosos

Apoios, inclusive da Segurança Social, foram sobretudo "morais". Funcionárias estão "de rastos".

O ambiente no lar da Associação do Hospital Civil e Misericórdia de Alhandra é de luto, consternação e dor. A Covid-19 já matou 21 idosos, fazendo deste o lar com mais vítimas mortais em Portugal, desde o início da pandemia, ultrapassando o polémico caso de Reguengos de Monsaraz - onde morreram 18 pessoas.

O provedor, José Alves, desabafa à TSF que não fazem ideia como é que o vírus ali entrou. Cumpriam todas as medidas de segurança, garante.

O SARS-CoV-2 foi detetado a 5 de novembro. Depois disso foi um "rastilho" e um mar de pedidos e promessas de ajuda que se ficaram pelos "apoios mais ou menos morais..." que foram chegando, mas poucos e a conta gotas.

As brigadas de intervenção rápida para surtos da Covid-19 em lares, equipas criadas pelo Governo no início de setembro e geridas pela Cruz Vermelha, depois das críticas à resposta das autoridades de saúde no caso de Reguengos, demoraram pelo menos uma semana a chegar a Alhandra.

"Não foi fácil", conta o provedor. "Depois de muito esforço, conseguimos o apoio da Segurança Social, através da Cruz Vermelha, que enviou as brigadas de intervenção rápida, com dez elementos, algo que ajudou imenso, pois metade dos trabalhadores já estavam infetados e já tínhamos de ter pessoas que não eram cuidadores a trabalhar ali dentro".

O problema é que, na última sexta-feira, esse apoio das brigadas rápidas foi reduzido para três pessoas, apesar dos pedidos para que as restantes continuassem num lar que está transformado num verdadeiro hospital.

Com apenas três pessoas das brigadas de intervenção rápida, o lar tem, em paralelo, quase metade da força de trabalho habitual em casa - 24 colaboradores infetados ou em isolamento profilático.

Outro apoio da Segurança Social chegou através de um programa de inserção que colocou cinco pessoas a trabalhar no lar, mas "logo de início, um foi-se embora, três meteram baixa e só ficou um. Vão-nos enviando pessoas que, quando sabem que existe covid, não querem trabalhar".

"Apoios morais"

"Os apoios morais vieram de toda a gente", diz José Alves, que acrescenta que "toda a gente ao telefone ou noutros lados diz que nos dá muito apoio e a gente diz aquilo que precisa: recursos humanos e equipamentos de proteção, mas isso tem faltado. Até metem cá pessoas, mas as pessoas vão embora e ficam cá os mesmos".

As brigadas de intervenção rápida chegaram "tarde", pois "uma semana para nós é muito tempo. Não podemos adiar os banhos que temos de dar às pessoas, a comida...", refere o provedor.

"Imaginem o que se passa na minha cabeça e, acima de tudo, na cabeça das nossas colaboradoras, que conviveram tantos anos com aqueles avós, com as brincadeiras, festas, cantigas... e, de um momento para o outro, não é um, nem dois, nem três que partem...", diz José Alves, que afirma que estão "completamente de rastos e sentem uma impotência muito grande", sabendo que o número de mortes deve aumentar pois "ainda há gente muito idosa, em estado grave, no hospital".

LEIA TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de