Ana Margarida Soares, Constança Sá e Catarina Pires
Combate à corrupção

"Coisa má" e "abuso de poder" que "não existe apenas nos altos cargos". A corrupção aos olhos dos jovens

Um powerpoint e uma exposição sobre corrupção, lobbying ou tráfico de influências. Foram estes os temas trabalhados pelos alunos da Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Benfica. Em português, na matemática ou na filosofia, todas as disciplinas podem incluir atividades para sensibilizar os mais novos para os perigos da corrupção. As candidaturas para a segunda edição do programa RedEscolas Anticorrupção acabam a 31 de outubro.

Catarina, Constança e Ana Margarida são alunas de 12.º ano na Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Benfica. No ano letivo passado, participaram na primeira edição do programa RedEscolas Anticorrupção, um "projeto-piloto" que pretende alertar para a corrupção em Portugal, começando pelos mais novos.

Para Catarina Pires, de 17 anos, a corrupção é "uma coisa má" e que "prejudica muito o país". "É algo que deve ser falado, nenhum país devia sofrer com a corrupção", diz à TSF. Já Constança Sá, de 16 anos, considera que a corrupção "não existe apenas nos altos cargos da sociedade", mas também "todos os dias na escola ou no telejornal assistimos a casos de corrupção" e sublinha que se não tivesse falado sobre o tema durante o programa RedEscolas Anticorrupção, "não teria noção da gravidade que pode ter no nosso quotidiano". Também Ana Margarida Soares, de 16 anos, indica que "é um tema importante para falar e sensibilizar o resto dos alunos" e explica que, para ela, a corrupção é "um abuso de poder em geral".

Nesta turma, foram desenvolvidas duas atividades: um powerpoint e uma exposição no dia 9 de dezembro (Dia Internacional Contra a Corrupção) para alertar os outros alunos sobre "o quão grave a corrupção pode ser no meio quotidiano", explica Catarina.

Ana Margarida dá um exemplo daquilo que tentaram retratar nos trabalhos: "Uma manifestação que observei à porta da Assembleia, onde estava um senhor a fazer greve de fome para mostrar o seu descontentamento, porque lhe tinham retirado os meios de trabalho. Era um pescador e tinham-lhe retirado o barco, porque necessitavam desse dinheiro para fazer outras coisas."

As atividades foram realizadas em várias disciplinas, como o português, a matemática ou a filosofia. A professora de português, Rita Martins, explica à TSF que a cidadania e o desenvolvimento é "uma área que todas as disciplinas têm ou devem trabalhar durante o ano".

Em português, a professora relacionou o tema da corrupção com o programa da disciplina, através da obra literária "Sermão de Santo António aos Peixes", do padre António Vieira, que é, "precisamente, sobre corrupção na época dos jesuítas e da colonização na América do Sul". "O polvo, que foi utilizado na nossa exposição, é tido como um ser hipócrita que só espalha mal pelos mares. É um caso de corrupção que acaba por ser referido no programa de português e é uma forma de percebermos que a corrupção não está só no poder, mas também nas ínfimas coisas do nosso dia a dia", completa Constança, que destaca ainda a importância do trabalho feito em matemática com "os gráficos enganosos".

"Por exemplo, gráficos sobre a Covid e a propagação da doença por mil habitantes. Os gráficos davam a entender que havia uma propagação gigante, mas se nós fossemos ver a escala do gráfico, um dos gráficos estava com uma escala muito mais pequena do que a outra", sustenta.

A professora adianta que foram debatidos alguns conceitos como a definição de corrupção, os tipos de corrupção, o lobbying e o tráfico de influências. "O meu trabalho essencialmente foi sensibilizá-los para o tema, tanto que só consegui mobilizar esta turma. É difícil motivá-los para este tema, a grande conquista foi esta primeira abordagem ao tema e eles começarem a pensar sobre o tema", conta.

Rita Martins defende que é importante que este tema seja discutido nas escolas. "Alguém tem que falar da corrupção, eles [os alunos] têm esta noção que a corrupção é política, mas não. Há corrupção no desporto, há a pequena corrupção e têm havido tantas campanhas e algumas iniciativas para combater esta corrupção mais pequena porque afeta-nos a todos e às vezes não temos essa noção e todos somos de alguma forma coniventes, nem que seja pela inércia, por não fazermos nada. Acho que é importante começarem a ter esta noção, não é uma coisa dos "Rendeiros" deste mundo nem dos grandes bancos. Isso, de facto, não está ao nosso alcance, o que está ao nosso alcance é a pequena corrupção do dia a dia e um dia, quem sabe, elas vão ser pessoas influentes a outros níveis que possam contribuir de uma forma mais visível e com maior impacto. Acho que a escola tem um alcance em termos da juventude que mais nenhuma instituição tem, porque eles passam todos por cá, além de ser uma questão de cidadania."

Também para a diretora da Escola Secundária José Gomes Ferreira, Rosária Alves, é fundamental que as escolas trabalhem este tema com os mais jovens. "É importante desmistificarmos o que é isto da corrupção e que atitudes é que devemos ter para prevermos e prevenirmos uma corrupção futura. Não é um ataque político nem a um quadrante nem a outro, é incutirmos nos nossos alunos o que devem ser as atitudes corretas dentro das várias instituições que nos rodeiam", refere.

Foi por isso que a escola decidiu candidatar-se ao programa. "Vivemos numa sociedade que queremos que seja inclusiva, numa escola que queremos que seja inclusiva, para nós a inclusividade significa também transparência e todos os valores à volta deste conceito. Achamos que era um projeto interessante para aderirmos", conta à TSF.

Catarina considera que a discussão sobre o tema na escola permitiu-lhe conhecer melhor o "mundo lá fora". "Muitas vezes estamos fechados na nossa bolha de adolescência e não temos noção do que é a vida adulta, o que é a corrupção, o que é a vida política, o que é trabalhar. É sempre importante falar de todos os males que existem lá fora e que temos que estar preparados para quando sairmos daqui porque vamos viver com aqueles males que nos vão afetar diretamente."

Ao participar no programa RedEscolas Anticorrupção, Catarina reconhece que percebeu que "a corrupção não é algo simples, é algo que envolve muitas pessoas. Às vezes, até nós, adolescentes, de uma forma mais simples e inocente, podemos praticar a corrupção com os nossos colegas e amigos. Este projeto ajudou-nos a ter uma melhor noção do que é a corrupção, os tipos que existem e como ela pode afetar os nossos dias", admite.

Constança aprendeu a "ter um olhar diferente para as coisas e a perceber que a corrupção pode efetivamente estar em qualquer sítio". Ana Margarida concorda com as colegas e garante que aprendeu "muitas coisas". "Quer queiramos, quer não, isto vai ser um assunto que vai estar sempre na sociedade e cabe-nos a nós, agora pessoas informadas, arranjar maneira para podermos tornar a nossa sociedade um bocadinho melhor e evitar estas coisas. Dá-nos uma força de vontade maior para, no futuro, podermos fazer a diferença."

De acordo a diretora Rosária Alves, o sucesso da primeira edição do programa nesta escola "foi tanto" que vão voltar a participar na segunda edição, cujas candidaturas terminam esta segunda-feira, dia 31 de outubro. E, desta vez, o projeto será alargado a mais turmas: serão cinco a participar com alunos ligados à área de ciência política e economia.

RedEscolas Anticorrupção: um programa "pioneiro" que quer "contagiar" alunos, pais e professores "para construir uma cultura de integridade"

O programa RedEscolas Anticorrupção é uma iniciativa da Associação All4Integrity. Alexandre Abrantes Neves, diretor do projeto, explica à TSF que o objetivo é "conseguir contagiar toda uma população a partir da escola" para a importância do tema e "tornar Portugal numa referência no combate à corrupção".

"Os jovens interessados pelo tema podem ser um veículo quase dinamizador e de alerta de consciência para a temática da corrupção", considera Alexandre Neves.

O tema principal é a corrupção, mas o diretor do programa RedEscolas Anticorrupção avança que há vários conceitos que podem ser trabalhados em sala de aula: a corrupção ativa, passiva, tráfico de influências, suborno, despotismo, porta giratória, os atores e instituições que são chamados na prevenção e no combate e as consequências da corrupção. Temas que podem ser discutidos em qualquer disciplina, tal como fizeram os alunos da Escola Secundária José Gomes Ferreira, que o debateram em português e matemática.

O programa está dividido em três missões: a primeira é a divulgação e promoção do projeto dentro das escolas, por exemplo, "nas reuniões de diretores de turma, nos conselhos de turma, nas reuniões de professores, um pai que se cruza com o programa nas redes sociais ou na imprensa e que propõe ao diretor de turma do seu filho". Na segunda missão, arranca o trabalho com os alunos para "desmistificar estes conceitos além da inflamação dos escândalos mediáticos". Há diversos trabalhos que podem ser feitos com os estudantes: a criação de um logótipo ou símbolo anticorrupção, trabalhos de grupo, debates, tertúlias, entrevista ou palestras com algum especialista no tema. Depois, há ainda uma terceira missão, que é opcional, em que os alunos devem "sair da sala de aula e da zona de conforto e perceber, na prática, no quotidiano, no dia a dia, onde é que se encontram" casos de corrupção.

"Queremos que os alunos se aproximem do poder local e do poder central e que percebam como é que a corrupção, por um lado, já pode ter estado presente na sua junta de freguesia ou câmara municipal, como é que se reagiu a um caso de corrupção, como é que se investigou, que canais de denúncia existem. [Por exemplo], passar um dia com um vereador, com o presidente da junta ou da câmara e perceber como é que o dia a dia de um autarca e como é que a questão da corrupção e da transparência faz parte das suas funções diárias. Também um contacto com o poder central: convidar um deputado, um ministro, um secretário de estado, um líder parlamentar para uma conversa, uma palestra, um debate ou uma masterclass; perceber quais são os papéis do Parlamento, do Presidente da República, do Governo. Também a nível internacional, do Parlamento Europeu, do Conselho Europeu, do Conselho da União Europeia na prevenção e na luta contra a corrupção", sublinha o responsável.

Alexandre Neves reconhece que nem sempre é possível às escolas participar nesta terceira e última missão que decorre no segundo e terceiro períodos letivos. "É uma missão opcional porque sabemos que há escolas que não têm tanta facilidade em contactar com o poder local e central."

Foi o que aconteceu com a Escola Secundária José Gomes Ferreira, que não conseguiu aderir à terceira missão por ter apenas uma turma a participar. No entanto, com cinco turmas envolvidas na segunda edição, o objetivo é que, desta vez, consigam ir até ao fim do programa.

Todas as escolas portuguesas podem aderir ao programa RedEscolas Anticorrupção, incluindo "escolas que, no estrangeiro, que lecionem a disciplina do português", como a escola portuguesa de Macau que participou no ano passado. Basta apenas preencher o formulário de adesão no site da All4Integrity, que tem de ser assinado pela direção da escola. Depois, o documento é enviado para a equipa responsável pelo programa e, "estando tudo em conformidade, a escola receberá um e-mail de confirmação e poderá, desde logo, começar a implementar o programa".

No final de cada missão, as escolas têm de apresentar "evidências" do trabalho realizado. "Não é nada de muito extenso, é preencher uma tabela em que se diz que atividade fez, com que anos, em que disciplinas, um breve descritivo dessa atividade e anexar uma imagem, um vídeo, um powerpoint ou um guião de entrevista, que fazem prova que a atividade ocorreu e que estava relacionada com a corrupção e não com outro tema qualquer", explica Alexandre Neves, sublinhando que "essas evidências são todas validadas e não avaliadas".

"Não há trabalhos bons, nem trabalhos maus. O impacto não é quantitativo, não estamos a fazer uma avaliação de 0-100, de 0-5 ou de 0-20, é um impacto qualitativo."

E há prémios para os participantes: "Na nossa cerimónia final, cada escola vai receber o certificado de escola embaixadora anticorrupção, cada professor e aluno recebe um cartão identificador de aluno e professor embaixador anticorrupção e um selo digital de ouro ou de prata que pode utilizar nos seus documentos oficiais." A diferença entre o selo de ouro ou prata tem a ver com o número de missões desenvolvidas por cada instituição: "Uma escola que desenvolva a primeira e segunda missão recebe a prata; uma escola que desenvolva as três missões recebe o selo de ouro."

A Escola Secundária José Gomes Ferreira recebeu o selo de prata. A diretora Rosária Alves garante à TSF que "não queremos ficar pelo selo de prata". "Queremos chegar ao selo da categoria acima e portanto vamos trabalhar para podermos conseguir. Acaba por ser sempre um prémio que dignifica o trabalho dos alunos e dos professores do agrupamento de escolas de Benfica", diz.

Na primeira edição, que contou com uma cerimónia final no dia 6 de junho de 2022, participaram 17 escolas de norte a sul do país, e também na Madeira e em Macau, com quase 1350 alunos e 30 professores.

"O programa está desenhado para os alunos entre o 9.º e o 12.º anos de escolaridade por serem alunos com mais maturidade e poderem abordar este tema, mas qualquer escola que ache que faça sentido implementar o programa numa turma de 6.º, 7.º ou 8.º ano, pode falar connosco e será um assunto que analisaremos e, provavelmente, poderá participar. No ano passado tivemos uma escola de 8º ano que participou e apresentou projetos igualmente interessantes", afirma o responsável.

Na segunda edição, o objetivo passa pela expansão do projeto a mais escolas, "tanto dentro de Portugal, como na diáspora". E as escolas que participaram na primeira edição, podem voltar a candidatar-se, tal como vai fazer a Escola Secundária José Gomes Ferreira, que vai alargar a participação a mais turmas.

As candidaturas para a segunda edição do RedEscolas Anticorrupção encerram a 31 de outubro e, por isso, o diretor do programa deixa um apelo: "É um projeto inovador e pioneiro não só no sistema educativo português, mas também na questão de tratar o tema da corrupção em Portugal. É uma abordagem diferente e focada na prevenção, na alteração dos valores e dos comportamentos. Não queremos de modo algum associar o programa aos escândalos mediáticos, à inflamação política do fenómeno da corrupção, queremos sim, desde cedo, contagiar os alunos, os pais, os professores, para a luta contra a corrupção, de alteração de valores, de comportamentos e de construir uma cultura de integridade. Queremos lançar as sementes de uma cidadania participativa, esclarecida, ativa, autorreflexiva, que seja capaz de analisar e de perceber o que é um comportamento íntegro e o que não é."

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