A escola já teve mais de 200 alunos, hoje tem pouco mais de 120
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"É aqui que eu quero estudar." O entusiasmo por frequentar uma escola do interior algarvio

Desde a sua criação, há 28 anos a escola luta teimosamente por continuar. Uma forma de cativarem os estudantes é fornecendo-lhes transporte gratuito a partir de várias partes do Algarve.

A partir de agora e durante todo o ano letivo começam a ir do litoral para a serra e muitos fazem mais de uma hora de autocarro para chegar. No entanto, foi a escola que escolheram. Há quase seis meses que alunos, professores e funcionários não se viam. O reencontro é animado e, mesmo com o incómodo da máscara, as saudades de ver os colegas eram muitas. "Claro que eram", enfatiza Fátima. Esta aluna frequenta o curso de comércio na escola profissional Professor Cândido Guerreiro, em Alte. É um estabelecimento de ensino diferente. Ali todos se conhecem, é quase uma família.

Ninguém se atreve a estragar nada, a escola parece nova apesar de estar instalada naquele local já há 12 anos. É também um estabelecimento que tenta lutar contra a desertificação do interior serrano, tentando cativar os alunos para estudarem numa aldeia envelhecida, situada no sopé da Serra do Caldeirão.

O presidente da Junta de freguesia sublinha o papel que a instituição desempenha na dinamização da comunidade: "Os jovens dão um colorido e uma animação diferente à aldeia", garante António Martins.

Desde a sua criação, há 28 anos a escola luta teimosamente por continuar. Como refere a diretora pedagógica, uma forma de cativarem os estudantes é fornecendo-lhes transporte gratuito a partir de várias partes do Algarve. E isso faz toda a diferença. "Requer muitos recursos financeiros mas é a única forma de conseguirmos fazer este trabalho", afirma Tânia Teixeira. O diretor, Aníbal Coelho, explica que tentam "contrariar o modelo de desenvolvimento" levando os estudantes para o interior do Algarve. Muitas vezes esta escola recebe jovens que não se enquadram nos outros estabelecimentos de ensino. "Vêm para cursos profissionais para completarem a sua escolaridade e irem para o mercado de trabalho", explica o autarca. "Não têm grande vontade de estudar mas esta escola consegue reabilitá-los", acrescenta.

A escola profissional professor Cândido Guerreiro gosta de mostrar os seus êxitos e Ana Silva é um dos casos de sucesso. Foi aluna do primeiro curso de turismo ambiental e rural. Hoje, para além de ser funcionária administrativa naquele estabelecimento, criou raízes e o seu próprio projeto na aldeia, um Bike-café, por onde passam os muitos ciclistas que procuram a aldeia.

A escola é também diferente por ser propriedade de uma cooperativa de que fazem parte várias entidades: a Câmara Municipal de Loulé, a Junta de freguesia de Alte e a Associação de Desenvolvimento Local In Loco.

Por ali já se criaram cursos de construção civil, design gráfico e de técnicos de processamento e qualidade alimentar. Logo à entrada há uma prateleira com compotas, licores, amêndoas caramelizadas. "São produtos feitos pelos alunos", revela a professora Alexandra Pestana, que destaca o bombom de medronho como uma das especialidades da escola. Produtos confecionados nos três laboratórios existentes, todos bem apetrechados e que este ano, para desilusão da docente, não vão ter utilização visto que ninguém escolheu o curso de indústrias alimentares.

E esse é o grande problema: o cada vez menor número de estudantes. A escola já teve mais de 200 alunos, hoje tem pouco mais de 120. No entanto, para Bruna Mariquitos, que veio do centro do País para a Serra do Caldeirão de modo a frequentar o 12º ano do curso de turismo, esta é a sua escola do coração. "Fui a outras escolas e não me diziam nada e quando entrei aqui disse 'é aqui que eu quero estudar'", afirma a estudante. "Os professores são super acolhedores e a escola também, portanto adorei", diz com alegria.

Bruna levanta-se todos os dias às 06h00 e faz uma hora de autocarro até Alte. Poderia ser um esforço para uma jovem da sua idade, mas fala com tanto entusiasmo por estudar numa escola diferente que viajar até à Serra do Caldeirão até parece tarefa fácil.

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