E se nunca for encontrada uma vacina contra o novo coronavírus?

A OMS alertou esta semana que o vírus pode ficar entre nós durante muito tempo. Esse é o cenário que mais assusta os líderes mundiais mas os cientistas têm estudado essa possibilidade.

Olhando para o século passado há diversos vírus para os quais nunca foi encontrada vacina.

Em 1984, a secretária de Saúde dos Estados Unidos anunciou que os cientistas tinham identificado com sucesso o vírus da Sida, e previam que uma vacina estaria pronta para testes em dois anos.

Quase 4 décadas e mais de 30 milhões de mortos depois, o mundo continua à espera de uma vacina contra o VIH.

O mesmo acontece com o dengue e a malária que infetam e matam milhares de pessoas anualmente. Também tem sido difícil descobrir uma vacina para o adenovírus e para o rinovírus comuns que tal como o coronavírus podem ter sintomas parecidos com a gripe.

Até à descoberta de uma vacina era bom que o mundo tivesse um plano B. Ouvida pela TSF, Maria Neira, diretora do departamento de meio ambiente, alterações climáticas e saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que "o plano B tem de incluir as medidas que sabemos que resultam, como a lavagem das mãos, que é também benéfica para outros fatores de saúde pública". "Se toda a sociedade tiver este cuidado com a lavagem de mãos e se houver gel disponível nos locais públicos, acho que a nossa proteção vai melhorar."

Maria Neira acrescenta que "é preciso continuar a trabalhar noutros aspetos que fazem as nossas sociedades mais vulneráveis, reduzir o consumo de tabaco e a poluição do ar que afetam o nosso sistema respiratório". "Temos também de parar a destruição do nosso ecossistema, o que está muito ligado ao aparecimento de novos vírus."

A especialista da OMS defende que temos de aproveitar a crise que todos estamos a viver para vivermos em cidades com menos densidade populacional, e aponta a Nova Zelândia com um bom exemplo. Quanto maior é a densidade mas fácil é a transmissão dos vírus. É preciso criar cidades onde as pessoas tenham prioridade e os transportes privados sejam uma exceção.

Apesar de existir a possibilidade de não se encontrar uma vacina a diretora do departamento de meio ambiente, alterações climáticas e saúde da OMS tem grandes esperanças porque o esforço que está a ser feito não tem precedentes, "é a primeira vez na história recente da saúde pública que temos tantos fundos disponibilizados para o desenvolvimento desta vacina, tantos investigadores e laboratórios decididos a encontrar uma solução. Temos também a vontade política, os líderes estão muito interessados e têm a pressão da população para encontrarem uma vacina."

Maria Neira adiantou que estão a ser desenvolvidos esforços em diversas frentes. Neste momento há 6 candidaturas a vacinas que estão na fase dos testes clínicos. Há mais de 75 candidatos a trabalharem na descoberta de uma vacina. A competição é muito alta mas é positiva.

Há alguns fatores que têm facilitado o trabalho, "os trabalhos parecem indicar que o que está a simplificar um pouco a vida aos cientistas são as investigações que se fizeram antes ao outro coronavírus. É por isso que há esta confiança de que vai ser possível mas uma vacina para um vírus é algo que não nos podemos comprometer a dizer vai ser assim, ou daqui a um tempo, nunca vamos poder ser tão categóricos."

A investigadora admite que há alguns obstáculos pelo caminho, por exemplo a mutação do vírus e a questão de saber se quem entra em contacto com ele terá imunidade. "Em relação à imunidade, vamos ter de esperar para saber, mas temos proteção. As pessoas que estiveram em contacto com o vírus, tenham estado doentes ou assintomáticas, vão ter uma proteção. O que não sabemos é quanto tempo vai durar. Há também outro problema, foram divulgados estudos serológicos feitos em Espanha e que mostram que apenas 5% da população esteve em contacto com o vírus. A imunidade de grupo é muito baixa e isso vai dificultar o trabalho dos investigadores."

Maria Neira reconhece que o confinamento acabou por prejudicar a criação desta imunidade, "ficámos por oito semanas em casa o que quer dizer que escapámos do vírus. Tivemos de o fazer para evitar o colapso dos sistemas de saúde, mas agora, com o aligeirar das medidas, vamos ver como se vai comportar o vírus. Pode ser, e isso já aconteceu antes, que a virulência comece a diminuir. Também as condições meteorológicas podem ajudar mas isto é tudo novo, só podemos especular com base nas experiências passadas, sobretudo com o vírus da gripe A."

Apesar de as esperanças se manterem, os cientistas avisam que há possibilidade de não conseguirem erradicar o vírus e, sendo assim, as sociedades vão ter de aprender a viver com ele. Sem vacina, os testes passam a fazer parte da nova realidade, assim como as ordens súbitas de confinamento, porque os surtos podem surgir anualmente.

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