Eletrificação da linha do Algarve é bom sinal, mas sabe a pouco...

Faro > Vila Real de Santo António > Lagos. Mochila às costas, bilhetes na mão, sentidos apurados, gravador preparado e embarcamos uma semana para uma viagem (inesquecível) de comboio. À janela, observamos o melhor e o pior das linhas de comboio portuguesas. Acertamos agulhas e tentamos perceber qual a "Próxima Estação" para a ferrovia nacional: o que vai evoluir o país com o plano ferroviário para 2030 e o que deixou para trás.

A linha do Algarve é, em muitos pontos, uma linha bastante urbana, sobretudo entre Faro e Vila Real de Santo António. Se lhe chamássemos a linha suburbana do Algarve eu nem acharia nada descabido. Assim que chego ao bar da estação de Faro, saído do IC que tomei no Pinhal Novo, o microfone não passa despercebido. Sou questionado por um grupo que estava numa das mesas da esplanada sobre o que ando a fazer. Lá lhes disse o que "cozinhava" por estes dias e fiquei surpreendido com o que me disseram: "aqui no Algarve, os políticos são contra a linha do comboio. Não andam nela. Há presidentes de câmara que até a tiravam das localidades, veja lá bem". Eu estou a ver, não estou é a compreender. Se há erro crasso na construção das nossas ferrovias é que, em muitos casos (casos demais) as estações são fora das vilas e cidades, quebrando a ligação da população com o meio de transporte. Ora, se onde estão próximas das populações, há quem queira afastá-las, nem sei o que diga (ou o que escreva).

A verdade é que a estação de Faro é um corrupio. Até agora, a mais movimentada de todas em que estive e estive durante o fim de semana (cheguei no sábado e fiz a linha do Algarve a um domingo). E esta dinâmica acelerada contrasta com o "atraso" da gare: não tem painéis eletrónicos que indiquem a chegada e a partida dos comboios (com horário e destino) e os comboios são anunciados (e bem) em altifalante "caseiro", ao vivo, como se fosse um programa de rádio. No entanto, o barulho dos passageiros (que eram muitos) e das automotoras em cruzamentos regulares e por largos minutos ali em preparação de partida, não deixam, na grande parte das vezes, perceber o que o funcionário está a dizer aos microfones da estação. Outro dado curioso é que, na região mais turística do país, os anúncios apenas são feitos em português. Por isso, ver italianos completamente "perdidos", a entrar e a sair das composições, como eu vi, é perfeitamente normal...

Se em Beja fiquei com a sensação que ali faltava qualquer coisa. Aqui, senti algo semelhante.

Como percebem pelas minhas palavras, o movimento da linha agradou-me, tal como me agradou o seu potencial turístico. Para os lados do sotavento, entre Faro e Olhão vamos, muito tempo, a ver uma zona de sapal e salinas (embora, pareceu-me, completamente desativadas), a vista aérea de Tavira é qualquer coisa de bonito (falo aérea porque o comboio passa mais alto e atravessa uma ponte por cima do rio Gilão, que nos dá cá uma panorâmica...), somos presenteados com os laranjais algarvios, símbolo da região (embora já muito acompanhados por extensões enormes de plantações de abacates) e tivemos ainda oportunidade (a quem ia na UDD 450) de ver uma considerável colónia de flamingos no sapal entre Castro Marim e Vila Real de Santo António. Já para não falar da importância arquitetónica da estação terminal (agora... porque não era) que é projeto do conhecido arquiteto Cottinelli Telmo (data de 1945).

A parte do Barlavento, igualmente com potencial turístico, fica apeada para a crónica de amanhã.

Eletrificação não basta, quem o diz é o Movimento Mais Ferrovia

O Movimento Mais Ferrovia é um grupo de cidadãos, criado em 2018, para defender a ferrovia e a mobilidade na região do Algarve. Encontro-me com Cristina Grilo e Carlos Cabrita, na estação de Faro. São eles que me dão conta do andamento para a eletrificação da linha do Algarve que, para mim, só peca por tardia. Prevê-se o início da obra para breve (eles preveem) e a conclusão até 2023. A Cristina sorri e diz-me que "a eletrificação por si só não basta. Há um problema maior de mobilidade no Algarve, que precisa de ser corrigido". Ela diz-me que a solução ideal para a região era uma espécie de metro ligeiro de superfície e o Carlos abana a cabeça a dizer que sim e, mais tarde, explica-me o conceito de "tram-train" que defende e que diz que é muito usual em alguns países por essa Europa fora.

Daqui a pouco dar-lhe-ei espaço para algumas explicações mais técnicas do conceito. O que é certo é que a ferrovia esteve, na origem (finais do século XIX e inícios do século XX), associada ao desenvolvimento da região e precisa de continuar a sê-lo agora.

O Movimento Mais Ferrovia (MMF) não fica apeado apenas na linha do Algarve, quer outros caminhos para a região: adaptação da linha, melhorando a oferta, a ligação ao aeroporto e até uma linha de alta velocidade a passar junto ao traçado da Via do Infante. Quanto à linha atual é "uma infraestrutura bastante moderna e com a eletrificação ficará ao nível de qualquer linha nacional ou europeia". As críticas vão para o material circulante que consideram "obsoleto", pois tem "mais de 50 anos e horários que não convidam ao uso regular do transporte ferroviário". As UDD 450 (as automotoras azuis, vermelhas e cinzentas) estão, de facto, usadas. Os algarvios queixam-se de avarias regulares e de algum desconforto das composições. Não vivi na pele uma avaria e, para uma viagem de uma hora, admito que me senti confortável. A UDD estava asseada e tinha casa de banho (atenção: estamos a falar de um uso pontual em experiência semi trabalho, semi turística... acredito que a perceção de quem usa todos os dias seja diferente). Podem melhorar? Claro que podem. Cheguei até a dizer isso a duas ou três pessoas com quem falei: quando eletrificarem vão ter de mudar as composições e aí já será melhor. Fica o alerta para quem de direito sobre o que ouvi de seguida: "vão trazer-nos para aqui outros chaços quaisquer, vindos de outras linhas e super usados. É sempre isso que fazem com o Algarve".

Não é isso, pelo menos, o que está no papel. Sabemos que a CP vai comprar 22 novas automotoras à Stadler, empresa suíça que ganhou o concurso público, tendo apresentado uma proposta de 158,14 milhões de euros, e que estas novas composições, 12 híbridas (ao mesmo tempo a diesel e elétricas) e 10 elétricas, estão destinadas às linhas regionais do Douro, Algarve, Oeste e ainda Évora e Beja. Já agora, o modelo escolhido chama-se "flirt 160", é um comboio de um piso, que pode ir de duas a oito carruagens. Esperemos que faça jus ao nome e que os algarvios se enamorem delas. Não sei se corresponderão àquilo que o MMF tem em mente, algo "mais ligeiro, com frequência mais elevada, com mais paragens e uma maior proximidade às populações, suprindo as necessidades de mobilidade ao longo do corredor litoral, que é densamente mais povoado".

Carlos Cabrita dedicou a vida à investigação sobre ferrovia, "adorava ver chegar o rápido e o foguete, e o vapor que libertava entre São Marcos da Serra e Messines". Depois de se licenciar dedicou-se à investigação de motores de tração e, para isso, há que haver um conhecimento profundo do material circulante. Peço-lhe uma opinião sobre o material circulante da linha do Algarve. Responde-me: "este material que circula aqui já está obsoleto. Não só em termos de manutenção e disponibilidade operacional, é um material que há muito deveria ter sido retirado. O transporte de passageiros é quase, todo ele, feito em material elétrico". É um defensor da filosofia de transporte, que apareceu na Alemanha em 1992, o "tram-train", unidades elétricas, com base no conceito de comboio suburbano, mas projetado para circular em vias urbanas. O exemplo que considera paradigmático em Portugal é o metro do Porto: anda à superfície em circuito urbano, com maior articulação, em curvas de raio muito apertado e em linhas embebidas, mas também em linhas convencionais, tendo um peso por eixo significativamente mais baixo. Quanto à ligação com o aeroporto, Cristina Grilo diz que tem de ser muito mais do que isso, tem de servir "toda a área periférica urbana, como a Universidade do Algarve, as praias de Faro, e Montenegro, que é zona urbana" e está junto ao aeroporto. A ideia é servir os interesses de quem mora no Algarve todo o ano, até porque "o que for bom para nós é bom para os turistas".

A defesa dos sistemas multimodais, que não se aplica ao Algarve

Quando chego à estação de Vila Real de Santo António tenho à minha espera o Júlio Seabra. Combinámos este encontro ainda antes do início desta viagem, para falarmos da reabertura da linha da Beira Baixa. O Júlio fez parte do movimento de defesa da linha quando esta encerrou, é da Guarda, mas está a dar aulas há muitos anos no Algarve, como diz, a sua "segunda casa". Falamos sobre a Beira Baixa e o quanto ficou feliz com a reabertura, a viagem que já lá foi fazer com os filhos (que contarei na reportagem áudio final) e no fim, questiona-me: "quer ir ver a outra estação de Vila Real de Santo António?" Qual outra? "A do Guadiana. A linha não terminava aqui". Claro que quero, e claro que fomos. O que encontrei foi "de-so-la-dor" (separo as sílabas para que se possa pronunciar devagarinho). Uma estação junto ao rio, e junto ao terminal fluvial, e junto à rodoviária (será mais um parque de autocarros, mas estão lá), e junto à praça de táxis: era uma verdadeira plataforma multimodal o que tinha Vila Real de Santo António. Aquilo que agora tanto se defende. E, na verdade, tudo continua lá, à exceção dos comboios. E estamos a falar de, talvez, dois quilómetros (nem tanto) entre a estação que se manteve (e que não tem barco, autocarro ou táxi) e a que fechou.

E se tivesse fechado e sido aproveitada para algo razoável... fala-se na rua que está prometida como futura esquadra da PSP, mas o que lá está agora é o seguinte (e tirei fotos, para que possam constatar o que os meus olhos viram): um edifício parcialmente emparedado, com as portas principais arrombadas, com vestígios de ocupação ilícita, malcheiroso. Cá fora, lixo espalhado pelo chão (muito... com vestígios acumulados de anos de feiras que se fazem ali no local) e excrementos de animal (muitos...). Assim está a porta de entrada em Portugal para quem venha de Espanha de barco.

"Não tinha nada a ver" com o que é hoje, conta-me Jorge Bartolomeu. O taxista garante que o apeadeiro era muito concorrido. "Os comboios ao chegarem aqui ao centro da cidade faziam intermodalidade, saiam do comboio e apanhavam o táxi ou até o autocarro, ou também o barco para ir para Espanha". Foi assim até 1998.

Apanho José Guerreiro a andar de bicicleta, atividade habitual quando tem o quiosque fechado. É um apaixonado por comboios. Sempre que sai em passeio, sobretudo para o Norte, a escolha do meio de transporte está feita à partida: comboio. "Não tenho nenhum familiar ligado aos comboios ou que tenha sido ferroviário, mas é uma paixão desde pequeno", conta-me. Tem maquetes e tudo, "sobretudo das laranjinhas", que eram essas as locomotivas que chegavam ao apeadeiro de Vila Real de Santo António - Guadiana. "É pena isto ter chegado a este ponto". O pai tinha já o quiosque junto ao apeadeiro desde 1979: "trazia muita gente para deixar junto ao barco e havia muito mochileiro, os estrangeiros que vinham fazer os interrails". No seu ponto de vista, "a cidade perdeu". 23 anos depois, a zona tem mau aspeto, mau ambiente e lixo. "Continua ali aquilo abandonado. Falaram que ia ser um futuro posto da PSP, pode ser que em tempo de eleições vá para a frente, mas até à data é aquilo que está à vista", reflete.

Este aficionado por comboios está contente com a futura eletrificação da linha do Algarve, mas acha que o projeto "podia ser mais ambicioso", por exemplo na correção ou adaptação de traçados, levando a linha a novas localidades que se tornaram grandes centros, como Loulé, Albufeira ou Quarteira. "Hoje em dia há muita gente a morar nesses sítios e o comboio não se adaptou, inevitavelmente a linha é colocada de parte nesses locais", acrescenta.

E ligar a Espanha, não?

"Do outro lado ainda estão pior do que nós" (é o que vamos ouvindo), pois os espanhóis fecharam a linha até Ayamonte em 1987, por isso "ninguém das novas gerações e das camadas mais novas se lembra do comboio e vai lutar pelo seu regresso", alerta José Guerreiro. Por isso refletimos os dois: ele na bicicleta e eu no passeio. Só com grande força a nível estatal ou regional é que se poderiam voltar a ligar a Portugal por ferrovia, mas "não sei se os espanhóis têm muito interesse nisso", sorri... e lembra que "qualquer comboio de carga de Sines para Sevilha seria muito mais perto por aqui, não compreendo..." A dúvida de José foi esclarecida, em março, pelo governo, mas já lá vamos.

Também o MMF fala nesta ligação que, a surgir, deve ser como uma linha de alta velocidade, "com concretização num tempo mais remoto, com andamento paralelo à Via do Infante, fazendo a ligação a Espanha e a Lisboa, passando por Beja, potenciando as infraestruturas portuárias e aeroportuárias".

Ao que parece, esta ponte ferroviária com Espanha não avança por falta de vontade de "nuestros hermanos". Em março, o ministro Pedro Nuno Santos dizia que o governo era "completamente a favor disso" e achava até incompreensível como é que o corredor ferroviário do mediterrâneo termina em Huelva e não é estendido até ao Algarve. Uma obra que, para o governo português é "fundamental", tal como é a consciência de que não pode ser Portugal a construir a linha até Huelva.

A linha do Algarve trouxe-me muito: conhecimentos que não tinha, de uma região que fica a mais de 500km do sítio onde nasci e resido, que visito pontualmente (fora dos meses de verão), da ferrovia e do que é estar isolado da centralidade do país. Pelas conversas que fui tendo percebi (ao contrário do que pensava) que o Algarve e os algarvios se sentem do interior, que houve uma decisão errada de eletrificar a linha apenas entre Tunes e Faro, em 2004, esquecendo as extremidades. Uma linha que é utilizada por muita gente e que não apenas turistas. Também vou de coração cheio, pois pela primeira vez, entrei na cabina de uma automotora, ao lado de um maquinista: história que vos contarei amanhã.

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