Em vez da sucata, histórico paquete português acaba nas mãos de milionários americanos

Vai ser como "recuperar um carro antigo", mas neste caso pode ser um "iate absolutamente de sonho".

O Paquete Funchal não foi vendido para ser desmantelado - como se chegou a temer - e o comprador é, afinal, um grupo de milionários norte-americanos que ainda não revelou o destino que pretende dar ao histórico navio português.

O prazo para a receção das propostas para o leilão acabou no final de janeiro e um dos receios era que fosse para a sucata e acabasse os seus dias numa operação de desmantelamento comum em países como o Bangladesh, Índia ou Paquistão.

Quatro associações ambientalistas e grupos europeus representantes das vítimas de amianto - substância perigosa que dizem que existe no navio - chegaram a manifestar preocupação com o futuro do paquete, não tanto pelo seu valor histórico mas sobretudo pelos efeitos na saúde pública de um país em vias de desenvolvimento.

Sucata?
Esta sexta-feira surgiu uma notícia que dava conta de que o Funchal estaria vendido a uma empresa grega (a Anchor Shipbroking) que num relatório recente anunciava o seu desmantelamento.

O navio, cujo destino já deu muitas voltas desde que foi lançado ao mar em 1961, tinha sido vendido em 2018 a um grupo britânico de turismo depois da falência de uma empresa portuguesa de cruzeiros.

Os ingleses pagaram quatro milhões de euros e prometiam recuperar o Funchal - que ainda hoje está atracado em Lisboa, no cais da Matinha -, mas com a crise provocada pela pandemia o plano caiu por terra e o novo leilão tinha agora um preço base de 1,8 milhões de euros - um preço de saldo.

A TSF falou com a empresa inglesa que está a tratar do leilão que confirma que o Funchal já está vendido, mas não para a Grécia nem para a sucata.

Paul Willcox, responsável da Eggar Forrester que intermedia a compra e venda de navios, não quer avançar mais detalhes, mas Luís Miguel Correia, investigador da história da marinha mercante portuguesa, que tem ajudado um grupo de milionários dos EUA na tentativa de compra do Paquete Funchal, garante que o negócio está fechado.

Um navio único no mundo

Luís Miguel Correia explica que o comprador é o tal grupo de cinco investidores norte-americanos, quatro deles milionários, baseados na Califórnia, que pretendem "preservar aquele que é um navio único''. "É fora do comum um navio durar tantos anos e em termos de arquitetura naval é uma preciosidade por ter sido muito bem concebido e não ter mais nenhum semelhante no mundo".

"Os compradores são pessoas com muito dinheiro e muito interessadas em navios, que foram atraídas pelo Paquete Funchal. A ideia é tirá-lo de Lisboa, repará-lo e depois definir que tipo de projeto vai existir a seguir, estando fora de causa o desmantelamento", explica.

Bofetada de luva branca a Portugal

"Ainda bem que há alguém e penso que fica em boas mãos", afirma Luís Miguel Correia, que acrescenta que "hoje em dia há gente com muito dinheiro que gasta 200 ou 300 milhões de dólares num iate do tamanho do Paquete Funchal. Para alguém com dinheiro e com gosto, é como recuperar um carro antigo... Pode-se fazer do Funchal um iate absolutamente de sonho pois não há mais nenhum desta época, gastando 20, 30 ou 40 milhões que para uma pessoa rica é um brinquedo... Vamos ver o que acontece...".

O especialista na história da marinha portuguesa recorda que há outros navios nacionais, históricos e famosos que atravessaram o Atlântico sem bilhete de regresso.

Um desses navios é um dos últimos bacalhoeiros de madeira, à vela - o Gazela I -, vendido para os EUA, em 1971, que está em Filadélfia onde é um museu: "Se acontecer o mesmo ao Funchal é uma bofetada de luva branca aos portugueses, mas é bom para o navio e para a nossa cultura que sai preservada", conclui.

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