Encontro das cidades educadoras. "As brincadeiras são mais importantes do que a escola"

O Encontro da Rede Portuguesa das Cidades Educadoras arranca em Torres Vedras. A conferência sobre Brincar na Cidade Educadora é conduzida pelo psicopedagogo italiano Francesco Tonucci, com quem a TSF esteve à conversa.

O Encontro da Rede Portuguesa das Cidades Educadoras começa esta manhã em Torres Vedras. Para as 11h00 está agendada uma conferência sobre brincar na cidade educadora, que conta com o psicopedagogo italiano Francesco Tonucci.

O investigador explica à TSF que para ele (e para as crianças) a brincadeira é mais importante do que a escola, pelo que a premissa da conferência está errada. "Eu diria que devia ser ao contrário. Proponho: educar numa cidade brincalhona. Porque as brincadeiras são mais importantes do que a escola."

Francesco Tonucci sustenta que a cidade apta para brincar é aquela em que as crianças podem sair de casa sem ser pela mão de um adulto. "Lembro-me sempre da Andrea, uma criança colombiana que uma vez me disse, "Aleijar-se é muito importante". Isto é absolutamente verdade. É importante esfolar os joelhos, ficar com nódoas negras, cair de bicicleta. Quem anda de mota sem nunca ter esfolado os joelhos com a bicicleta provavelmente só vai cair uma vez da mota. A primeira causa de morte até aos 26 anos são os acidentes de automóvel e de mota."

"Não se pode brincar acompanhado pelos pais. Isso não é brincar. Brincar significa: sair de casa, procurar os amigos, escolher uma brincadeira e encontrar o local certo para jogar. As crianças aprendem as coisas mais importantes de toda a sua vida quando estão a brincar. Portanto brincar é a experiência fundadora, sobre a qual vai assentar todo o conhecimento que adquirimos ao longo da vida."

O autor da cidade das crianças lamenta ainda que os mais novos já não se possam perder pela cidade, até porque o uso do espaço público é uma forma de participação na cidadania. Mas o acesso às brincadeiras é, na visão do italiano, o maior problema na relação das crianças com o espaço urbano. "As crianças das cidades modernas já perderam ou estão a perder a possibilidade de brincar. Isto é ainda mais grave do que ser impossibilitado de aprender."

Para o psicopedagogo italiano, a maioria das escolas impede as crianças de aprenderem. A pandemia podia ter servido para mudar o ensino mas os governos deixaram escapar a oportunidade. "Têm uma visão ingénua e pensam que bastam as leis para mudar a realidade. A escola da minha neta de 13 anos é terrivelmente parecida à escola em que eu andei há quase 80 anos. Não corresponde às promessas das constituições, dos direitos da criança e nem mesmo aos programas escolares. Portanto, aquilo que as leis não conseguem também não será um vírus a conseguir."

Francesco Tonucci, que estuda a escola há 60 anos, conclui que o ensino é um serviço social que não funciona e fica espantado por isso ser encarado com relativa normalidade. O investigador pergunta qual seria a reação das populações se na saúde a taxa de insucesso fosse igualmente elevada.

O mentor da Cidade das Crianças assegura que o projeto nascido há mais de 30 anos - o livro foi escrito em 1996, mas só traduzido para português em 2019 - continua atual. "Infelizmente, diria mesmo que no geral estamos pior do que há 30 anos", acrescenta.

"É preciso falar com as crianças para que elas ajudem a desenhar as cidades do futuro", avisa Tonucci. "É verdade que já todos fomos crianças mas não chega. O Saint-Exupery deixa isso bem claro logo na dedicatória do Principezinho: "Todas as pessoas grandes já foram crianças. (Há é poucas que se lembram disso.)"".

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