Era preciso um militar? "Tudo está bem quando acaba bem", diz Francisco Ramos

Francisco Ramos liderou o processo de vacinação, mas acabou por se demitir, dando lugar ao almirante Gouveia e Melo
Paulo Spranger/Global Imagens (arquivo)
Um ano depois do arranque da vacinação contra a Covid-19 em Portugal, Francisco Ramos, o primeiro coordenador da task force recorda a saída, faz um balanço do processo e deixa elogios a Gouveia e Melo, mas também sublinha que tudo começou a "rolar sobre esferas" quando foram alterados os critérios de prioridade para a vacinação.
"Um processo desta dimensão não pode ser isento de erros", defende Francisco Ramos. Economista, cinco vezes secretário de estado da saúde, o primeiro coordenador da task force de vacinação sublinha, em entrevista à TSF, que o processo de vacinação e a pandemia foram um enorme teste de stress a todo o sistema e defende que até estar tudo a "rolar sobre esferas" foi preciso aperfeiçoar instrumentos e alterar critérios, o que só aconteceu em abril, quando já não era ele o coordenador.
O abandono do cargo aconteceu a 3 de fevereiro de 2021. Francisco Ramos lembra que pediu a demissão por um "imperativo de consciência" depois de ele próprio ter detectado irregularidades no processo de vacinação de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha, onde é presidente da comissão executiva. Hoje confessa que gostava que não tivesse sido assim: "Claro que gostava que não tivesse havido irregularidades no hospital que dirijo". "A partir do momento em que tive uma irregularidade onde eu era e sou responsável, não tive a mais pequena dúvida de que não tinha a mais pequena condição de continuar a coordenar o processo", recorda.
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Francisco Ramos acredita que mais do que uma mudança de personalidade na coordenação da task force foi a simplificação dos critérios de vacinação que levou o processo a entrar nos eixos. "Aperfeiçoaram-se naturalmente os instrumentos, ou seja, estamos a falar de um processo novo e, portanto, isso foi aperfeiçoado e sobretudo, dois meses depois, mudou o critério de prioridade que passou a ser apenas a idade. Isso foi muito relevante para que tudo passasse a rolar sobre esferas.
Quanto ao trabalho de Gouveia e Melo, o seu sucessor na coordenação da task force, Francisco Ramos classifica de "excelente". "Estamos todos de acordo que o trabalho feito quer pela coordenação, quer pelas equipas no terreno, quer pela adesão dos portugueses foi magnífico e conduziu-nos ao topo do mundo." Mas questionado sobre se o cargo exigia um militar, Francisco Ramos responde: "Eu não era militar e, portanto, não tinha que ser um militar". E sobre a ideia de que os militares é que puseram ordem na vacinação não comenta, apenas diz: "tudo está bem quando acaba bem".
Para Francisco Ramos, o processo de vacinação tem sido um sucesso e Gouveia e Melo merece reconhecimento e a condecoração do presidente da república e o doutoramento honoris causa atribuído pela Universidade Nova já foram nesse sentido, de resto sublinha que não lhe cabe a ele "avaliar qual é o volume de reconhecimento que a nação deve ter". E quanto a ele? Sente que saiu pela porta pequena? "É a vida, a vida às vezes tem dessas coisas", desabafa lembrando um conselho que um amigo mais experiente lhe deu quando iniciou a vida política. "Nunca espere ver o seu trabalho reconhecido. Isso para mim foi a vacina, o antídoto suficiente para essas coisas."
"Há uma lição que podemos tirar desta pandemia, o individualismo está condenado ao fracasso, como disse António Sarmento, a primeira pessoa a ser vacinada há um ano e que é um exemplo para todos nós", sublinha o ex-coordenador da task force para quem há condições para vencer a pandemia e "virar a página".