Estudo arrasa dados da DGS sobre Covid-19 usados em análises científicas

Mortos que desaparecem, infeções a mais ou a menos que não batem certo com os números divulgados publicamente pela própria DGS e milhares de casos mal preenchidos no Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica.

Um estudo assinado por 12 investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, acabado de publicar numa revista científica internacional, conclui que as bases de dados do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE) que têm sido fornecidas à comunidade científica, nos últimos meses, sobre os casos de Covid-19, têm uma qualidade baixa, erros, inconsistências e muita informação em falta.

Mais grave: os problemas anteriores têm levado outros estudos, feitos com base nesses dados, a apresentar conclusões que podem não estar corretas, nomeadamente no maior ou menor risco de determinados doentes, com doenças crónicas já existentes, terem mais complicações se contraírem o novo coronavírus.

O artigo a que a TSF teve acesso prévio avisa que desta forma os dados disponibilizados pela Direção-Geral da Saúde (DGS) aos investigadores das academias apenas podem ter usos muito limitados e pouco úteis para ajudar a travar a pandemia.

A lista de falhas é longa e inclui detalhes caricaturais e outros que revelam problemas mais estruturais na parte da base de dados do SINAVE - aquela que é preenchida pelos médicos - que foi a única que a DGS aceitou enviar aos investigadores.

Por exemplo, casos de um doente com 134 anos e três homens classificados como 'grávidos', bem como 19 doentes que supostamente teriam tido a doença antes do primeiro caso que se sabe que foi diagnosticado em Portugal.

Há ainda meses com muito menos doentes do que os revelados nos boletins diários da DGS e outros meses com mais... mas também meses (maio) com metade dos mortos publicamente conhecidos e outros (junho) com zero vítimas - quando se sabe, pelos boletins diários, que nesse mês a pandemia matou 155 pessoas.

Por outro lado, 90% dos casos da base de dados fornecida pela DGS não apresenta a data do teste positivo e uma grande parte não diz se o infetado teve ou não necessidade de ir para os cuidados intensivos.

Entre as duas bases de dados enviadas aos investigadores, uma em abril e outra em agosto, existiam muitas informações diferentes, para os mesmos doentes, em milhares de casos, nomeadamente nas doenças preexistentes (8.902 casos).

Na primeira base de dados, 40% dos infetados estavam identificados como não tendo doenças crónicas prévias, mas, na segunda, as mesmas pessoas já surgiam como não se sabendo se essas doenças existiam.

Cristina Costa Santos, uma das 12 investigadoras do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) e do Departamento Medicina da Comunidade da Universidade do Porto, explica que mais preocupados ficaram quando descobriram que há pelo menos três artigos científicos já publicados que usam os dados fornecidos pela DGS, sendo que em pelo menos um deles os resultados acabaram por ficar claramente "enviesados pela fraca qualidade de dados".

A investigadora compreende que a DGS tenha decidido enviar à comunidade académica dados de apenas uma das bases de dados com informação sobre infetados e doentes com Covid-19, mas isso não explica tantas falhas, numa preocupação que se agrava, tendo em conta, como recorda, que é este tipo de estudos que, com frequência, ajuda os decisores políticos a avançarem com decisões para controlar a pandemia.

Se os dados forem analisados "sem ter em conta a qualidade dos dados, isso é perigoso e pode produzir, como já tem acontecido, artigos científicos enviesados, mas é muito pior que isso pois são estes estudos que levam a tomar decisões sobre como gerir a pandemia", refere Cristina Costa Santos.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

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