"Eu não tenho vida." Zaragatoas, raios gama e testes à Covid

No laboratório do Instituto Superior Técnico que esteriliza zaragatoas usadas nos testes à Covid, há hoje muito mais trabalho do que nos primeiros meses da pandemia. Durante horas, as zaragatoas são submetidas a radiação gama, suficientemente forte para matar uma pessoa "em poucos minutos".

A visita começa no armazém. De um lado, caixas com uma bola amarela, o que quer dizer que o conteúdo ainda não foi tratado. Do outro, a bola já é vermelha: já passou pela chamada câmara de radiação e está pronto a ser utilizado.

O mesmo se passa com as zaragatoas, antes de serem usadas, uma única vez, nos testes à Covid que são feitos a toda a comunidade escolar do Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade de Lisboa.

Eduardo Alves, diretor - adjunto do Laboratório de Aceleradores e Tecnologias de Radiação (LATR), explica à TSF que chegam diretamente da fábrica, são encaixotadas e é dessa forma que se submetem à radiação, num processo a que os técnicos chamam "irradiação" e que se aplica a muitos outros materiais. No caso das zaragatoas, "são usadas só uma vez. Ficam estéreis. Não têm qualquer contaminação possível".

Um processo que utiliza elevadas doses de radiação com cobalto, mas correspondentes a "poucos gramas". Ainda assim, suficientes para "matar uma pessoa em poucos minutos, se estiver em frente a um irradiador". Por isso, são muito poucos os que podem entrar na câmara de radiação. Nem ele próprio está autorizado a fazê-lo, sublinha Eduardo Alves.

Na "sala de comando"

Na manhã em que a TSF visitou o Campus Tecnológico e Nuclear do IST, na Bobadela, concelho de Loures, a câmara de radiação não estava a funcionar. As chamadas "fontes de cobalto" estavam desligadas, guardadas numa espécie de "sarcófago", por questões de segurança, inacessíveis aos olhos curiosos dos jornalistas. Guardadas por uma parede de betão com quase dois metros de espessura.

Ficámo-nos pelo ecrã que reproduz a câmara de radiação e por uma "consola" cheia de botões coloridos, que controla o sistema. Uma calha no teto transporta as caixas com as zaragatoas. A radiação vem dos lados, emitida por uns "lápis" metálicos, que lançam cobalto durante cerca de cinco horas. A quantidade de radiação emitida por cada um desses lápis é "brutal", impossível de tocar por qualquer ser humano, quando estão a funcionar, avisa o responsável pelo LATR.

"Nós somos radioativos"

O cobalto emite raios gama, suficientemente fortes para garantir a completa esterilização. Mas Eduardo Alves garante toda a segurança neste processo. E lembra que a radioatividade está em todo o lado, até mesmo no corpo humano: "Nós temos potássio 40, carbono 14, polónio, estrôncio... todos esses elementos têm isótopos radioativos. Nós somos animais radioativos".

E vai mais longe, ao lembrar que até o mais banal exame médico implica radioatividade: uma TAC, um raio X, implica radiação. "Sem essa radiação, os médicos não teriam condições para fazer os diagnósticos que fazem hoje."

Muito mais trabalho, nas últimas semanas

Eduardo Alves confessa que a quantidade de trabalho dos últimos tempos é muito superior à registada durante a primeira vaga, em março/abril de 2020. Sandra Cabo-Verde, que trabalha no laboratório que recolhe as amostras dos testes à Covid, desabafa: "Eu não tenho vida!". A atividade de investigação, desenvolvida no laboratório, abrandou muito e piorou nas últimas semanas.

Sandra Cabo-Verde é a responsável pelo Laboratório de Ensaios Tecnológicos em Áreas Limpas. É ela que recebe essas amostras e trata de "pôr fim à vida" do coronavírus. Trata-se de "rebentar" o vírus, retirar-lhe o material genómico, para depois poder estudá-lo. Após a recolha, as amostras seguem para o Técnico. É lá que se determina o resultado final: negativo ou positivo.

Ao final da manhã, no Campus Tecnológico e Nuclear, a investigadora entrega mais de 90 amostras, que seguem para análise. Viajam numa carrinha, dentro de um grande saco térmico, a dois graus de temperatura. Para muitos, o "sim" ou o "não" há de ser dado horas mais tarde.

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