Ihor não foi o único entrevistado pelo SEF com o Google e família garante que não vinha trabalhar

IGAI crítica má comunicação com estrangeiros que chegam a Lisboa.

A Associação dos Ucranianos em Portugal não consegue compreender o uso pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) da ferramenta de tradução automática do Google para entrevistar IIhor Homenyuk quando o ucraniano chegou a Portugal, nem que este tenha sido entrevistado numa segunda fase em russo. Existiam várias e melhores alternativas.

Ihor, recorde-se, acabaria por ver barrada a entrada no país, o que levou a que fosse colocado no Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária até ser devolvido à Ucrânia.

Os inspetores do SEF concluíram que vinha trabalhar para Portugal sem o visto adequado e mais tarde o ucraniano acabou por aparecer morto, com três inspetores a responderem em tribunal pelo seu alegado homicídio.

O uso do tradutor do Google foi notícia na semana passada depois de admitido, numa sessão do julgamento, pelo inspetor que fez a primeira entrevista à chegada.

Se não for para trabalhar, os ucranianos podem entrar em Portugal com um simples passaporte, acontecendo o mesmo para os portugueses que visitam a Ucrânia.

Ihor não viria para trabalhar

Neste caso, o inspetor concluiu - através do Google - que Ihor vinha trabalhar, conclusão que foi mais tarde confirmada por uma segunda entrevista feita pelo SEF com o apoio de uma inspetora que falava russo e que na última sessão de julgamento garantiu que o ucraniano falava russo de forma fluente.

O advogado da família, José Gaspar Schwalbach, e o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, Pavlo Sadokha - que várias vezes tem falado com a esposa e amigos - garantem, contudo, que IIhor Homenyuk não falava russo e que não vinha para trabalhar de imediato.

O representante da associação adianta que a intenção de Ihor era apenas conhecer o país e perceber se existiriam condições para mais tarde trabalhar em Portugal, "estudar o mercado de trabalho, algo "muito diferente", afirma, de vir trabalhar para o país naquela viagem.

Sobre o uso do tradutor do Google, Pavlo Sadokha diz que o SEF devia ter contactado o consulado da Ucrânia ou uma das muitas associações de ucranianos que vivem em Portugal e que podem ajudar.

O recurso ao russo na segunda entrevista também é considerado algo que não faz sentido pois russo e ucraniano são línguas da mesma família, mas com muitas diferenças: "Tem outros significados com definições que podem ter significados diferentes", refere.

IGAI criticou Google

A investigação da Inspeção Geral da Administração Interna (IGAI) à morte de Ihor, fechada em outubro, a que a TSF teve acesso, refere que quando o passageiro não fala inglês ou francês o SEF costuma usar os tradutores de uma lista telefónica (que estão fora das instalações), mas também "pedidos informais e não registados a outros inspetores do SEF que tenham alguns conhecimentos" na língua em causa, a ajuda a outros passageiros ou o tradutor do Google.

Admitido em tribunal pelo inspetor, o "uso do Google tradutor" está, aliás, registado na ficha de intercepção do SEF a Ihor consultada pela TSF.

Fonte ligada ao SEF confirma o uso desta ferramenta da internet apenas quando não há outra solução e garante que é impossível ter um tradutor de cada língua no aeroporto.

No relatório à morte de Ihor, a IGAI critica a "ausência de uma comunicação efetiva entre o cidadão ucraniano e aqueles à guarda dos quais ficou", acrescentando que "o SEF não dispõe de instrumentos facilitadores de comunicação que permitam, de forma imediata, a qualquer hora ou dia, a realização de diálogo com estrangeiros que não falem português ou outra língua corrente".

Para a IGAI "é fundamental" que o SEF garanta "a viabilidade do diálogo" com os passageiros que chegam a Lisboa, sendo proposto que "equacione um sistema automático de tradução, por linha telefónica de apoio semelhante ao usado em diversos aeroportos internacionais".

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