Trabalhou com Fellini e Scorsese. Agora, salva o burro anão dos Açores

No Dia Internacional do Burro, conversamos com Franco Ceraolo, um italiano que trabalhou em cinema até se encantar pelo burro anão da ilha Graciosa. "São teimosos, isso é certo, mas têm uma inteligência incrível."

Depois de uma vida dedicada ao cinema, onde trabalhou como cenógrafo para realizadores como Federico Fellini, Bernardo Bertolucci e Martin Scorsese, Franco Ceraolo encontrou um novo propósito quando chegou aos Açores em 2007: proteger o burro anão da Graciosa.

Franco Ceraolo sempre quis viver numa ilha. Natural de Roma, sonhava com um local sereno, longe do bulício e confusão das grandes cidade, para os dias da reforma. Primeiro pesquisou as ilhas do Mediterrâneo, mas o turismo afastou-o, até que descobriu os Açores, por acaso, numa livraria em Roma.

Em 2006, fez uma viagem por todas as ilhas do arquipélago e acabou por escolher a Graciosa para viver, onde comprou uma quinta. Cedo reparou nos burros que andavam pela ilha, normalmente propriedade de habitantes mais idosos.

"Quando cheguei na ilha, passeando pela ilha vi muita gente, pessoas já de idade com a própria carroça e os burros como meio de transporte. E disse à minha companheira 'aqui, se não se faz nada, tudo isto desaparece", conta.

Franco Ceraolo comprou um burro, hoje tem 17. Com origem no norte de África, o burro anão da Graciosa é cinzento, tem riscas nas costas, barriga ou pernas e pouco mais de um metro de altura. Hoje em dia, em toda a ilha, há pouco mais de 70 burros mas já foram mais de mil, no século passado. Também há noutras ilhas, como São Jorge, para onde foram sendo exportados.

Para os proteger e evitar o desaparecimento da raça, Franco Ceraolo fundou a Associação de Criadores e Amigos do Burro Anão da Graciosa.

Em 2015 foi reconhecida como raça autóctone e o desafio passou a ser fazer um registo genealógico para cada burro. Cada registo custa 20 euros, dinheiro que tem sido dado pelos 25 sócios de Franco Ceraolo e doações particulares. Apesar do esforço, vale a pena e até ao momento já foram realizados 35 registos.

Além deste trabalho, o "italiano dos burros", como é conhecido na Graciosa, tem mostrado a quem passa pela ilha que estes animais têm potencial turístico para pequenos passeios, terapia (asinoterapia) ou até produção de leite como já acontece na ilha Terceira.

E também podem ser animais de companhia, garante Franco Ceraolo: "são animais tão inteligentes. São teimosos, isso é certo, mas têm uma inteligência incrível". E recorda o primeiro burro que comprou, com o qual "brincava como se brinca como um cão, corria atrás dele, a correr à minha frente, depois eu parava e ele corria atrás de mim".

Apesar de estar há vários anos afastado do cinema, Franco Ceraolo vai voltar em breve a sentir o frenesim das filmagens.

Começa no final do mês, na Graciosa, a rodagem do novo filme de Gonçalo Tocha que tem como tema os burros. Não é a primeira vez que o realizador português filma nos Açores, depois de, em 2011, ter estreado o documentário "É na Terra não é na Lua", vencedor de vários prémios internacionais, rodado durante dois anos na ilha do Corvo.

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