Jornalismo teve "papel fundamental" na contenção da pandemia em Portugal

Um estudo académico revela que os jornalistas contribuíram decisivamente para o sucesso do confinamento em Portugal. Autoridades de Saúde são desafiadas a melhorar a comunicação e a facilitar o acesso às fontes de informação.

Durante o estado de emergência em Portugal, 92% dos jornalistas tiveram a preocupação editorial de, a par da difusão de informação relevante, "orientar os cidadãos para comportamentos de prevenção da Covid-19", revela um estudo feito por investigadores da Universidade do Minho e da Universidade do Porto.

O Inquérito Sobre o Impacto da Covid-19 no Jornalismo em Portugal, recebeu respostas de 200 jornalistas, entre jornalistas de saúde, editores, coordenadores e diretores de órgãos de comunicação social nacionais.

"É a primeira vez em Portugal que os jornalistas assumem fazer uma orientação de comportamentos", refere a coordenadora da investigação, Felisbela Lopes. Para a docente da Universidade do Minho "essa orientação foi encarada pelos jornalistas como um trabalho de serviço público" e fez com que os jornalistas se constituíssem como "um grupo importantíssimo no combate à pandemia".

Felisbela Lopes sublinha mesmo que, além da "célere decisão política e do bom acompanhamento das autoridades sanitárias", o trabalho jornalístico foi "fundamental para ler o rápido confinamento que aconteceu em Portugal".

Os resultados preliminares do inquérito revelam também que mais de metade dos jornalistas (52%) tiveram dificuldade na triagem da informação credível sobre a Covid-19. Ao mesmo tempo, 14% sentiram falta de colaboração das fontes de informação e 12% tiveram dificuldade no acesso à informação do dia. Há ainda 87% dos jornalistas que dizem ter notado um aumento da informação falsa.

Para Felisbela Lopes, "é um paradoxo" que o jornalismo tenha sido fundamental no combate à pandemia e, ao mesmo tempo, os jornalistas "não tenham conseguido obter informação de que necessitavam por parte das fontes oficiais".

A investigadora defende mesmo que "este é o tempo de pensar de forma muito aprofundada a comunicação em saúde pública" para evitar "estas falhas sucessivas por parte das autoridades sanitárias".

Para contornar as dificuldades em verificar informação e em obter esclarecimentos oficiais, durante o estado de emergência, os jornalistas optaram por recorrer a fontes alternativas. A característica mais valorizada nesta escolha foi a informação que a fonte detinha (87%), muito à frente da acessibilidade, proximidade ou notoriedade pública da fonte.

"Apareceram fontes especializadas, vindas de universidades e centros de investigação, desconhecidas da opinião pública, sem grande notoriedade mediática, mas que se revelaram vitais", destaca Felisbela Lopes. Para a investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, "é interessante constatar que muitos dos comentadores residentes de alguns órgãos de comunicação social desapareceram durante o período da pandemia porque, de facto, não tinham nada de relevante para dizer".

O inquérito sobre o jornalismo em tempo de Covid-19 revela ainda que 68% dos jornalistas portugueses trabalharam a partir de casa durante o período do estado de emergência. Quase metade (49%) dizem que o teletrabalho "teve um impacto negativo" porque, como muitos outros portugueses, os jornalistas também tiveram dificuldade em conciliar a vida familiar com a vida profissional.

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