Madeira ardida, espécies invasoras e rearborização parada. Especialistas preocupados com Pinhal de Leiria

Técnicos pedem controlo de espécies invasoras e denunciam lentidão no corte da madeira ardida e na rearborização

Mais de dois anos após o incêndio, os técnicos lamentam o que se vê no Pinhal de Leiria: há madeira ardida por cortar, as espécies invasoras avançam sem controlo e a rearborização continua por fazer. O Ministério do Ambiente e da Transição Energética confirma que falta alienar 15% da área ardida com material lenhoso para exploração florestal.

O Observatório do Pinhal do Rei foi criado depois dos incêndios de outubro de 2017, para acompanhar a intervenção na Mata Nacional de Leiria, e inclui o geógrafo José Nunes André, que se mostra preocupado com a remoção da madeira ardida.

De acordo com José Nunes André, os cortes "deviam ter sido logo feitos", uma vez que a movimentação de máquinas pesadas, que é visível no terreno, "vai pisoteando os pinheiros que nasceram espontaneamente" e que são os que têm "99% ou 100% de êxito de sobreviver", porque "nasceram naquele habitat".

Quanto à plantação realizada depois do incêndio de 2017, "é o mínimo dos mínimos", avisa o investigador ligado à Universidade de Coimbra.

A bióloga Sónia Guerra, que também integra o Observatório do Pinhal do Rei, dá conta do avanço de espécies invasoras que comprometem o pinheiro bravo.

"O controlo das espécies invasoras, nomeadamente, das acácias", que crescem mais rapidamente e prejudicam o desenvolvimento das outras espécies, "só está a ser feito nalgumas faixas de contenção na chamada rede primária dos 10 metros de margens de estrada", adianta.

Considerando que nos talhões com povoamentos mais jovens, a regeneração natural é difícil, Sónia Guerra acredita que se podia "ter plantado e semeado muito mais" e diz que o que se fez até à data representa "muito pouco".

"O que [a tutela] tem feito é essencialmente a questão da venda da madeira, da remoção, dos leilões, deixando todo o restante trabalho de requalificação para depois", afirma a especialista, que garante não existir no ICNF - Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas "o reforço técnico, de meios humanos, tecnológicos, mecânicos, que se esperaria haver".

"Passa a ideia de que o Pinhal de Leiria, sendo a mata mais emblemática do país, não está a ser uma prioridade", conclui Sónia Guerra.

O engenheiro agrónomo e deputado do Bloco de Esquerda Ricardo Vicente, eleito por Leiria, que pertenceu ao Observatório do Pinhal do Rei até se demitir em junho de 2019, com críticas, considera que o ICNF "vive em pobreza extrema". Por isso, o Bloco de Esquerda pretende que metade dos 13,5 milhões de euros previstos no Orçamento do Estado 2020 para as matas nacionais do litoral venham a ser aplicados no ICNF com meios humanos e tecnológicos.

Outro objetivo do Bloco de Esquerda é comprometer, publicamente, o Governo com um calendário de ações e investimentos no Pinhal de Leiria e noutras matas nacionais do litoral.

Na opinião de Ricardo Vicente, o Governo demonstra "falta de vontade para construir um compromisso de recuperação de médio e longo prazo".

"Isso tem um preço caro a pagar no futuro que é a continuidade do desordenamento destas matas e a colocação em risco das populações e dos bens que estão em sua proximidade, porque dentro de alguns anos, se se mantiver o 'business as usual', as catástrofes voltam a aparecer", refere o deputado do Bloco.

O incêndio de 2017 atingiu 86% do Pinhal de Leiria, localizado, em exclusivo, no concelho da Marinha Grande.

Em janeiro de 2018, passam agora dois anos, o primeiro-ministro António Costa esteve na Marinha Grande a lançar a estratégia de recuperação das matas nacionais do litoral. E, em outubro do mesmo ano, foram conhecidas as recomendações da comissão científica constituída para o efeito pelo Governo.

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