Trezentos mil portugueses ficaram sem médico de família num ano

Subida de quase 50% em apenas um ano. Listas de espera regrediram para números de 2015. Associação que representa estes clínicos culpa a Covid-19, o aumento das aposentações, mas também o Governo.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem hoje mais 309 mil portugueses sem médico de família do que acontecia há um ano. Um aumento de 48% que levou o número de portugueses sem clínico definido nos cuidados de saúde primários a recuar cinco anos.

Ao todo, no final de agosto, segundo os números oficiais consultados e calculados pela TSF, existiam 953 mil utentes sem médico de família atribuído, num aumento contínuo que se sente há 11 meses consecutivos.

Recorde-se que nos últimos anos o Governo tinha conseguido reduzir estes números de pouco mais de um milhão de pessoas sem médico de família no final de 2015 para 730 mil em dezembro de 2019, avanço que se perdeu quase por completo nos últimos meses.

Num único mês, em julho, a perda de médico de família atingiu o valor mais elevado, afetando 66 mil pessoas.

A TSF questionou na passada quarta-feira o Ministério da Saúde sobre as causas destes aumentos tão significativos, mas até ao momento não recebeu resposta.

Lisboa e Vale do Tejo no topo, mas também Algarve e Alentejo

Os maiores problemas continuam, sobretudo, em centros de saúde da região de Lisboa e Vale do Tejo, havendo casos, como na Amadora, onde o número de utentes sem médico de família chega aos 29%.

Em Sintra essa percentagem é igualmente elevada (27%), tal como nos agrupamentos de centros de saúde do Arco Ribeirinho (24%, que abrange Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo), Arrábida (em Setúbal, 22%) e Estuário do Tejo (19%, nos concelhos de Vila Franca de Xira, Benavente, Azambuja, Arruda dos Vinhos e Alenquer).

Fora de Lisboa e Vale do Tejo, destaque para os cuidados de saúde primários do Algarve Barlavento (25%) e Alentejo Litoral (16%).

Covid-19 e um concurso lento

O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar diz à TSF que encontra duas razões, fundamentais, para este aumento abrupto de doentes sem médico de família.

A primeira está relacionada com a pandemia que adiou, de março para junho, a conclusão dos exames dos médicos que concluíram esta especialidade e que só depois se puderam candidatar ao concurso de admissão aberto para entrarem ao serviço.

No entanto, Rui Nogueira acrescenta que esta não foi a única razão pois o Ministério da Saúde podia ter sido mais rápido e o tempo perdido nos exames da especialidade não justifica tantos atrasos.

Situação grave em plena pandemia

Por outro lado, o representante dos clínicos acrescenta que tem existido um aumento dos médicos de família que se têm reformado o que ajuda a agravar os efeitos das aposentações que ainda não foram compensadas pelas novas entradas de mais de trezentos médicos de família que chegarão com o novo concurso.

O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar está convencido, contudo, que este crescimento tão abrupto de pessoas sem médico de família será mitigado com a conclusão do concurso de admissão, algo que prevê que aconteça daqui a mais de um mês.

O problema, acrescenta Rui Nogueira, que faz desta uma situação "preocupante", é que esta subida, mesmo que provisória, arrasta-se há meses e numa altura em que o sistema de saúde está especialmente fragilizado com o impacto da pandemia e em que os cuidados de saúde primários estão há meses com os seus serviços limitados para evitar o contágio da Covid-19.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

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