"Não despedi, nem quero despedir. Mas não sei como vou pagar salários"
rostos da pandemia

"Não despedi, nem quero despedir. Mas não sei como vou pagar salários"

O poeta anunciava: "cantaremos o medo". E poucas vezes os versos de Carlos Drummond de Andrade terão feito tanto sentido. É de medo que aqui se fala e foi a pensar nos empresários portugueses - que se veem a braços com um mundo novo - que a TSF decidiu falar com sete deles sobre os medos que os impedem de adormecer: O medo da pandemia; o medo da crise; o medo do medo que ficará depois de tudo isto.

Na última semana, o Governo bem se tem esforçado por anunciar medidas de apoio às empresas e aos trabalhadores, mas esses apoios, para muitos empresários, parecem um penso rápido numa gigante hemorragia que se avizinha.

"As quebras nas encomendas são enormes" (Rafael Miranda)

O mundo está em pausa, mas as videiras não param de crescer. A natureza trata de as fazer despontar, ainda que tenha de ser a mão humana a transformar a uva em vinho. É por isso que, todos os dias, os trabalhadores da R4 - uma empresa familiar que produz vinhos do Douro com 150 hectares e seis quintas - continuam a sair de casa para trabalhar a terra.

Com os restaurantes fechados, a hotelaria quase sem ocupação e as empresas de distribuição paradas, as garrafas não encontram o seu caminho quase natural: das encostas para o consumidor final. As plantas, contudo, não podem ser deixadas ao abandono.

"Temos temos de cuidar das vinhas, é como se fossem filhos: precisam sempre de um acompanhamento no seu crescimento", conta à TSF Rafael Miranda, um dos quatro irmãos que lideram a empresa.

A ideia de, pela primeira vez em dez anos de atividade, falhar o pagamento de um salário é um medo cada vez mais presente: "Somos uma empresa que já tem alguns funcionários, pelo menos, dez famílias. Isso preocupa-nos imenso. Até à data, nunca falhámos um salário, nunca falhámos uma condição. Tem-se vivido estes últimos tempos com muita apreensão."

Enquanto o mercado está suspenso, a única hipótese é apostar no digital: "Estamos a reforçar, hoje em dia, as vendas online, o que julgamos ser um posicionamento forte ao qual teremos de nos adaptar."

Ainda assim, há questões que assombram estes quatro irmãos que herdaram dos pais e do avô o amor pelos vinhos: "Quanto é que vamos engarrafar? Mantêm-se os engarrafamentos que estavam previstos? O que é que vai acontecer?"

O tempo atropela-os e o som da vindima parece já estar a bater à porta. Até lá, abre-se um leque de incertezas numa indústria que trabalha com um produto que não é considerado um bem de primeira necessidade: "O vinho não é um produto primário, ou seja, é um produto do qual as pessoas facilmente abdicam."

Entretanto, é preciso recuar no investimento, repensar estratégias e tentar minimizar o impacto da pandemia. Despedir pessoal ainda não é uma opção, mas os planos que tinham para contratar mais funcionários vão ter de ficar para depois.

As quebras nas encomendas "são enormes", os eventos e as provas de vinhos que estavam a ser pensadas para o verão terão de ser adiadas - ou até mesmo canceladas - e a importância de manter os funcionários a trabalhar com regras de contenção social obriga a custos imprevistos.

"Na parte das vinhas, estamos a trabalhar com preocupação, distância social e regras. Estamos a diminuir o número de pessoas por carro. São mais viagens, é mais gasóleo. São mais custos, mas temos de nos adaptar."

As linhas de crédito anunciadas pelo Governo para apoiar os empresários podem ser um balão de oxigénio, mas as taxas de juro são "altas" e manter postos de trabalho, "sem estar a faturar" e, com a obrigação do pagamento de impostos, é um desafio hercúleo ao qual muitas empresas, acredita Rafael Miranda, não vão conseguir responder com sucesso.

"É como exigir a um doente que não tenha os sintomas" (Pedro Avelar Dias)

Nas ruas de Lisboa, não se veem magotes de turistas com câmaras curiosas e analíticas, qual estetoscópio a auscultar a cidade. Não há trânsito, viagens de tuk tuk, nem choque de transeuntes nos passeios.

À medida que a mescla de sotaques se ia apagando das ruas por causa da pandemia, menos pessoas iam entrando no Faz Figura, o que levou os proprietários do restaurante da capital a decidirem fechar portas temporariamente, ainda antes de ter sido decretado o Estado de Emergência.

Pedro Avelar Dias é sócio-gerente deste restaurante, com quase meio século, que se dedica a divulgar a gastronomia e os vinhos portugueses. O pesadelo do empresário começou no final de janeiro, quando a Covid-19 ainda estava longe de Portugal, mas outras latitudes já tinham despertado para o problema.

"Na restauração, na maior parte dos casos, este problema não começou agora, começou há um mês ou mais quando começaram a surgir em série cancelamentos de marcações de grupos estrangeiros", explica à TSF.

Nas últimas semanas, com o agudizar da situação, eram cada vez menos os clientes e cada vez mais urgente encontrar soluções. Face a uma inevitável queda da faturação, o espaço viu-se obrigado a fazer um esforço para explorar outros modelos de negócio.

"Estamos a tentar construir uma área que normalmente não trabalhávamos, como os serviços de takeaway e de entrega ao domicílio, para ver se conseguimos alguma receita que nos possa ajudar nesta situação."

Mesmo assim, a solução não será suficiente e, para o negócio sobreviver, é preciso que chegue mais apoio do Governo, "caso contrário, empresas como a minha, nomeadamente na restauração, não resistirão a uma crise", assegura o sócio-gerente do Faz Figura.

Para Pedro Avelar Dias, a palavra crise é redutora, até porque, explica, "quando uma empresa não tem receitas não se trata de uma crise, é muito mais do que isso. Tenho as pessoas em casa, não despedi ninguém e não quero despedir ninguém. Mas não faço a mínima ideia como é que vou pagar os salários no final deste mês, nem como é que vou poder honrar os meus compromissos."

O receio de não resistir ao embate é assumido e o Faz Figura não é um caso isolado: "Há já restaurantes que dispensaram funcionários e a situação é muito complicada. É óbvio que no final deste mês serão poucas as empresas que terão condições de pagar aos seus funcionários, pelo menos na totalidade."

Critérios sem sentido, insuficientes, lentas. É assim que o empresário define as soluções apresentadas pelo Governo. Apesar de querer "ser construtivo" e de acreditar que o Estado tem de ouvir os empresários para chegar a melhores medidas, Pedro Avelar Dias considera que quando os apoios chegarem já poderá ser tarde demais.

"Parece-me óbvio que não chegará dinheiro a empresa nenhuma antes do final de abril ou mesmo em maio, porque se estão a encontrar soluções de tempo de paz para aquilo que o próprio Governo define como um tempo de guerra."

Quanto mais lento for este processo, defende o empresário, "mais difícil é as empresas não despedirem ninguém e conseguirem aguentar o seu funcionamento até chegar essa ajuda".

É por isso que Pedro Avelar Dias defende soluções como "apoio direto a salários, moratórias a alguns pagamentos de empréstimos aos bancos e ao Estado também" e regras eficazes e rápidas de apoio às empresas.

"Não se pode definir como um critério desqualificador de uma empresa factos que são gerados pelo próprio problema, como o não-pagamento de uma prestação de um empréstimo de um banco, por falta de faturação. Isto é uma pescadinha de rabo na boca. É como exigir a um doente que para ser tratado não tenha os sintomas."

"A época balnear poderá estar hipotecada" (Vítor Gonçalinho)

Há barreiras a impedir o acesso à praia do aterro, em Matosinhos. O calor convidaria a sair de casa, não fosse a prudência e o civismo obrigarem ao recolhimento. Na marginal há esplanadas que precisam do sol como um corpo precisa de vitamina D para crescer saudável. Depois de meses de frio e de menos faturação, espaços como o Xiringuito sentem-se sufocados pela realidade.

"O impacto da pandemia é brutal, porque, depois de quatro meses de inverno, começamos a entrar no bom tempo e quando estávamos a tentar respirar surge esta pandemia e obriga-nos a encerrar", lamenta o sócio-gerente do bar, Vítor Gonçalinho.

Em dias de "paralisia", Vítor Gonçalinho aproveita para fazer obras no espaço - com os funcionários que recusaram ficar em casa - e para pensar num serviço de takeaway sem grandes esperanças.

"Estamos inibidos de abrir ao público. Só podemos funcionar em regime de takeaway. Embora estejamos perto de uma malha urbana, penso que, no nosso caso, o takeaway não resultará. Somos, essencialmente, uma esplanada de sol, bom tempo."

O momento é, para Vítor Gonçalinho, "catastrófico" e o empresário só consegue pensar nos vinte funcionários que tem a cargo. Despedir está fora de questão, e mesmo os trabalhadores que estão em período experimental têm, pelo menos para já, o trabalho garantido.

Mais do que "temer a pandemia", Vítor Gonçalinho tem receio "do pandemónio", ou seja, "que as pessoas continuem muito medrosas, com receio de vir para espaços públicos. Há aqui um medo que eu creio que vai perdurar."

Além dos encargos inerentes a qualquer espaço de restauração, Vítor Gonçalinho lembra que tem responsabilidades acrescidas, já que são as concessões balneares, como o Xiringuito, a assegurarem os salvamentos nas praias. O empresário teme que toda a época balnear possa estar hipotecada.

"Estão suspensos os cursos de nadador salvador. Tudo está suspenso e temos uma época balnear a aproximar-se, o que obriga a formação e a preparação", alerta.

Vítor Gonçalinho acredita que não vão existir homens suficientes para assegurar o salvamento em todo o país: "Não haverá elemento humano para corresponder às necessidades."

Além disso, o empresário lembra que ainda não são claras "as medidas restritivas a serem implementadas e há dezenas de milhares de empregos sazonais que estão inativos". A consequência é óbvia: "Toda essa mão-de-obra sazonal, que é sobretudo estudantil, vive numa situação de não saber o que se vai passar", atira.

Apesar de Vítor Gonçalinho ponderar entrar em lay-off, o empresário vê as medidas apresentadas pelo Governo como "uma mão cheia de nada". Até porque, cada caso é um caso: "No meu caso terei de esperar um mês ou mais para provar um decréscimo de faturação dos 40%. Se nos atiram para mais um mês ou um mês e meio sem qualquer tipo de ajuda, aí obriga-me a pensar se não vale a pena despedir."

A esperança do empresário é que o novo coronavírus perca força com o tempo, que as pessoas possam voltar à praia e que negócio, mesmo com maiores cuidados e contenção social, possa voltar a ganhar o vigor de outros tempos.

"Havendo trabalho, nós não queremos estar a beneficiar de medidas de apoio. Nós queremos é trabalhar", remata.

"Deve haver isenção de impostos para pequenas e médias empresas" (Filipe Galante)

Quem passar por estes dias (e, sobretudo, por estas noites) pelas Galerias de Paris, no Porto, não encontrará o ambiente frenético da noite do Porto. As luzes fluorescentes que anunciam os bares estão desligadas, não há filas para entrar nas discotecas e o silêncio impera, num espaço onde a confusão costumava ser rainha.

Ainda antes de o Governo decidir que todas as discotecas do país deveriam encerrar, já o Plano B tinha decidido dar esse passo. O espaço de diversão noturna, que funciona não só como uma discoteca, mas como um ponto cultural fundamental da cidade do Porto (com espetáculos, concertos, DJ sets, performances e exposições) quis garantir a segurança dos clientes e dos funcionários, mas o fechar de portas não apagou todos os males.

Assim que decidiram desligar o néon, o impacto fez-se sentir: "Logo nesse fim de semana, íamos ter um DJ internacional, que vinha dos Estados Unidos, que tivemos de cancelar. Não deixei de pagar ao DJ, porque já estava tudo pago. Esse dinheiro foi todo perdido", começa por contar à TSF Filipe Galante, programador musical e sócio do Plano B.

Com o avançar da pandemia e o espaço fechado, as centenas (por vezes, milhares) de pessoas que passam pelo Plano B todos os fins de semana, passaram a estar recolhidas em casa, ou seja, a receita que entrava semanalmente, há 12 anos, na empresa deixou de existir de um dia para o outro.

"Os nossos principais receios são não aguentar a empresa, não aguentar os funcionários e, dependendo do tempo que isto durar, se teremos capacidades para continuar no ativo", partilha.

Filipe Galante acredita na sabedoria popular que aponta grandes remédios aos grandes males e por isso, está convicto, que as medidas anunciadas pelo Governo para ajudar as empresas são insuficientes e defende que as empresas não tenham de pagar, nesta fase, impostos ao Estado.

"Uma das medidas que devia ser tomada para as pequenas e médias empresas é haver isenção de impostos. Isto para permitir às empresas manter os seus funcionários. Isto pode fazer a diferença entre estas empresas conseguirem aguentar-se uns meses ou simplesmente, daqui a uns meses, deixarem mesmo de pagar impostos porque estão fechadas", sustenta.

O pico da crise pandémica ainda não está à vista e Filipe Galante já vislumbra uma grande quebra no negócio: "Vai haver em todas as atividades uma perda grande de empregos, uma perda grande de poder monetário, uma perda no turismo. Tudo isto junto vai fazer com que nem tudo seja como era dantes. Não vamos ter o mesmo retorno que vínhamos tendo até agora."

O mundo depois da pandemia será, certamente, diferente para os donos e funcionários de bares e discotecas, mas as dificuldades hoje e amanhã fazem-se sentir também em todas as atividades que orbitam no universo do espetáculo.

"Infelizmente, já não se vende música hoje em dia. Os streamings não pagam nada. Por isso, bandas, DJ, produtores musicais, técnicos de som, técnicos de luz, empresas de aluguer, festivais e para todas estas equipas, é imprevisível o que vai acontecer. Estas pessoas não têm nenhum tipo de retorno neste momento", lamenta.

"Não tenho grande fé em ajudas externas" (Carlos Pinto)

Não tem um restaurante, um hotel, uma esplanada ou uma discoteca, mas Carlos Pinto trabalha com todos eles. Fundador de uma gráfica que trabalha, sobretudo, com publicidade e sinalética para painéis, viaturas e expositores, não teve tempo ainda para sentir o impacto da pandemia no negócio. O empresário sabe, contudo, que a Artesinal, tal como a maioria das empresas, vai passar por tempos difíceis.

Até agora, a empresa viu ser suspenso apenas um trabalho que já estava pronto, mas, por trabalharem para negócios que estão a registar uma quebra de rendimentos, têm consciência" de que "as encomendas começarão a escassear e os recebimentos também terão impacto na devida altura".

As portas da gráfica estão fechadas, porque o ateliê não está aberto ao público, mas lá dentro, Carlos e Vera (a mulher), continuam a trabalhar. Por estes dias, receber e entregar encomendas exige mais cuidado, mais distanciamento social e os clientes continuam a ser os mesmos de sempre, alguns dos quais com quem já trabalham desde que abriram o espaço há 30 anos.

Não há funcionários para despedir ou salários para pagar, já que na empresa trabalha apenas o casal, mas essa condição não chega para os sossegar. Por serem profissionais liberais com "uma empresa em nome individual", sentem-se esquecidos pelo Estado e não pensam recorrer às medidas de apoio anunciadas.

"Não tenho grande fé em ajudas externas. No nosso caso, vamos tentar sobreviver recorrendo a pequenas verbas que fomos poupando ao longo dos anos e, sobretudo, reduzir ao mínimo os custos que temos", admite.

O cenário de contenção extrema de custos não é novo para o empresário que passou pela crise de 2008 "com tremendas dificuldades".

"Teve um enorme impacto na hotelaria e na restauração, que são alguns dos nossos clientes principais. Da mesma forma, estamos a ver restaurantes a fechar, a hotelaria com uma ocupação imensamente baixa. Com certeza que vamos começar a sentir a ausência de encomendas que eram muito regulares ao longo dos anos."

Para já, e antes que a situação piore, decidiram não avançar com o investimento em novos equipamentos que tinham planeado. Assim, com cortes nas despesas até onde for possível e recorrendo às poupanças da família, Carlos e Vera acreditam que o negócio vai sobreviver: "Não vai ser esta crise que nos vai deitar abaixo ou fazer fechar."

"As empresas não podem ser obrigadas a suportar o custo desta pandemia" (Mário Delgado)

As oficinas estão vazias e não há quem queira comprar e vender carros numa altura em que nas estradas se vê pouco mais do que o alcatrão, listras brancas e sinais que orientam os poucos que por ali passam. Sem vendedores e compradores, o primeiro corte é nos serviços externos para, por exemplo, lavar os carros.

As denominadas empresas de outsourcing do ramo automóvel, como a que Mário Delgado administra, ficam assim com perdas significativas de capital: "Ao fim de três dias de ter sido decretado o Estado de Emergência, mais de 50% dos nossos serviços estão cancelados. Estamos perante um cenário catastrófico, os postos de trabalho estão a desaparecer rapidamente."

Sem trabalho e sem faturação, os custos com a mão-de-obra começam a ser incomportáveis: "Apesar de o nosso primeiro-ministro ter vindo dizer que é preciso 'emprego, emprego, emprego', é impossível ter 'emprego, emprego emprego' se não houver faturação. Não podemos estar a pagar ordenados às pessoas e não estar a faturar. Só 80% dos nossos custos são mão-de-obra e é impensável continuar a pagar ordenados sem ter apoio nenhum e sem faturação. É condenar a empresa à falência."

Para Mário Delgado, o regime de lay-off anunciado pelo Governo "não funciona" por ser de difícil acesso e tardio na sua aplicação: "No melhor dos casos, conseguimos aceder ao regime de lay-off daqui a 60 dias. O problema é imediato. Eu tenho pessoas paradas em casa há mais de uma semana."

O empresário explica que, tendo em conta que a atividade da empresa deve sofrer uma redução de mais de 80%, "é impensável estar a pagar meio milhão de euros mensais de encargos com ordenados".

O regime ideal, na visão de Mário Delgado, seria um semelhante ao que está a ser implementado em Espanha, isto é, "a empresa manda para casa todas as pessoas que estão a mais e o Estado paga o subsídio de desemprego. As pessoas que ficam a trabalhar na empresa é a empresa que suporta".

O administrador avisa que "o Estado vai acabar por gastar muito mais dinheiro, é um regime muito menos transparente e que, na realidade, não soluciona o problema das empresas. Não se pode estar a pedir às empresas para arcarem com o papel social do Estado."

Mário Delgado vai mais longe e acusa o Estado de "empurrar empresas para o endividamento", quando devia ser o próprio Estado a assumir essas dívidas.

"O Estado é que se pode endividar, pode pedir a Bruxelas para comprar a dívida pública. O Estado tem de se endividar e tem de injetar dinheiro na economia real. Não é através dos bancos, que estão a fazer um belíssimo negócio. As empresas não podem ser obrigadas a suportar o custo desta pandemia."

No mesmo plano, o empresário pede que o Governo olhe para o exemplo de Espanha e adote medidas como "proteção na eletricidade, água e gás; rendas para as famílias carenciadas e um sistema de lay-off que efetivamente funcione e que proteja os funcionários e as empresas".

"Tenho plena confiança que o mercado imobiliário se vai manter forte" (Clara Moura)

Sem apertos de mão, sem toques nas maçanetas e com muito gel desinfetante. Assim têm sido, nas últimas semanas, as visitas - cada vez mais escassas - a casas e apartamentos marcadas pela agência imobiliária "Home Hunting".

Os contactos são cada vez menos e a empresa que trabalha na zona da Grande Lisboa está a aprender a trabalhar à distância e a adaptar-se a uma nova realidade.

"Estamos a tentar perceber como é que, neste novo mundo em que não pode haver contacto social, podemos permitir que, nesta fase inicial, quem precisa mesmo de vender, comprar ou arrendar casa o faça", explica a dona da agência Clara Moura.

Em tempo de guerra não se limpam armas e a tecnologia assume um papel particularmente importante nesta altura: "Quando tem mesmo de se fazer a visita, faz-se. Se não, temos uma série de alternativas digitais que permitem isso: a visita através do telemóvel com os agentes na casa, por exemplo."

A aposta no mundo digital não é uma novidade na agência que já conta com conteúdos online sobre a cidade de Lisboa, conteúdo esse que, agora, fica suspenso ou tem de ser repensado.

"Já não podemos fazer os vídeos sobre os bairros, porque já não há pessoas na rua. O podcast para o qual já tenho um estúdio montado na agência já vou ter fazer a partir de casa só com áudio. Toda essa parte tem de se mudar."

Embora haja cada vez menos clientes a fazerem pedidos de visita aos imóveis, o impacto financeiro no mercado imobiliário ainda não é, nesta fase, significativo: "O que acontece no mercado imobiliário, ao contrário de outros, é que é um mercado de reação lenta. É um mercado que tipicamente demora muito tempo a reagir. A procura e a oferta não se ajustam de imediato."

Com as visitas paradas e o mercado "bloqueado", resta às agências imobiliárias entrarem em contacto com a rede de clientes e pensarem no futuro do setor depois da pandemia: "Os clientes neste momento não querem que lhes atirem os produtos para cima. Temos de dar informação, temos de formar, temos de mostrar a toda a equipa comercial como é que nós aproveitamos esta parte de meia-pausa."

Clara Moura mantém-se otimista e assegura que o mercado imobiliário está muito "ativo" e a preparar-se para enfrentar uma nova crise.

"Não é expectável que haja uma queda abrupta, pode haver um ajustamento e algumas descidas, mas tenho plena confiança que é um mercado que se vai manter forte, porque as pessoas precisam sempre de comprar e vender imóveis e de arrendar."

A pandemia da Covid-19 deu sentido ao poema. A sociedade foi convocada para o "Congresso Internacional do Medo". Resta saber se "morreremos de medo" ou se cresceremos como flores viçosas (e não "medrosas") sobre o seu túmulo.

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