Neste Alentejo há caril e turbantes
Reportagem TSF

Neste Alentejo há caril e turbantes

No concelho alentejano de Odemira, o número de imigrantes que trabalha na agricultura está a mudar o rosto das localidades. A geografia social e humana transformou-se e as empresas agrícolas já não vivem sem esta mão de obra. Mas a integração destas pessoas nem sempre é fácil. Entre a população local, há quem não aceite bem esta gente diferente que povoa as ruas.

"Eu tenho 10 anos e sou da Índia", é assim que Nikil, menino indiano do Punjab, se apresenta. Chegou há três anos a São Teotónio, no concelho de Odemira. É uma das crianças que viajaram para Portugal com os pais, imigrantes que trabalham na agricultura.

Nesta zona do Litoral Alentejano e Costa Vicentina, aqueles que vêm de fora são cada vez mais. A diferença salta à vista. Basta parar um pouco no largo da igreja para observar a passagem de homens de turbante, tez escura, alguns de barba comprida.

Gian Pal, 36 anos, é um deles. Chegou também há três anos a Portugal. Combinamos encontrar-nos num banco de jardim nesse mesmo largo ao fim da tarde. Gian tenta falar português, mas consegue-o com dificuldade e tem de se socorrer amiúde do inglês. Explica que veio para Portugal porque no seu país, a Índia, as oportunidades de trabalho não surgiam. "Lá é tudo muito difícil", lamenta. Conta que deixou família e uma filha pequena do outro lado do mundo. Quer um dia reunir todos em Portugal.

Gian representa uma das muitas centenas de histórias de imigrantes que rumaram até ao concelho de Odemira. Progressivamente, esta região alentejana habituou-se às vagas de imigração, mas nos últimos anos assistiu ao aumento exponencial de uma imigração diferente, a de pessoas oriundas da Ásia.

Deolinda Seno Luís, vereadora da Ação Social da Câmara Municipal de Odemira e também presidente da Comissão Local para a Interculturalidade, começou a perceber que esta realidade alterava toda a geografia humana e social do concelho e que eram necessária soluções. O grande número de imigrantes "começou a tornar visível no território algumas assimetrias sociais", admite a autarca.

O fluxo é contínuo, os números estão sempre a mudar, e a população migrante é muito volátil. De acordo com os últimos números conhecidos, 19% da população do concelho são imigrantes legalizados, de 68 nacionalidades diferentes.

Integração difícil

Nas ruas, cheira a caril e, sobretudo ao fim da tarde, veem-se homens em grupo que terminaram o seu trabalho nas estufas.

Deslocam-se da Índia, do Nepal, do Bangladesh, da Bulgária. Têm fisionomia, hábitos, religiões diferentes dos portugueses. E essas diferenças não são fáceis de assimilar por quem estava habituado à pacatez alentejana.

Dário Guerreiro, presidente da Junta de Freguesia de São Teotónio, assiste todos os dias a este embate social.

"O choque cultural é enorme", admite. "Eles têm culturas, maneiras de estar, diferentes. Se hoje dermos uma volta por São Teotónio ao fim da tarde, parece que estamos num bairro indiano", conta o autarca. "Muitos não falam inglês, e os que falam nem sempre é um inglês fácil de perceber".

E se a população local não hostiliza abertamente estas pessoas, muitos não convivem com elas de modo confortável. Embora os locais não o exprimam abertamente, na terra sente-se já algum incómodo pela presença de tanta gente vinda de fora. "As pessoas acabam por se fechar e vão reclamando aqui e acolá, nos cafés e nos grupos de amigos", diz o autarca.

Tânia Guerreiro, do CLAIM - o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes de Odemira -,que anda pelas freguesias em itinerância a atender imigrantes, tem uma opinião mais otimista. A integração é mais positiva "quando vêm com as famílias e os filhos estão na escola ao lado dos nossos filhos",salienta.

Entre a população as opiniões dividem-se. Há os que compreendem que estes migrantes procuram apenas trabalhar e ter uma vida melhor e outros, como Francisco, acham estranho sair à rua e por vezes ter dificuldade em encontrar na sua vila alguém que fale português."Isto veio descaracterizar completamente a vila", lamenta. " Para qualquer lado que se vá encontra-se 10-15 indivíduos desses e os portugueses são a minoria. É desagradável", conclui.

Na freguesia de Boavista dos Pinheiros, outra localidade onde há muitos imigrantes, Brigida mostra-se mais tolerante." Eles não são europeus, têm um fisionomia diferente mas nós também emigrámos e éramos diferentes dos povos do centro da Europa ", refere "e eles vêm à procura de uma vida melhor".

Para tentar minimizar o choque social, a câmara Municipal de Odemira aderiu à rede de Municípios Amigos da Diversidade e do Imigrante e criou um Plano Municipal para delinear estratégias.

"É um plano em que população local é também alvo dessa intervenção para que compreenda, aceite e conheça estas pessoas", explica a vereadora da câmara de Odemira. Deolinda Seno Luís salienta que "o advento da agricultura é uma coisa positiva", estes imigrantes contribuem para minimizar a desertificação humana desta região alentejana e isso é uma mais valia que a população tem de entender.

Mão de obra necessária para a economia da região

O sudoeste alentejano e particularmente o concelho de Odemira está tornado um imenso mar de estufas. Uma situação que desagrada a quem defende a sustentabilidade ambiental mas que, apesar de tudo, ainda não ultrapassou os limites da lei.

Ali instalaram-se inúmeras empresas, muitas delas estrangeiras, que produzem frutos vermelhos e muitas outras culturas hortícolas.

Margarida Carvalho, diretora executiva da AHSA - Associação de Horticultores, Fruticultores e Floricultores do Sudoeste Alentejano - representa 20 empresas e 3.500 postos de trabalho.

Margarida garante que nada disto seria possível sem esta população migrante." Temos cada vez menos pessoas locais porque é uma população envelhecida e precisamos de mão-de-obra".

A representante dos agricultores afasta a ideia de que os imigrantes são explorados, garantindo que raramente auferem o ordenado mínimo devido às horas extraordinárias e aos prémios de produtividade

Habitação é o maior problemas para os imigrantes

Este boom de gente que chega de fora está a provocar problemas ao nível da habitação. Algumas pessoas são alojadas pelas próprias empresas em casas ou em contentores que, na opinião da representante da AHSA, são instalações condignas." Se visitar alguns alojamentos que existem vai ver que têm muito boas condições", garante.

Gian Pal explica que conseguir casa é o mais difícil e por vezes numa habitação vivem muitos imigrantes, quase como sardinhas em lata. E as condições degradam-se. "Por vezes, numa única casa estão a viver muitas pessoas juntas. Então quando voltam do trabalho têm problemas para fazer a comida, para ir à casa de banho...", conta o indiano

"Quando a minha família vier, vou arranjar outra casa e ficar a viver aqui para sempre", garante. "Irei à Índia apenas como turista, mas ficarei a viver aqui ".Para este imigrante, regressar ao seu país está fora de questão.

Se as casas escasseiam quem ganha são os proprietários que conseguem fazer bom dinheiro com os imigrantes. Governo e autarquia de Odemira criaram um grupo de trabalho para tentar resolver a situação mas a questão encontra-se longe de estar resolvida.

Há mais quem ganhe com esta vinda de imigrantes. O comércio está a aumentar e surgem mercearias e restaurantes apenas com produtos asiáticos. Alakvender, indiano, de 29 anos, veio para Portugal e depressa percebeu que nesta zona do Alentejo podia fazer negócio. Começou por trabalhar na agricultura mas atualmente tem um supermercado com produtos indianos e nepaleses que já angariou muitos clientes.

Escola inclusiva

No agrupamento de Escolas de S. Teotónio, o diretor Rui Coelho é obrigado a gerir todos os dias sensibilidades diferentes. "Temos miúdos de 23 nacionalidades diferentes", explica.

Os programas foram adaptados, a escola tem um contrato de autonomia e a sua prioridade para quem chega de novo é ensinar a língua. Tarefa que não é fácil. "Milagres não se fazem. Demora pelo menos 2 anos a adaptar um miúdo convenientemente", garante.

Rui Coelho explica que entre os alunos, portugueses e estrangeiros, a integração até não é difícil. Corre pior quando se envolvem os familiares. E, por vezes, já se notam alguns laivos de xenofobia. "O estrangeiro é sempre o primeiro culpado do que não corre bem. Neste momento, S. Teotónio é uma comunidade que se está a tornar perigosamente conservadora", lamenta.

É esta diferença de tratamento que Nikil sente. Foi com este menino indiano de 10 anos, de sorriso fácil, que começou esta reportagem.

Ele diz com mágoa que a integração com as crianças portuguesas não é fácil. "Eles não gostam, nas salas não nos ligam e lá fora brincam com os seus amigos. Quando tento falar com eles dizem 'sai daqui' ", lamenta.

Nikil frequenta o espaço ST. ST de S. Teotónio. É um projeto que existe desde 2013, promovido pela TAIPA e financiado pelo programa Escolhas.

O projeto começou para incentivar os filhos de imigrantes a irem à escola. Mas hoje já faz muito mais pelos alunos estrangeiros." Para além de brincarem, aprendem a língua e capacitamo-los a nível informático", esclarece a coordenadora Tânia Santos.

A frequentar o mesmo espaço há também crianças portuguesas e Tânia sublinha que não podem ser sentidas discriminações. As discriminações de que se queixava Nikil. "Nós temos o sentimento de família e todos têm que ser tratados por igual", afirma.

Integrar estas pessoas num meio pequeno como são estas vilas alentejanas é um desafio constante. E se é diferente a cor da pele e os hábitos do Nikil e de tantos outros imigrantes que povoam este Alentejo com cheiro a caril, a música é linguagem universal para todos. Os miúdos deste projeto, portugueses e estrangeiros, conceberam uma música e um vídeo que é o seu orgulho.

Através da arte explicam da melhor forma o que quer dizer a palavra "integrar".

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